Mundo ficciónIniciar sesiónValentina chegou à sede da equipe dez minutos antes do horário marcado.
Ainda sentia dor ao caminhar, embora tivesse se recusado a usar muletas. A bolsa de gelo havia sido substituída por uma faixa firme ao redor do quadril, escondida sob a calça larga. Ela não queria parecer frágil. Muito menos diante das pessoas que poderiam decidir se sua temporada continuaria ou não.
A mensagem recebida na noite anterior havia tirado seu sono.
Precisamos conversar sobre seu contrato e sobre a próxima competição.
Não existia maneira tranquila de interpretar aquilo.
Valentina passou a madrugada fazendo contas. Premiações, patrocínio, despesas médicas, aluguel, fisioterapia. Em todas as possibilidades, perder o contrato seria um desastre.
Quando entrou na sala do treinador, encontrou Marcelo sentado atrás da mesa, analisando alguns documentos. Ele ergueu os olhos e imediatamente apontou para a cadeira diante dele.
— Sente-se.
— Eu consigo ficar em pé.
— Sei que consegue. Também sei que não precisa provar isso para mim.
Valentina sentou-se, tentando disfarçar o desconforto.
Marcelo treinava patinadores havia mais de vinte anos. Era exigente, direto e pouco paciente com desculpas. Valentina confiava nele porque nunca havia tratado seu talento como caridade. Quando ela errava, ele dizia. Quando acertava, também.
Naquele momento, porém, a expressão dele parecia séria demais.
— Se for sobre ontem, eu sei que errei ao insistir — começou ela. — Mas posso me recuperar mais rápido do que o médico imagina. Posso fazer fisioterapia, treinar fora do gelo e adaptar a coreografia quando voltar.
Marcelo apoiou os braços sobre a mesa.
— Valentina.
— Eu não preciso ficar completamente parada.
— Valentina.
Ela se calou.
— Ninguém está encerrando seu contrato.
Por alguns segundos, ela apenas o encarou.
— O quê?
— Você ouviu.
— A mensagem dizia que precisávamos conversar sobre o contrato.
— Porque você faltará à próxima competição e isso exige alterações no calendário, nos compromissos com patrocinadores e nos relatórios médicos. Não porque pretendemos mandá-la embora.
A tensão em seus ombros diminuiu, mas não desapareceu por completo.
— Então meu contrato continua?
Marcelo franziu o cenho.
— É claro que continua.
Valentina desviou os olhos, incomodada com o alívio evidente.
— Eu pensei que…
— Que eu perderia uma das melhores patinadoras da equipe por causa de uma contusão?
Ela voltou a encará-lo.
— A temporada é importante.
— Sua carreira é mais e principalmente a sua saúde.
Marcelo retirou os óculos e os deixou sobre a mesa.
— Quero que fique tranquila e se recupere. Você não vai competir daqui a dez dias. Também não voltará ao gelo antes da liberação médica, e não adianta fazer essa cara.
— Que cara?
— A de quem já está planejando entrar escondida na pista de madrugada.
Valentina apertou os lábios.
Marcelo soltou um suspiro.
— Você é talentosa demais para destruir a própria carreira tentando salvar uma única competição.
— Não é apenas uma competição.
— Eu sei.
A resposta veio mais suave do que ela esperava.
Marcelo conhecia parte de sua situação. Sabia que ela vivia com a avó e que dependia das premiações. Talvez não soubesse cada valor, cada consulta ou cada remédio, mas sabia o suficiente.
— Durante sua recuperação, o valor fixo do contrato será mantido — explicou ele. — O setor financeiro já foi avisado.
Valentina sentiu o peito apertar.
— E a premiação?
— Essa você perderá, porque não vai competir.
Era exatamente o que ela temia.
— Não posso perder esse dinheiro.
— Pode e vai, porque não colocarei você em uma pista machucada.
— Marcelo…
— Não.
O tom dele encerrou qualquer tentativa de negociação.
Valentina olhou para as próprias mãos.
— Minha avó tem uma consulta nova este mês.
Marcelo permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Você sabe que o plano de saúde ligado à equipe continua ativo.
— Mas não cobre tudo.
— Vamos conversar com a administração sobre um adiantamento.
Ela ergueu o rosto imediatamente.
— Não quero favores.
— Não é favor. É parte do contrato.
— Não estava previsto.
— Contratos podem ser ajustados.
Valentina respirou fundo.
Detestava precisar de ajuda. Detestava ainda mais que alguém enxergasse o quanto aquela ajuda era necessária.
Marcelo recostou-se na cadeira.
— Você precisa aprender uma coisa, Valentina. Aceitar apoio não diminui seu esforço.
— É fácil dizer isso quando não se depende de resultados para pagar contas.
— Não estou dizendo que é fácil. Estou dizendo que você não pode carregar tudo sozinha e depois fingir que o peso não existe.
As palavras a atingiram de forma desconfortável.
Antes que pudesse responder, alguém bateu à porta.
Marcelo autorizou a entrada.
Daniel surgiu com o braço imobilizado por uma tipoia.
Valentina se levantou rápido demais e sentiu uma pontada no quadril.
— O que o médico disse?
Daniel evitou seu olhar.
— Lesão no manguito rotador. Vou precisar ficar afastado.
— Por quanto tempo?
Ele hesitou.
— Ainda não sabem.
Marcelo indicou a outra cadeira.
Daniel sentou-se, visivelmente abatido.
— Eu devia ter contado antes — disse ele. — Sobre a dor.
Valentina permaneceu em pé.
— É devia.
— Achei que conseguiria continuar.
— E quase acabou com a carreira dela — Marcelo respondeu.
Daniel baixou a cabeça.
Valentina queria estar com raiva. Parte dela estava. Mas outra parte reconhecia o medo no rosto dele. O mesmo medo que sentira ao ler aquela mensagem.
— Você vai se recuperar — disse ela.
Daniel levantou os olhos.
— E você?
Valentina não respondeu.
Marcelo juntou os documentos sobre a mesa.
— Vocês dois ficarão afastados. Por enquanto, é só isso.
— Por enquanto? — Valentina perguntou.
Marcelo trocou um olhar rápido com Daniel.
Aquilo foi suficiente para deixá-la alerta.
— O que vocês não estão me contando?
— Nada foi decidido — respondeu Marcelo.
— Sobre o quê?
Ele passou a mão pelo rosto antes de falar.
— Daniel talvez não consiga retornar a tempo para o restante da temporada.
O silêncio tomou a sala.
Valentina sentiu a cadeira atrás dos joelhos e se sentou devagar.







