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Capítulo 3 — Fora da Pista

O consultório médico parecia frio demais até para Valentina.

Ela permanecia sentada na maca, com uma bolsa de gelo pressionada contra o quadril, enquanto o médico analisava as imagens no monitor. Daniel estava perto da porta, os braços cruzados e o rosto pálido. Desde o acidente, ele não havia parado de pedir desculpas.

Alexander, por algum motivo que ninguém havia explicado, continuava ali.

Encostado na parede, com as mãos nos bolsos e a expressão fechada, ele observava o médico como se pudesse obrigá-lo a dar uma resposta melhor apenas com o olhar.

— Não houve fratura — informou o médico.

Valentina soltou o ar que estava prendendo.

— Eu disse que não era nada.

— Eu ainda não terminei.

Ela fechou a boca.

O médico aproximou-se e apontou para a imagem.

— Você sofreu uma contusão forte no quadril e uma pequena distensão muscular. Nada grave, desde que respeite o tempo de recuperação.

— Quanto tempo?

— Sem treinos intensos por pelo menos duas semanas.

O silêncio caiu sobre a sala.

Valentina sentiu o estômago afundar.

— A próxima competição é em dez dias.

— Então você não participará.

Ela deixou a bolsa de gelo de lado.

— Eu preciso participar.

— Não é uma recomendação, Valentina. Se voltar à pista antes do tempo, uma lesão simples pode se transformar em algo sério.

— Posso fazer fisioterapia todos os dias.

— Pode. Ainda assim, não estará pronta.

Daniel desviou os olhos.

Valentina olhou para ele, depois para o médico.

— E se eu competir com uma coreografia adaptada? Sem os levantamentos mais arriscados?

— Você pode cair tentando compensar a dor.

— Eu sei lidar com dor.

Alexander soltou uma risada sem humor.

Valentina virou o rosto para ele.

— Algum problema?

— Você está ouvindo a si mesma?

— Isso não é da sua conta.

— Você acabou de cair de um levantamento e está tentando negociar com um médico para voltar ao gelo machucada.

— Eu não estou machucada.

— Está com gelo no quadril dentro de um consultório.

— Alexander — Daniel interveio.

Ele nem sequer olhou para Daniel.

— Ela não vai competir.

Valentina sentiu o sangue ferver.

— Você não decide isso.

— Alguém precisa decidir, já que você perdeu completamente o bom senso.

— Saia daqui.

Alexander se afastou da parede.

— Com prazer.

Mas não saiu.

O médico entregou a Valentina uma receita e algumas orientações. Ela mal ouviu. A única frase que permanecia em sua cabeça era simples e devastadora.

Você não participará.

Ficar fora de uma competição não significava apenas perder pontos. Significava perder parte da premiação, reduzir a visibilidade diante dos patrocinadores e comprometer a temporada. Todo cálculo que fazia terminava no mesmo lugar: as consultas da avó, os remédios e o aluguel.

— Vou conversar com a equipe — disse Daniel.

Valentina o encarou.

— Conversar sobre o quê?

Ele hesitou.

— Sobre a competição.

— Nós podemos adaptar a apresentação.

— O médico acabou de dizer que você não pode competir.

— Então esperamos alguns dias e avaliamos de novo.

Daniel esfregou o rosto.

— Valentina, eu também machuquei o ombro.

Ela parou.

— O quê?

— Já sentia dor há algumas semanas.

Alexander endureceu a expressão.

— E você continuou fazendo levantamentos?

Daniel olhou para ele.

— Eu achei que passaria.

— Você achou errado e colocou a vida da sua parceira em risco seu idiota.

— Pare — Valentina pediu.

Mas algo frio já se espalhava dentro dela.

— Por que não me contou? — perguntou a Daniel.

— Porque a competição estava próxima. Eu sabia que você não aceitaria reduzir os treinos.

— Você me deixou subir sabendo que seu ombro estava ruim.

— Eu achei que conseguiria sustentar.

— Mas não conseguiu.

Daniel baixou os olhos.

A verdade doía mais do que a queda.

Valentina confiava nele. Confiava no impulso, na força dos braços, no segundo exato em que precisava se lançar sem olhar para trás. Na patinação em dupla, hesitar era tão perigoso quanto errar.

— Quanto tempo você ficará fora? — perguntou.

— Ainda vou fazer exames.

A resposta foi suficiente.

Não era apenas uma competição.

Talvez fosse mais.

Valentina desceu da maca com cuidado. A dor atravessou o quadril, e ela apertou os dentes para não demonstrar.

Alexander deu um passo em sua direção, mas ela ergueu a mão.

— Nem pense nisso.

— Você mal consegue andar.

— Consigo perfeitamente.

Ela tentou dar outro passo e quase perdeu o equilíbrio.

Alexander segurou seu braço antes que caísse.

— Solte.

— Quando você parar de tentar provar alguma coisa para o chão, talvez eu solte.

Valentina puxou o braço, mas ele não cedeu.

Daniel observava os dois em silêncio.

— Eu posso levá-la para casa — disse.

— Você deveria cuidar do seu ombro primeiro cara. — Alexander respondeu.

— E você deveria cuidar da própria vida — Valentina rebateu.

Alexander se inclinou na direção dela.

— Estou tentando, mas você continua caindo na minha frente.

Ela abriu a boca, pronta para insultá-lo, quando o celular vibrou dentro de sua bolsa.

Era uma mensagem da administração da equipe.

Precisamos conversar sobre seu contrato e sobre a próxima competição. Amanhã, às nove.

Valentina leu duas vezes.

O peso daquela mensagem parecia maior do que qualquer dor no quadril.

Alexander percebeu a mudança em seu rosto.

— O que aconteceu?

Ela bloqueou a tela.

— Nada.

— Você está péssima em mentir.

— E você é excelente em se meter onde não foi chamado.

Valentina caminhou até a porta, ignorando a dor. Desta vez, Alexander não tentou impedi-la.

No corredor, porém, ouviu a voz dele atrás de si.

— Valentina.

Ela parou, mas não se virou.

— Uma competição não vale sua carreira inteira.

Os dedos dela apertaram a alça da bolsa.

Para Alexander, talvez não valesse.

Ele tinha dinheiro suficiente para perder uma temporada inteira e continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.

Valentina não.

Na manhã seguinte, ela descobriria se havia perdido apenas uma competição.

Ou tudo o que dependia dela para continuar existindo.

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