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Capítulo 2 — O Homem Que Nunca Caía

Doze anos depois, Alexander Beaumont ainda vencia como se o gelo tivesse sido criado para obedecê-lo.

Valentina o observava do outro lado da pista, com os braços cruzados e o corpo aquecido pelo treino, enquanto ele encerrava a apresentação com uma aterrissagem perfeita. As lâminas cortaram o gelo com precisão, levantando uma fina poeira branca ao redor de seus patins. A música terminou, e Alexander permaneceu imóvel no centro da arena, o peito subindo e descendo, o rosto inclinado sob a luz.

A arquibancada explodiu em aplausos.

Ele sorriu.

É claro que sorriu.

Alexander sabia exatamente o efeito que causava. Sabia quando erguer o rosto, quando passar a mão pelos cabelos escuros e quando oferecer às câmeras aquele olhar confiante que fazia milhares de pessoas acompanharem sua carreira. Aos vinte e cinco anos, era considerado um dos melhores patinadores do circuito. Tinha medalhas, contratos milionários e uma reputação impecável sobre o gelo.

Nunca sofrera uma lesão grave.

Nunca abandonou uma competição.

Nunca deixou uma parceira cair.

Fora da pista, porém, era outra história.

— Tente não olhar tanto — disse Daniel, aproximando-se de Valentina. — Alguém pode pensar que você está impressionada.

Ela desviou os olhos de Alexander.

— Estou analisando os erros.

Daniel soltou uma risada curta.

— Que erros?

Valentina lançou um olhar irritado ao próprio parceiro.

— A entrada do último salto foi exibida demais.

— E perfeita.

— Ainda assim, exibida.

Daniel ajeitou a luva e olhou para a pista. Alexander deslizava em direção à lateral, onde sua parceira, Camila, o esperava com uma garrafa de água. Ela o abraçou pela cintura, e ele beijou sua testa diante das câmeras.

O gesto seria quase convincente se Valentina não soubesse que Alexander havia saído de uma festa, dois dias antes, acompanhado de outra mulher.

As imagens estavam em todos os sites.

— Não entendo como Camila suporta — murmurou Valentina.

— Talvez ela não se importe.

— Eles são uma dupla. Deveria se importar com a imagem dos dois.

— Você se importa demais com a vida dele.

Valentina virou-se para Daniel.

— Eu me importo com a falta de profissionalismo.

— Claro.

Antes que pudesse responder, uma movimentação chamou sua atenção. Alexander havia retirado os patins e caminhava pelo corredor lateral da arena, cercado por dois membros da equipe e uma repórter. Ao passar por Valentina, diminuiu o passo.

Os olhos dele percorreram o vestido de treino simples que ela usava antes de subirem até seu rosto.

— Valentina.

— Alexander.

Ele sorriu de lado.

— Continua assistindo às minhas apresentações?

— Alguém precisa identificar o motivo de suas notas serem tão exageradas.

O sorriso dele não desapareceu, mas algo mudou em seu olhar.

— Ainda acredita que minha família compra os jurados?

— Atualmente, acredito que você aprendeu a comprar a imprensa sozinho, mesmo.

Daniel pigarreou para disfarçar uma risada. Alexander olhou para ele, depois voltou a encarar Valentina.

— Seu parceiro continua achando graça nas suas provocações?

— Ele tem senso de humor.

—Ele precisar ter mesmo, patinar com você deve exigir muita paciência.

Valentina abriu um sorriso frio.

— Pelo menos ele não precisa verificar os sites de fofoca antes de cada competição para descobrir com quem você passou a noite.

A repórter ao lado de Alexander ergueu discretamente o celular, claramente interessada. Ele percebeu e fez um gesto para que sua equipe seguisse em frente.

Quando ficaram apenas os três no corredor, Alexander se aproximou de Valentina.

— Está com ciúmes?

Ela quase riu.

— De qual delas?

— De qualquer mulher que consiga minha atenção sem precisar me insultar.

— Sua atenção parece bem fácil de conseguir.

O maxilar dele se contraiu.

Valentina conhecia cada reação de Alexander. Cresceram competindo nas mesmas arenas, frequentando os mesmos eventos e sendo comparados pela imprensa. Sempre que ela ganhava, algum jornalista perguntava o que ele achava. Sempre que ele quebrava um recorde, queriam saber se ela se sentia ameaçada.

A rivalidade dos dois rendia manchetes.

Alexander inclinou-se um pouco, diminuindo a distância entre eles.

— Um dia, Valentina, você vai parar de fingir que não sente nada quando olha para mim.

Ela sustentou o olhar.

— Sinto irritação, apenas.

— Isso ainda é alguma coisa.

— Vá incomodar sua parceira.

— Camila gosta quando eu a incomodo.

— Aposto que metade do circuito também.

Alexander abriu um sorriso satisfeito, como se a resposta fosse um elogio.

— Mais da metade.

Valentina revirou os olhos e se afastou. Daniel a acompanhou em direção à entrada da pista, mas ela ainda sentia o olhar de Alexander sobre suas costas.

— Vocês dois são exaustivos — comentou Daniel.

— Ele que começou.

— Vocês começaram há mais de dez anos.

Valentina ajustou as proteções dos pulsos.

— E ele continua insuportável.

— Também continua observando você.

Ela parou.

— Não começa.

Daniel ergueu as mãos.

— Só estou dizendo o que vejo.

A música de treino começou antes que Valentina precisasse responder. Ela entrou na pista e tentou expulsar Alexander dos pensamentos. Daniel segurou sua mão, guiando-a pelos primeiros movimentos da coreografia. Com ele, tudo era conhecido, seguro e previsível.

Eles executaram uma sequência de passos e avançaram para o primeiro levantamento.

Valentina ganhou impulso, confiando que Daniel sustentaria seu peso.

Por um instante, tudo funcionou.

Então o braço dele vacilou.

O mundo inclinou-se.

Daniel tentou corrigir a posição, mas perdeu o equilíbrio. Valentina sentiu o corpo escapar antes de atingir o gelo com força. A dor atravessou seu quadril, arrancando o ar de seus pulmões.

A musica parou imediatamente, os paramedicos foram acionados e Daniel se ajoelhou ao lado dela, deseperado e preocupado.

— Valentina, desculpa. Meu ombro…

— Eu estou bem — ela respondeu, mesmo sem ter certeza.

Quando ergueu os olhos, Alexander estava parado na lateral da pista.

O sorriso havia desaparecido.

Ele observava Daniel, depois Valentina, com uma expressão dura demais para ser apenas preocupação.

Valentina tentou se levantar, mas a dor a fez recuar.

Alexander entrou no gelo sem os patins, ignorando os protestos da equipe.

— Não se mexa — ordenou.

— Eu não preciso de você.

Ele se agachou diante dela.

— Pela primeira vez na vida, tente não discutir.

Valentina abriu a boca para responder, mas Alexander já havia passado um braço por suas costas e outro sob seus joelhos.

Ele a ergueu com facilidade.

Ao redor deles, celulares e câmeras registravam tudo.

Valentina segurou-se em seu ombro para não cair e odiou perceber como os braços dele eram firmes.

Alexander baixou os olhos para ela.

— Seu parceiro acabou de deixá-la cair.

— Foi um acidente.

— Acidentes destroem carreiras.

A frase foi dita em voz baixa, somente para ela.

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