NARRAÇÃO DE BELA...
Pensa que ficou por isso mesmo…?
Quando já achava que seguiria em frente, uma voz ecoou pelo corredor imenso. Era feminina. Virei-me e a vi: postura impecável, braços cruzados, o semblante fechado. A irritação era visível.
— Bela e Kaito, acompanhem-me até a direção.
Franzi as sobrancelhas, tomada pela curiosidade. Mas bastou ver Kaito bufar e revirar os olhos para entender que não era coisa boa.
— Eu não fiz nada, coordenadora — ele disse, com aquela voz grave e despreocupada.
Ela ignorou completamente sua defesa. Restou-me apressar o passo para não ficar para trás, já que andavam depressa demais. Permaneci em silêncio até chegarmos à sala da direção. A mulher segurou a porta e me lançou um olhar firme, aguardando que eu entrasse.
Kaito se jogou em uma das cadeiras, relaxado demais para alguém prestes a ser advertido. Nenhuma reação, nenhum receio — o retrato perfeito de um playboy que não se preocupa com as consequências. Disfarcei a tensão e sentei ao lado dele.
A coordenadora parou à nossa frente, apoiando-se na mesa.
— Fui informada de que você carrega um canivete. Nesta escola isso não é permitido, mesmo sendo membro de uma família da máfia.
Soltei o ar, quase incrédula, apertando a alça da mochila.
— É só um canivete! Meu pai sempre me ensinou a manusear. Eu não fico sem ele…
Me calei ao ouvir Kaito se engasgar, tentando conter o riso. Rangei os dentes. A coordenadora, então, voltou-se para ele.
— Também ouvi quando a senhorita Dawson afirmou que queria furá-lo…
Bufei e a interrompi.
— É força de expressão! Um modo de dizer. Eu não furaria ele.
Lancei um olhar afiado a Kaito, que parecia se divertir demais com tudo aquilo. A coordenadora respirou fundo, ignorando-me.
— Kaito, deseja registrar uma queixa?
Cruzei os braços, irritada, encarando-o como se pudesse ameaçá-lo apenas com o olhar. Ele sorriu de canto, passou o dedo levemente pelos lábios avermelhados.
Que japonês lindo…
— Não. Mas recomendo que investigue a mochila dela. É novata, provavelmente não sabe como as coisas funcionam por aqui.
Apertei a mochila com mais força.
— Esquece a minha mochila!
Pedido inútil. A monitora a arrancou de mim com facilidade. De lá, retirou meu canivete, o spray de pimenta, o soco-inglês… e até minha pastilha de chiclete de menta.
— Desde quando chiclete é arma branca? — questionei, o coração acelerado de raiva.
O riso baixo de Kaito só piorava tudo.
— No mês passado, a herdeira chinesa perdeu uma parte considerável do cabelo. Alguém colou chiclete e ninguém viu. Portanto, chiclete também é proibido.
Cruzei os braços, afundando as costas na cadeira, sacudindo a perna em protesto. Senti a perna de Kaito encostar na minha e me afastei imediatamente.
— Algo mais…? — arqueei a sobrancelha.
— Sim. Kaito, ensine a Bela como funciona a escola. Fiquei sabendo que ela nunca estudou fora de casa.
— Ah… que ótimo — murmurou ele, carregado de tédio.
— Agora podem ir.
Levantei-me primeiro, carregando uma mochila consideravelmente mais vazia. A voz de Kaito me fez parar por um instante.
— Novata, a próxima aula é de química. Cuidado com a língua. O professor tem pavio curto e odeia ser respondido. E… — ele fez uma pausa, analisando-me — sempre peça para ir ao banheiro durante a aula.
— Por que eu tenho que pedir?
— É regra.
Ele passou por mim. Achei que seguiria para a sala, mas notei que foi em direção a outro prédio. A curiosidade falou mais alto. Ignorei os olhares ao redor e o segui.
— Onde você está indo?
Ele parou, virou-se e sorriu de lado. Tenho certeza de que faz isso de propósito. Sabe que esse sorriso é puro charme.
— Como eu disse… o professor de química tem pavio curto. E eu não gosto de pessoas com pavio curto.
Por um instante, perdi a fala. Ele me encarava intensamente, e algo em mim sentiu que aquela frase era mais do que uma provocação casual. Seus olhos me percorreram da cabeça aos pés antes de se afastar.
Fiquei sozinha no pátio, coçando o cenho. Eu não deveria segui-lo… mas os olhares sobre mim, somados à certeza de que a próxima aula seria um inferno, me fizeram ceder.
Segui-o outra vez.
Dessa vez, perdi-o de vista quando entrou em um prédio. Caminhei pelos corredores, mais interessada em conhecer cada canto da escola. Então, um som gracioso ecoou.
Piano.
Alguém tocava com perfeição.
Segui o som até uma porta dupla de madeira. Inclinei a cabeça, fechei os olhos, apreciando a melodia suave e lenta. A porta estava apenas encostada. Sem querer, empurrei-a um pouco.
E a cena diante de mim… eu sabia que jamais esqueceria.
Kaito estava sozinho, tocando um enorme piano. Perdi o ar ao notar que ele havia arrancado a blusa do time de basquete, jogada no chão aos seus pés. Ele era magro, mas não frágil — um magro enganoso. Definido. Os músculos bem marcados. Os gomos do abdômen brilhavam sob a luz, e uma tatuagem em japonês se estendia pela costela.
Ele não parava de tocar.
Era quase… angelical.
Engoli em seco quando seus olhos se ergueram e me encontraram. A música cessou. Ele suspirou, cruzando os dedos.
— Precisa de mais alguma coisa, novata?
— Preciso que pare de me chamar de novata.
Ele riu, levantou-se, apanhou a blusa no chão e se aproximou lentamente. Parecia intencional, como se sentisse prazer em exibir o peitoral.
— Mas você não é?
— Não precisa me lembrar disso toda vez que fala comigo.
— Certo… Bela.
O sorriso dele me desarmou. Eu não queria que se afastasse. Era um sentimento confuso. Queria dizer qualquer coisa, qualquer desculpa para mantê-lo ali, diante de mim, sem camisa.
Mas uma garota surgiu atrás dele. abrindo outra porta.
— Kaito, vamos. A galera conseguiu sair da escola. Dá pra matar aula e curtir a praia.
Ele passou por mim, mas parou na porta. A garota me encarava como se eu fosse uma ameaça, braços cruzados, claramente incomodada. Para Kaito, ela era indiferente.
— Quer matar aula no primeiro dia?
Adrenalina percorreu meu corpo. Papai com certeza me mataria… mas eu queria.
— Aceito.
Meu aceite arrancou um riso dele. Já a garota… odiou. Estava claro.
E, honestamente?
Eu não estava nem um pouco me importando.