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Capítulo 5 — Mais Uma Vitória Dele

Valentina descobriu que ficar longe do gelo era pior do que sentir dor sobre ele.

Nos primeiros dias, tentou obedecer às orientações médicas. Fez compressas, tomou os remédios nos horários corretos e compareceu às sessões de fisioterapia sem reclamar mais do que o necessário. A contusão no quadril melhorava rapidamente, mas a distensão ainda exigia cuidado, e qualquer movimento brusco fazia seu corpo lembrá-la de que ainda não estava pronta.

O problema não era apenas físico.

Era acordar cedo e não precisar ir ao rinque.

Era olhar para os patins no canto do quarto e sentir que parte de sua vida continuava enquanto ela permanecia parada.

Sua avó fazia o possível para tornar os dias menos pesados.

— Você está andando melhor — comentou, observando Valentina atravessar a sala.

— Ainda dói vó.

— Mas um pouco menos hoje.

Valentina sentou-se no sofá.

— Menos não é o suficiente.

A avó lançou um olhar paciente, o mesmo que usava desde que Valentina era criança.

— Você não pode apressar o seu corpo, minha neta.

— Posso tentar, me esforçar um pouco mais.

— E acabar ficando mais tempo sem patinar?

Valentina soltou o ar com irritação.

Sabia que a avó estava certa. Marcelo também. O médico, infelizmente, também.

Ainda assim, odiava aquilo.

Naquela tarde, tinha terminado os exercícios recomendados pelo fisioterapeuta e estava com uma bolsa de gelo apoiada no quadril quando a transmissão da competição começou na televisão.

Valentina pensou em trocar de canal.

Não trocou.

A arena apareceu lotada, iluminada e barulhenta. O tipo de lugar onde ela deveria estar.

A câmera percorreu os competidores até parar em Alexander.

Ele aguardava perto da entrada da pista, vestido de preto, com detalhes prateados nos ombros. Parecia tranquilo. Como sempre. Nem um sinal de nervosismo, nem uma dúvida.

Valentina apertou o controle remoto entre os dedos.

— Lá está ele — disse a avó.

— Eu vi.

— Está bonito.

Valentina virou o rosto.

— Vó!

— O quê? Eu ainda enxergo muito bem.

— Ele é insuportável.

— Uma coisa não anula a outra.

Valentina preferiu não responder.

Na tela, Alexander trocou algumas palavras com Camila. A parceira sorriu para ele, mas havia algo estranho entre os dois. Uma distância discreta. Camila parecia tensa, e Alexander não demonstrava a mesma atenção de outras competições.

Talvez fosse apenas impressão.

O nome dos dois foi anunciado.

Alexander entrou na pista como se estivesse voltando para casa.

Valentina odiava isso nele.

Odiava a segurança, a postura, a facilidade com que dominava cada movimento. Mesmo antes do início da música, ele já tinha toda a atenção da arena.

A apresentação começou.

Os primeiros passos foram precisos. Camila o acompanhou bem, mas era impossível ignorar que Alexander conduzia tudo. Nos levantamentos, segurava a parceira com firmeza, como se o peso dela não significasse nada. Nas aterrissagens, mantinha o equilíbrio com uma naturalidade irritante.

Nunca deixava ninguém cair.

A frase atravessou os pensamentos de Valentina antes que pudesse evitá-la.

Ela se lembrou do consultório. Dos braços dele ao erguê-la. Da maneira como havia entrado no gelo sem pensar nas câmeras ou nas próprias roupas.

Sacudiu a cabeça.

Não significava nada.

Alexander apenas gostava de bancar o herói quando havia gente olhando.

— Ele é realmente bom — comentou a avó.

— O pai dele paga para parecer melhor na televisão.

A avó riu.

— Você já não tem onze anos, val.

Valentina ficou em silêncio.

Sabia que Alexander era bom. Excelente, na verdade. Negar isso seria infantil. Ele tinha técnica, força e presença. Era ousado sem parecer imprudente e parecia entender o corpo da parceira antes mesmo que ela completasse o movimento.

Mas reconhecer aquilo em voz alta estava fora de questão.

No último levantamento, Camila se lançou nos braços dele. Alexander a ergueu acima da cabeça, girando com perfeição antes de colocá-la novamente no gelo.

A arena explodiu em aplausos.

Valentina sentiu a mandíbula travar.

— Ele exagerou no final — murmurou.

— A plateia gostou.

— A plateia gosta de qualquer coisa que ele faça.

As notas apareceram pouco depois.

Primeiro lugar.

Mais uma vez.

Alexander sorriu para as câmeras, recebeu o beijo de Camila no rosto e ergueu o troféu com a confiança de quem nunca esperava outro resultado.

Valentina desligou a televisão.

— Por que fez isso? — perguntou a avó.

— Já acabou.

— Ainda iam entrevistá-lo.

— Exatamente.

Valentina se levantou com cuidado e caminhou até a cozinha. Precisava de água. Ou de qualquer coisa que não fosse o rosto satisfeito de Alexander Beaumont ocupando sua sala.

O celular vibrou sobre a mesa.

Era uma notificação de um site esportivo.

Alexander Beaumont conquista mais um ouro e amplia domínio na temporada.

Ela apagou sem abrir.

Outra notificação surgiu.

Depois mais uma.

Fotos, vídeos e comentários tomavam as redes sociais. Em poucos minutos, Alexander já era o assunto mais comentado entre os fãs de patinação.

Valentina abriu uma publicação contra o próprio bom senso.

A foto mostrava Alexander sozinho, segurando o troféu. Camila aparecia desfocada ao fundo.

A legenda dizia que ele continuava invencível.

Os comentários eram ainda piores.

Alguns falavam sobre sua beleza. Outros apostavam em quantas medalhas ganharia naquela temporada. Havia também comparações com Valentina.

Se ela estivesse competindo, teria perdido do mesmo jeito.

Valentina fechou a publicação.

— Idiotas — murmurou.

— O que foi? — perguntou a avó da sala.

— Nada.

O celular vibrou novamente.

Dessa vez, não era uma notificação.

Era uma mensagem.

Espero que esteja se recuperando. O circuito fica menos divertido sem alguém para reclamar das minhas notas.

Valentina encarou o nome de Alexander na tela.

Sentiu uma mistura absurda de irritação e surpresa.

Ele tinha acabado de ganhar outra competição e, ainda assim, estava pensando nela.

Seus dedos se moveram antes que pudesse reconsiderar.

Aproveite enquanto pode. Quando eu voltar, suas notas falsas não vão salvar você.

A resposta chegou quase imediatamente.

Então volte logo.

Valentina releu duas vezes.

Não havia provocação adicional. Nenhum comentário arrogante. Apenas aquelas três palavras.

Então volte logo.

Por algum motivo, aquilo a incomodou mais do que qualquer deboche.

Ela bloqueou o celular e o deixou sobre a mesa.

A recuperação estava indo bem.

Em breve, estaria de volta ao gelo.

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