Mundo de ficçãoIniciar sessãoClarice Martins
Quando tudo terminou, Pereira me olhou pela primeira vez desde o início da operação.
— Bom trabalho — disse ele, seco, mas suficiente para saber que não era só protocolo.
— Para nós — respondi em um murmúrio.
Sabia que havia algo a mais naquela operação. Provavelmente alguém estava ciente de tudo, ou uma tarefa maior viria logo.
Enquanto caminhávamos para o carro, sendo este a única viatura sem criminosos na parte de trás, esperei que Pereira ligasse o automóvel e saísse. Então, comentei com cuidado:
— Não consigo deixar de pensar que foi muito rápido.
Ele me lançou um olhar preguiçoso.
— O chefe deles deve ter um projeto maior no norte neste exato momento. Por isso foi tão fácil.
— E por que não podemos ir onde se concentra tudo? — interroguei, chateada.
Ele apertou os olhos sem me encarar, apenas respondeu o óbvio:
— Não temos permissão.
Bufei, me contendo. Sabia que todos eram lentos: uns por opção própria e outros por estarem amarrados, como eu, sem poder para agir sozinho.
“Quando for investigadora, vou buscar mais poder para ter sucesso nos meus casos.” Eu faria da vida de Renkins um verdadeiro tormento quando ele tentasse me submeter a ele.
Se Renkins não fosse tão idiota o tempo todo, eu poderia ter rido do pensamento constante de pisar nele quando tivesse oportunidade. Mas, só de pensar naquele cara, sentia raiva e desgosto.
— Vamos fazer uma parada — avisou meu parceiro.
— Onde? — perguntei imediatamente.
— Estaremos lá em breve — finalizou o investigador.
Apertei os lábios. Pereira não precisava ficar avisando todos os seus passos ao delegado. Talvez já tivesse dito o que faria, mas não compartilharia isso comigo.
“E para que me avisar se não vai falar sobre?” Suspirei, chateada.
Logo paramos em um shopping, na realidade, o lugar mais caro de toda a capital. Foi ali que ele estacionou. Meu colega por um dia sentiu necessidade de avisar, enquanto puxava um casaco estilo roupão do banco de trás:
— Não trouxe nada para você e tenho que ser discreto.
“Ótimo, deixada para trás.”
— Ficarei no carro — respondi, vendo-o abrir a porta.
Ele parou assim que pôs o primeiro pé para fora.
— Pode sair, se quiser. Só não vá longe.
Eu sorri, mas ele não presenciou, pois partiu.
— Isso foi uma ótima permissão — murmurei, querendo gargalhar sozinha. Mas a graça daquilo foi rapidamente perdida.
Bufei, encarando todo o automóvel. Pisquei, observando a paisagem urbana vista pela janela. Prédios grandes engoliam qualquer lugar para onde eu olhava.
“Coisa chata.” Puxei o cinto, sem pressa, abri a porta do carro e aproveitei o vento que balançou meus cabelos, à sombra do prédio onde estacionamos.
“Pelo menos é um alívio para minhas orelhas, longe daquele ser grosseiro e irritante.”
Respirei fundo, varrendo meu entorno. As pessoas passavam pela calçada, fingindo não me notar. Exceto as crianças, que sorriam ou se escondiam atrás de seus pais quando me viam.
A maioria nos apontava como pessoas que não hesitariam em pegar uma arma e atirar. Um pensamento correto, na verdade. Entretanto, existia um grupo considerado alvo. O outro, composto pelos inocentes e cidadãos de bem, não estava na minha lista. Pelo menos, na minha.
Encostando minhas costas e minha cintura na lateral da viatura, cruzei os braços, fingindo não ter curiosidade sobre as pessoas e tentando não assustar os pequenos.
“Eu consigo esperar.”
Depois de horas, vi Pereira sair acompanhado de um homem.
“Por fim!” Relaxei um pouco. Já estava ansiosa há alguns minutos.
Aquele que o acompanhava era alto como o investigador, mas musculoso, diferente do meu parceiro, que não tinha gordura nem músculos avantajados.
O homem não entrou totalmente na minha vista, mesmo eu estando fora do carro. Só pude observar suas roupas elegantes, pois estávamos separados pelo acostamento, carros em movimento e pedestres.
Minha curiosidade foi interrompida pelo celular vibrando no bolso traseiro da calça.
Na tela, Hudson me contactava.
“Não acredito.” Bufei.
— Senhor! — atendi.
— Onde está?
“Ele me persegue até depois de uma missão?”
— No shopping.
— Como é? — seu tom azedou.
— Com o senhor Pereira — finalizei, propositalmente.
A outra linha ficou em silêncio enquanto eu colocava o celular no viva-voz e soltava os cabelos, tirando o boné por um momento.
“Agora me pergunte se estou comprando roupas íntimas com o meu parceiro.”
— Ele está falando com o senhor Ferri, certo? — soou assim que tirei do viva-voz.
— Não sei, senhor. Apenas me pediu para esperar no carro — respondi, desinteressada.
— Ótimo. Venham assim que acabar! — ordenou, desligando em seguida.
— Para onde mais eu iria? — resmunguei, levantando um canto da boca em um rosnado silencioso.
“E quando eu virar cadáver, ele vai ligar para perguntar à minha alma se estou no céu ou no inferno?”
Levantei os olhos para buscar meu parceiro e o encontrei vindo na minha direção, enquanto o homem se afastava naquele exato instante.
Seu porte instigou minha curiosidade de imediato, além dos cabelos loiros, enquanto caminhava majestosamente em direção a um carro de luxo negro.
— Quem é ele? — perguntei assim que Pereira abriu a porta do seu lado.
— Pelo visto, só as mulheres que trabalham na polícia não o conhecem — disse Pereira, me encarando.
Fiquei em silêncio, na esperança de obter uma resposta, mas ela nunca veio. Ele apenas entrou no carro. Tive que seguir o exemplo, colocando o boné enquanto via o carro negro sumir no trânsito.
Pereira percebeu minha curiosidade e alertou enquanto nos tirava do lugar:
— A família dele só será alvo do departamento de polícia quando acontecer uma tragédia com algum membro deles.
O fitei, ainda mais interessada em suas palavras. Ele riu, pela primeira vez. Algo meio sombrio, na realidade.
— Então sua curiosidade em relação a ele será ainda maior.







