Mundo de ficçãoIniciar sessãoAntes que consiga dar um passo para trás, mãos firmes se fecham ao redor de seus braços.
Luna prende a respiração, o coração disparando, o corpo reagindo antes da mente. O choque a faz erguer o rosto no mesmo instante.
O homem à sua frente tem o dobro do seu tamanho; ombros largos; os olhos são de um azul frio, atento; o cabelo está perfeitamente penteado para trás, a barba bem feita, o terno escuro impecável.
Ele a segura com força suficiente para impedir que ela caia, mas não afrouxa. O olhar dele desce rápido pelo rosto dela, avaliando.
— Quem é você? — a voz sai baixa, firme, sem qualquer traço de gentileza.
Luna engole em seco.
A proximidade a deixa sem ar. O cheiro discreto de perfume caro, o calor do corpo dele tão perto, as mãos ainda presas em seus braços.
— E-eu… — ela gagueja, sentindo o rosto esquentar. — Eu sou a Luna. A... babá?
Os olhos dele vão do rosto dela para a porta do quarto de Oliver e em seguida volta para Luna.
— Conheceu o Oliver. — não foi uma pergunta. — E ele?
— Eu me apresentei a ele, li um livro e ele dormiu.
Algo muda no ar.
Os ombros dele relaxam quase imperceptivelmente, como se uma tensão antiga tivesse cedido por um segundo. Só então ele parece se dar conta do contato.
As mãos se afastam dos braços de Luna lentamente. Não há pedido de desculpas. Apenas a retirada do toque, como se aquilo nunca tivesse acontecido.
Ele dá meio passo para trás, recuperando o espaço entre eles.
— Dormiu? — repete, baixo e olhando em seu relógio.
O olhar azul retorna ao rosto dela, mais atento agora, menos agressivo. Não gentil. Nunca gentil. Mas diferente.
Luna assente.
— Ele… parecia cansado. Só li para ele. — completa, insegura, como se precisasse se justificar. — “Onde Vivem os Monstros”.
Ele olha de novo para a porta do quarto do filho, como se confirmasse algo que se recusava a acreditar. Quando volta a encará-la, a expressão está fechada, mas há algo tenso por baixo. Algo contido.
— Oliver não dorme com estranhos. — diz, por fim.
Não é um elogio. Nem uma acusação.
É um fato.
— Sebastian Hale. — ele se apresenta, seco. — E você não devia estar aqui sozinha.
O olhar dele a percorre mais uma vez, agora avaliando não só quem ela é, mas o impacto que já causou.
— Venha. — ordena, virando-se em direção as escadas. — Precisamos conversar.
Eles descem em silêncio.
Sebastian segue à frente. Luna vem alguns degraus atrás, olhando tudo a sua volta. A casa é grande demais para aquele silêncio — sofás amplos, janelas altas, tudo impecável e impessoal.
A sala de estar é enorme. Tons neutros, móveis caros, nenhum objeto fora do lugar. Nenhuma foto. Nenhuma memória exposta.
— Pode se sentar. — Sebastian diz, apontando para um dos sofás, sem sequer olhá-la.
Luna obedece. Senta-se na ponta, postura rígida, mãos entrelaçadas no colo.
Ele caminha até o bar embutido, serve-se de uma dose de uísque com movimentos precisos, automáticos. Gelo. Copo. Silêncio.
— Quer? — pergunta, sem se virar.
— Não. — Luna responde rápido demais. — Eu não bebo… de estômago vazio.
O comentário parece pequeno, irrelevante. Mas faz Sebastian parar.
Ele se vira devagar, o copo ainda na mão.
— Você não jantou? — pergunta.
Luna pisca, surpresa com a pergunta.
— Não. Eu não tive... — ela pensa em falar dinheiro, mas muda de ideia. — tempo.
Ele a observa por alguns segundos, como se aquilo não estivesse nada bem.
Sebastian apoia o copo no bar sem beber.
— Aqui ninguém pula refeições. — diz, seco. — Especialmente alguém que vai cuidar do meu filho.
Ele caminha até a porta e chama, sem elevar a voz:
— Margaret.
A governanta surge quase de imediato.
— Sim, senhor?
— Prepare algo leve. Para agora. — ele diz. — Para a senhorita Luna.
Margaret assente e desaparece.
Sebastian volta a olhar para Luna, braços cruzados.
— Vamos esclarecer algumas coisas. — diz. — Oliver tem seis anos. Somos só nós dois e os empregados.
Ele faz uma pausa curta, o maxilar tensionando.
— Você já deve ser a vigésima babá que contrato só este mês. — diz, com frieza. — E, pela estatística, amanhã talvez eu esteja procurando a vigésima primeira.
Sebastian suspira, pesado, e finalmente pega o copo novamente, girando o líquido âmbar sem beber.
— Essa vaga é em tempo integral. — continua. — Preciso de alguém com Oliver vinte e quatro horas por dia.
O olhar azul se fixa nela, direto, invasivo.
— Sua casa é própria? — pergunta. — É casada?
— Não. Para as duas perguntas.
Sebastian balança a cabeça lentamente, o copo descrevendo um pequeno arco em sua mão, como se aquela resposta confirmasse algo que ele já havia decidido antes mesmo de perguntar.
— Bom. — A palavra sai neutra, mas definitiva. — Se ainda quiser esse emprego pela manhã, meu motorista vai levá-la até a sua casa para buscar seus pertences.
Luna abre a boca, mas não encontra nada que faça sentido dizer. Ainda está tentando acompanhar a velocidade com que a própria vida parece estar sendo rearranjada diante dela.
Antes que consiga reagir, Margaret entra na sala com uma bandeja nas mãos. O prato é simples — sopa clara, pão, uma pequena porção de frutas — mas o cheiro faz o estômago de Luna se contrair de forma quase dolorosa.
Sebastian lança um olhar rápido para a governanta.
— Quando ela terminar de jantar, leve-a ao quarto. — diz. Não é um pedido. — Ela fica no quarto ao lado do de Oliver.
Margaret assente, sem demonstrar surpresa alguma, e se aproxima de Luna, apoiando a bandeja sobre a mesa baixa à sua frente.
— Se precisar de algo, senhorita — diz em tom baixo — é só chamar.
Quando Luna observa a governanta deixando a sala, ela percebe que Sebastian já tinha ido.
O silêncio retorna à sala grande demais.
Luna encara a bandeja por alguns segundos, ainda processando tudo: o emprego que não era o emprego, a casa que não era sua, o homem que falava como quem assina contratos — e o menino de olhos cansados, que parecia carregar um fardo enorme.
Ela pega a colher com a mão levemente trêmula.
Talvez aquilo fosse loucura.
Talvez fosse um erro colossal.
Mas ninguém ali se importou se a classe social dela era diferente dos demais e aquilo já era um bom sinal.







