4

— Meu nome é Margaret. — a empregada diz enquanto fecha a porta atrás delas. — O senhor Hale está ocupado e vai encontrá-la assim que acabar. O menino está no quarto, no andar de cima. 

Menino.

Luna engole em seco, apertando a alça da bolsa com força. 

— Desculpe, acho que houve um engano... — ela começa, tentando recuperar o controle da própria voz. — Eu vim para uma entrevista... ainda não fui con...

— O quarto é o segundo à direita — Margaret a interrompe, já caminhando pelo corredor amplo. — Ele já jantou e está pronto para dormir... ou só ficar deitado lá.

Luna para.

O nome menino ecoa de novo em sua cabeça, agora acompanhado de algo muito pior: certeza de que aquilo não era uma entrevista.

— Com licença — diz, um pouco mais firme, forçando os pés a ficarem no lugar. — Acho que houve um engano. Eu vim apenas conversar sobre a vaga. Não recebi nenhuma confirmação…

Margaret finalmente se vira para ela.

O olhar da mulher é sério, experiente demais.

— Senhor Hale não costuma perder tempo com entrevistas formais — responde. — Quando alguém chega até aqui, é porque já foi avaliada o suficiente.

Luna então se lembra da mulher que esqueceu o envelope naquela cafeteria. A mulher que com certeza tinha sido avaliada e tinha experiencia com crianças.

Margaret observa Luna e então diz:

— Você decide. Vai subir ou vai embora?

Luna percebe detalhes que antes haviam passado despercebidos: quadros sóbrios demais, corredores longos demais, uma quietude quase opressiva.

Ela pensa na mulher chorosa no caminho.

Essa casa… aquela criança… ele…

— Se eu subir… — Luna começa, escolhendo as palavras com cuidado — eu estarei aceitando o emprego?

Margaret não responde de imediato. Apenas se vira novamente e começa a subir os primeiros degraus da escada.

— Estará aceitando o teste — diz, por cima do ombro. — O emprego… depende de você sobreviver à primeira noite.

Ela deveria ir embora. Tudo dentro dela grita isso. Mas seus pés não se movem. Não quando pensa no bilhete na geladeira. No café pago com o último dinheiro. No vazio que a espera se atravessar aquela porta de volta.

Luna respira fundo.

E começa a subir as escadas.

No topo, um corredor ainda mais longo e com diversas portas fechadas. Margaret para diante da segunda porta da direita e b**e uma única vez.

Ela abre a porta e dá um passo para o lado, permitindo que Luna veja o interior do quarto.

— Ele está aí — diz, baixo. — Boa sorte.

O quarto é grande demais para uma criança.

As paredes claras estão quase vazias, decoradas apenas com alguns quadros discretos. Poucos brinquedos repousam organizados em prateleiras altas, intactos, como se quase nunca fossem tocados. Não há bagunça. Não há cor em excesso. Não há sinais de infância espalhada pelo chão.

No centro do quarto, uma cama ampla.

O menino está deitado de costas, olhando fixamente para o teto. O cobertor vai até o peito, perfeitamente alinhado. Ele não se mexe quando Luna entra. Não vira o rosto.

— Oi… — Luna diz, a voz saindo mais baixa do que pretendia.

O menino não responde. Continua olhando para o teto.

— Eu sou a… — ela hesita por um segundo que parece durar minutos. — Luna.

Não diz babá. Não consegue.

O menino continua em silêncio, mas finalmente vira o rosto na direção de Luna. Seus olhos azuis e cansados, percorrem cada detalhe dela: a bolsa simples, o casaco gasto, o cabelo preso de qualquer jeito.

— Qual é o seu nome?

Silêncio.

Ela se aproxima da cama com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil demais para tocar. Para a alguns passos de distância, respeitando o espaço dele.

— Tudo bem se você não quiser falar. — ela completa, rapidamente. — Eu também fico quieta quando estou cansada.

— Você não é uma babá. — ele diz, de repente.

Luna engole em seco e dá um sorriso de lado.

— Por que você acha isso?

— A babá sempre chega com brinquedos. — ele responde, simples. — E você parece… nervosa.

— Ah... — Luna murmura. — Eu fico nervosa fácil.

A pergunta pega Luna desprevenida. O nó se forma em sua garganta antes que ela consiga pensar em uma resposta. Ela olha ao redor do quarto de novo. A cama grande demais. O silêncio pesado. A ausência gritante de qualquer coisa que pareça acolhimento.

É só uma criança. Ela pensa. Não vai ser difícil.

Sem pensar muito, Luna pega em um livro que estava na prateleira. 

— Quero ler para você. Posso?

O menino não responde de imediato. Ele apenas chega um pouco mais para o lado da sua cama, dando a deixa para que Luna sente ali.

É um convite silencioso.

Luna se senta com cuidado, encostando as costas na cabeceira. Abre o livro.

É “Onde Vivem os Monstros”.

Ela começa a ler em voz baixa, pausada, sem teatralidade. Apenas palavras. Apenas presença. No meio da história, quando Max já está cercado pelos monstros e decide que sente saudade de casa, Luna percebe que a respiração do menino mudou.

Ele se vira de lado, encolhendo-se levemente, os cílios pesados.

— Oliver. — ele murmura, a voz sonolenta. — Meu nome é Oliver.

O peito de Luna aperta.

— É um nome bonito. — ela responde, quase num sussurro.

Oliver não responde. Os olhos já estão fechados.

Luna continua lendo até a última página, mesmo sabendo que ele não escuta mais. Fecha o livro devagar, como se qualquer som pudesse despertá-lo.

Luna permanece sentada por mais alguns instantes, observando o rosto tranquilo de Oliver adormecido. 

Ela se pega pensando na mulher que encontrara antes de entrar naquela casa. No tom duro. No olhar impaciente. Nas palavras ditas como se aquele menino fosse um fardo difícil demais de carregar.

O que ele tem?

Luna percorre o quarto com os olhos em busca de alguma resposta. Tudo está arrumado demais. Brinquedos poucos, alinhados, quase intocados. Nenhuma bagunça. Nenhum sinal de infância barulhenta. Apenas ordem. Controle. Ausência.

Com cuidado, Luna se levanta. Ajusta o cobertor um pouco melhor sobre o corpo de Oliver, sem tocá-lo diretamente. Depois caminha até a porta e a abre devagar. Sai de costas, mantendo o olhar nele até o último segundo.

Ela fecha a porta com o mínimo de som possível e então se vira.

E tromba em alguém.

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