Mundo ficciónIniciar sesión
Valentina tinha onze anos quando descobriu que o gelo podia ser mais cruel fora da pista.
Naquela tarde, o ginásio estava lotado. Pais, treinadores e crianças se amontoavam nas arquibancadas, enquanto os alto-falantes anunciavam as notas da categoria juvenil. O cheiro de gelo, tecido novo e café barato se misturava no ar. Valentina permanecia perto da entrada dos vestiários, ainda usando o vestido azul simples que a avó havia costurado durante três noites.
As pedrarias eram poucas e algumas estavam tortas, mesmo assim, sua avó disse que ela parecia uma estrela, e bem ela queria acreditar.
Na pista, porém, estrelas não bastavam.
— Alexander Beaumont, primeiro lugar!
Os aplausos explodiram.
Alexander ergueu o queixo antes mesmo de subir ao pódio, como se já soubesse que o nome anunciado seria o dele. Tinha treze anos, cabelos escuros perfeitamente arrumados e um uniforme preto coberto por detalhes prateados que refletiam as luzes do ginásio. Atrás dele estavam o treinador particular, a mãe elegante e o pai, sempre cercado por pessoas importantes.
Valentina apertou as mãos.
Seu nome veio logo depois.
Segundo lugar.
A avó aplaudiu com toda a força, sorrindo como se aquela medalha de prata fosse feita de ouro. Valentina tentou sorrir de volta, mas a garganta estava fechada.
Ela havia treinado até os pés sangrarem.
Alexander havia cometido um erro na aterrissagem.
Todos tinham visto, inclusive ela.
Ainda assim, as notas dele foram maiores.
— Você foi maravilhosa — a avó disse quando Valentina desceu do pódio. — Não deixe essa carinha triste estragar o seu momento.
— Eu deveria ter ganhado.
A avó suspirou e ajeitou uma mecha de cabelo que escapara do coque.
— Nem sempre as coisas acontecem como esperamos.
— Porque eles são ricos.
— Valentina…
— O pai dele paga tudo. O evento, os treinadores, os melhores figurinos. Deve pagar os jurados também.
— Não diga isso.
Mas já era tarde demais.
Alexander estava a poucos passos dali.
Ele conversava com outros competidores e segurava o troféu contra o peito. Quando ouviu, virou o rosto lentamente.
— O que você disse?
Valentina deveria ter ficado em silêncio, deveria ter ouvido a avó, mas a frustração queimava forte demais.
— Você ouviu.
Os outros patinadores se calaram. Alguns se aproximaram, atraídos pela discussão. Alexander caminhou até ela, ainda sorrindo, embora seus olhos tivessem perdido qualquer traço de diversão.
— Está com raiva porque perdeu?
— Estou com raiva porque você não mereceu ganhar.
O sorriso dele vacilou.
— Os jurados discordam.
— Os jurados fazem o que sua família manda.
Um murmúrio percorreu o grupo.
Alexander olhou rapidamente para os próprios pais, que conversavam com um dos organizadores do evento. Depois voltou a encará-la.
— Você está inventando desculpas.
— Não estou.
— Então prove.
Valentina não tinha prova alguma.
Tinha apenas os comentários que ouvira de adultos. Sussurros sobre doações, favores e influência. Tinha a imagem do pai de Alexander apertando a mão de um dos jurados antes da competição. Para uma menina de onze anos, aquilo era suficiente.
— Todo mundo sabe que sua família compra suas notas.
A expressão dele endureceu.
— Cale a sua boca.
— Você não ganhou porque é o melhor. Ganhou porque tem dinheiro, e seus pais bajulam os tecnicos.
— Valentina, chega — a avó pediu, segurando seu braço.
Ela se soltou.
Alexander continuava diante dela, agora sem qualquer sinal de arrogância. Por um instante, parecia apenas um garoto tentando não demonstrar que havia sido atingido.
Valentina percebeu.
E, tomada pela raiva, decidiu atingir ainda mais fundo.
— Sem o dinheiro da sua família, você não é ninguém, nem seus giros são dignos de aplausos.
Os olhos dele escureceram.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei que sempre vai vencer porque eles compram tudo para você. Os melhores patins, os melhores treinadores, as melhores notas. Sua família rouba nas competições e todo mundo finge que não vê.
— Isso não é verdade.
— É, sim.
— Eu treino mais do que você.
— Duvido muito, eu treino até meus pés sangrarem, já você nem treinando o suficiente vai conseguir ganhar sem seus pais mexendo os pauzinhos.
Alexander deu um passo à frente.
— Eu sou melhor do que você.
Valentina sentiu os olhos arderem.
— Você nunca vai saber se é realmente bom.
O silêncio ao redor deles se tornou sufocante.
Ela podia ter parado.
Mas não parou.
— Você nunca vai ser um campeão de verdade, Alexander. Vai ser apenas o garoto rico que precisou comprar o próprio talento.
Por alguns segundos, ele não respondeu.
Seu rosto permaneceu imóvel, mas os dedos apertaram o troféu com tanta força que os nós ficaram brancos.
Então Alexander sorriu.
Não era o sorriso bonito que usava diante das câmeras.
Era frio.
— Um dia, você vai se arrepender de ter dito isso.
Valentina ergueu o queixo, mesmo com o coração acelerado.
— Duvido.
— Eu não.
Ele se aproximou o bastante para que apenas ela pudesse ouvir.
— Quando eu me tornar o melhor, vou garantir que você esteja perto para assistir.
Alexander se afastou sem olhar para trás.
Valentina tentou convencer a si mesma de que havia vencido aquela discussão.
Mas, quando viu a avó decepcionada e os outros competidores cochichando, sentiu o primeiro peso do arrependimento.
Ela ainda não sabia que algumas palavras permaneciam congeladas por anos.
Nem que Alexander Beaumont passaria o resto da vida tentando provar que ela estava errada.







