Mundo de ficçãoIniciar sessãoNos fundos da loja, o ambiente é mais simples, funcional. Um pequeno escritório envidraçado, com uma mesa organizada e duas cadeiras à frente. A mulher fecha a porta atrás delas e se vira para Luna.
— Sente-se — diz, indicando a cadeira. — Me chamo Helena.
Luna obedece, sentindo as mãos levemente trêmulas enquanto se senta.
Helena abre no computador, o currículo de Luna. Ela passa os olhos rapidinho e se vira para ela.
— Me conte da sua trajetória.
— Ah, menina... eu nem te conto. — Helena ergue uma sobrancelha, quando Luna relaxa na cadeira. — Eu fui largada na porta de um abrigo, com dias de vida. A dona de lá, Martina, foi quem me deu o nome Luna, pois disse que me viu pequena e chorosa, a luz do luar. Ela me adotou, o abrigo fechou meses depois e ela foi embora para NY comigo. Eu cresci ouvindo histórias de Londres, sobre como era fria e ao mesmo tempo incrível. Nunca fui atrás dos meus pais verdadeiros, por falta de interesse, mas... minha mãe morreu ano passado e me deixou um dinheirinho. Juntei tudo o que tinha e vim para cá. É isso.
Helena pisca algumas vezes. Fecha o arquivo do currículo e cruza as mãos sobre a mesa.
— Certo... — ela diz, com calma. — Eu quis dizer sua trajetória profissional.
Ela enfatiza a palavra profissional.
— Eu vi aqui que você listou apenas trabalhos como freelancer. Nenhum registrado.
Luna sente o calor subir pelo rosto. Endireita-se na cadeira quase de imediato, os ombros ficando tensos.
— Sim. — responde, respirando fundo. — Nada fixo.
Helena inclina levemente a cabeça, atenta.
— Pode me explicar melhor?
— Trabalhei como atendente em cafés, pequenas lojas, eventos temporários… — enumera. — Sempre contratos curtos. Quando cheguei a Londres, aceitei tudo o que aparecia. Limpeza, organização de estoque, reposição, atendimento ao público.
Ela ergue o olhar, encontrando o de Helena.
— Sei lidar com pessoas. Aprendi a observar rápido, a me adaptar. Sei ouvir, vender, resolver problemas sem causar conflitos.
Helena a observa em silêncio.
— E por que nenhum desses trabalhos durou? — pergunta, direta.
Luna não desvia o olhar.
— Porque nenhum deles oferecia estabilidade. E eu precisava pagar aluguel, comida… — faz uma breve pausa, escolhendo as palavras. — Eu não me dei ao luxo de esperar o emprego certo. Eu precisava trabalhar.
Helena acena com a cabeça.
— Maison Ardent exige mais do que simpatia. — diz ela. — Aqui lidamos com clientes exigentes. Pessoas que esperam excelência. Que esperam alguém a altura delas. Acredito que essa vaga não seja para você, Luna.
Luna engole em seco. Por um segundo, pensa no bilhete preso à geladeira. No prazo. No apartamento vazio. Em tudo o que perderia se saísse dali sem nada.
Ela se inclina um pouco para frente.
— Com todo respeito — começa, a voz baixa. —, excelência não vem do sobrenome, nem da roupa que se veste. Vem da atenção. Do cuidado. De saber ler as pessoas.
Helena a observa.
— Eu posso não ter estabilidade no currículo — continua Luna —, mas eu sei trabalhar. Sei vender o que acredito. Sei tratar alguém como único, mesmo quando ele acha que é o centro do mundo.
Um leve silêncio se instala novamente.
— Me dê um dia. — pede ela. — Um turno. Se eu não for capaz de atender às expectativas da Maison Ardent, eu saio sem discutir.
Helena permanece em silêncio por alguns segundos, sustentando o olhar de Luna. Há algo ali. Uma decisão já tomada.
Ela suspira, lentamente.
— Luna… — começa, com um tom controlado. — A Maison Ardent trabalha com padrões. Padrões muito claros.
Helena se levanta da cadeira, ajeitando o blazer com um gesto automático, ensaiado.
— Não é nada contra você. — continua. — Vejo esforço, vejo vontade. Mas este lugar exige um perfil específico. Aparência, histórico, postura. Tudo precisa estar alinhado.
Luna sente o peito apertar, mas não interrompe.
— Eu não posso abrir exceções — diz Helena, agora mais firme. — Se eu fizer isso, comprometo tudo o que a Maison Ardent representa.
Ela caminha até a porta do escritório e a abre, num gesto educado, porém definitivo.
— Sinto muito. — conclui. — Não será possível que você trabalhe aqui.
Luna se levanta devagar, as pernas um pouco bambas, mas a cabeça erguida. Ela segura a alça da bolsa com força, como se fosse a única coisa que a mantivesse inteira.
— Entendo. — responde, apesar do nó na garganta. — Obrigada pela oportunidade.
Luna caminha em direção à porta de vidro, sentindo todos os olhares — ou talvez imaginando-os. Assim que ela sai, para diante da loja e encara o letreiro com o nome da loja.
— Ricos malditos.
Irritada, Luna reprime a vontade de jogar uma pedra contra a vitrine da Maison Ardent e se afasta, andando sem rumo definido. As ruas elegantes continuam cheias de pessoas bem-vestidas, sacolas caras, risadas fáceis. Tudo parece zombar dela.
Alguns metros adiante, uma cafeteria chama sua atenção. Fachada minimalista, letras finas, janelas amplas. Café artesanal, anuncia a placa discreta. O tipo de lugar onde um café custava mais do que uma refeição inteira.
Ela sequer hesita, só entra.
O ambiente é silencioso demais, sofisticado demais. Ela se aproxima do balcão, pede o café mais barato do cardápio — que ainda assim dói no bolso — e paga com o último dinheiro que tinha separado na carteira.
Com o copo quente nas mãos, procura um lugar para se sentar. Uma mulher apressada acaba de se levantar de uma mesa próxima à janela, pegando a bolsa às pressas enquanto fala ao telefone. Luna se aproxima e se senta ali, quase automaticamente.
Sobre a mesa, esquecido, há um envelope pardo. Luna franze a testa e se inclina para pegá-lo.
— Moça! — chama, erguendo a voz e olhando em volta, procurando a mulher que acabara de sair. — Ei, você esqueceu isso!
A porta da cafeteria se fecha. A mulher já havia ido embora.
Luna suspira e abaixa o olhar para o envelope em suas mãos. Prestes a se levantar e entregá-lo ao caixa, seus olhos captam as palavras escritas na frente, em letras firmes e negras:
“Chance de sair do buraco.”
— Eu quero sair do buraco. — ela murmura.
Curiosa, ela passa o polegar pela borda do envelope, sentindo o papel áspero sob a pele. Luna olha ao redor, certificando-se de que ninguém a observa. Então volta a atenção para o envelope.
Com o coração acelerado, Luna puxa o papel de dentro do envelope.
As palavras saltam diante de seus olhos, organizadas de forma simples, objetiva. Ela lê uma vez. Depois outra. E mais uma, como se tivesse medo de ter entendido errado.
Vaga: Babá em tempo integral
Local: Endereço residencial — Chelsea Horário: Integral Salário: £4.800 mensais






