3

Luna sente a respiração falhar.

Quase cinco mil libras.

Ela aperta o papel com cuidado, como se aquilo pudesse desaparecer se fosse brusca demais.

Babá... 

Apesar de sua mãe ter tido um abrigo, após elas se mudarem para NY, Luna não teve contato com outras crianças. Muito menos quando estava mais velha. 

Mas por cinco mil euros mensais, Luna estava disposta a ser babá até de cachorro.

O endereço chama sua atenção. Chelsea. Um dos bairros mais caros de Londres.

— Isso só pode ser brincadeira… — murmura.

Ela vira o papel, esperando encontrar alguma explicação, um nome, qualquer coisa. Mas há apenas um detalhe a mais, escrito à mão no rodapé:

“Compareça hoje, às 19h. Pergunte por Sebastian Hale.”

O café já esfriara em suas mãos, esquecido. Aquele trabalho não era dela. Nunca fora. O envelope tinha dono. Dona. A mulher apressada. A verdadeira candidata.

— Não é meu… — sussurra, mais para se convencer do que por certeza.

Ela imagina a mulher voltando à cafeteria, percebendo o envelope perdido, o desespero ao lembrar da entrevista. Imagina alguém como ela, contando moedas, agarrando-se àquela oportunidade como a última boia em mar aberto.

Luna fecha os olhos por um instante.

Roubar o emprego de outra pessoa.

A ideia a faz se contorcer por dentro.

Mas então o pensamento inevitável volta, cruel e insistente: o bilhete na geladeira. 05/05. Suas coisas na calçada. O aluguel atrasado. O último dinheiro gasto naquele café superfaturado.

Ela abre os olhos.

— E quem vai me roubar se eu não for? — murmura, amarga.

Talvez a mulher nem fosse à entrevista. Talvez tivesse desistido. Talvez já tivesse algo melhor. Talvez aquele envelope não fosse mais importante para ela.

Luna passa os dedos pelo papel mais uma vez, sentindo a aspereza agora como um aviso. Aquilo podia dar errado.

Mas também podia ser tudo o que ela precisava.

Ela dobra o papel com cuidado e o guarda novamente no envelope. Olha ao redor da cafeteria, para as pessoas elegantes, tranquilas, que nunca precisaram escolher entre dignidade e sobrevivência.

O relógio na parede marca 17h42.

Ela tinha pouco mais de uma hora para decidir se iria até Chelsea.

[...]

Luna desce na estação mais próxima de Chelsea e logo percebe que algo está errado.

Não havia movimento. Nem lojas. Nem o burburinho típico da cidade. Apenas ruas largas, árvores altas e casas escondidas atrás de muros e portões imponentes.

Ela confere o endereço no papel pela terceira vez.

— É por aqui… — murmura.

O restante do caminho ela teria que fazer a pé.

O céu já começa a escurecer. Luna ajeita a bolsa no ombro e começa a caminhar.

A cada quarteirão, as construções ficam maiores. Portões de ferro. Jardins extensos. Câmeras discretas presas aos muros. 

“Talvez eu esteja cometendo um erro enorme.”

Ela pensa em voltar. Mais de uma vez. Mas então o rosto da gerente da Maison Ardent surge em sua mente. O bilhete na geladeira. O número escrito no papel: 4.800 libras.

Luna segue.

Quando finalmente chega, precisa parar.

À sua frente, ergue-se uma mansão afastada da rua, protegida por um portão negro de ferro trabalhado. O nome Hale está gravado discretamente em uma placa de metal ao lado do interfone.

Ela ergue a mão, hesita por um segundo… e aperta o botão do interfone.

O silêncio se prolonga.

Então, um clique.

— Sim? — uma voz masculina surge.

— Boa noite… — começa, sentindo a garganta seca. — Meu nome é Luna Clarke. Eu vim por causa da vaga de babá.

Há uma pausa do outro lado.

Longa demais.

— Espere aí. — diz a voz, por fim.

O portão começa a se abrir lentamente, rangendo baixo. 

Luna dá os primeiros passos para dentro da propriedade e percebe que o caminho até a mansão é muito mais longo do que imaginara. Uma estrada de pedra clara serpenteia por um jardim amplo, perfeitamente cuidado, iluminado por postes baixos que lançam uma luz amarelada e fria ao mesmo tempo.

Ela caminha devagar e então vê uma mulher vindo da direção oposta.

Ela caminha rápido, quase tropeçando, como se estivesse fugindo. Os cabelos estão presos de qualquer jeito, a maquiagem borrada. Os olhos inchados e vermelhos denunciam o choro recente. Quando se aproxima, a mulher diminui o passo e encara Luna com intensidade demais para uma desconhecida.

— Você… — a voz sai rouca. — Vai entrar?

Luna para instintivamente.

— Eu… vim por causa da vaga — responde, insegura.

A mulher solta uma risada curta, sem humor algum. Um som quebrado.

— Não faça isso consigo mesma. — diz, aproximando-se mais um pouco. — Dá meia-volta. Vai embora enquanto ainda pode.

Luna engole em seco.

— Por quê?

A mulher passa a mão pelo rosto, nervosa, como se tentasse apagar algo que não sai.

— Essa casa... aquela criança... eles vão te enlouquecer. Ele também. Ele é... cruel. 

Ela encara a mansão ao fundo e volta a encarar a mulher.

— Ele?

A mulher não responde.

Por um segundo, parece lutar contra algo dentro de si. Seus lábios se abrem, como se fosse dizer mais alguma coisa, mas nenhuma palavra sai. Em vez disso, ela apenas balança a cabeça, num gesto derrotado.

— Vá embora… — murmura, já se afastando. — Enquanto ainda consegue.

E então segue apressada pelo caminho de pedras, sem olhar para trás, os passos cada vez mais rápidos até desaparecer na escuridão que levava ao portão.

Luna permanece parada por alguns segundos. Ela olha para a mansão outra vez.

Talvez a mulher estivesse exagerando. Cansada. Frustrada. Desesperada como ela própria estivera horas antes.

— As pessoas enlouquecem por menos… — murmura para si mesma, tentando racionalizar.

Luna respira fundo, ajeita a bolsa no ombro e retoma o caminho.

Quando finalmente alcança as portas principais, duas folhas altas de madeira escura com detalhes em metal, ela sente um arrepio percorrer sua espinha. Ergue a mão, hesita apenas um instante… e b**e.

A porta abre lentamente. Uma mulher de meia-idade surge no vão. Uniforme impecável, postura rígida, olhar atento que a analisa da cabeça aos pés em um segundo calculado. 

— Eu sou... 

Luna tenta se apresentar, mas a empregada a interrompe.

— Eu sei. A babá. Entra. Ele está esperando.

O coração de Luna começa a bater forte demais. Há algo errado. Muito errado. Mas tudo acontece rápido demais para que ela consiga formular qualquer pergunta coerente.

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