Mundo de ficçãoIniciar sessãoAramis Ferri
— O que sabemos sobre ela? — perguntei, tentando manter o tom calmo, mas sentindo um certo desconforto que tentei evitar.
O investigador olhou para mim, com uma expressão quase impassível. — Não muito. A identidade dela está protegida. O que sabemos é que ela tem alguma ligação com o caso e é nossa principal linha de investigação.Aquela resposta não me satisfazia. Eu não estava interessado na irmã, ou seja lá o que ela fosse, mas em como essa situação poderia afetar a minha família e a empresa. Meu pai sempre soube como criar problemas, e mais um escândalo era a última coisa de que eu precisava.
Apertei os dedos nas palmas. Era impossível calar a verdade por muito tempo, então minha decisão de procurar aquela pessoa, que a mim ainda era desconhecida, antes dos curiosos, era uma decisão certeira.
— E por que ainda não a encontramos? — perguntei, com um leve tom de impaciência. Ele suspirou. — Estamos atrás disso. Não é simples. Ela parece ter ficado fora dos radares, mas estamos no caminho.A resposta não me acalmou. O problema estava em como tudo isso poderia desmoronar sobre minha cabeça. Uma tragédia de escândalo não faria bem a ninguém, especialmente a mim.
“Droga! Não posso deixar meu negócio ser abalado por culpa de alguém. Mesmo que seja da família.” — Vamos, já falamos o suficiente aqui. Precisamos sair.Precisava de ar puro. Ou, pelo menos, mais espaço, evitando ficar rodeado de desconhecidos curiosos e falantes, como aqueles que nos assistiam com interesse. Fui o primeiro a caminhar em direção à saída, o investigador me seguiu logo atrás.
A questão da irmã não estava em meu radar, mas o que mais me preocupava era manter tudo controlado. Quando saímos, pude colocar as mãos nos quadris e inspirar com calma. Pereira parou na minha frente, buscando total atenção.
— Alguma pista do endereço dela? — questionei com mais calma. — Não. Ela morava sozinha há dois meses, mas agora tem uma companhia. — Franzi as sobrancelhas. — Quem? — Um cara, com mais ou menos a idade dela. — Cacete! — murmurei, passando os dedos pela testa, em um vai e vem lento. Levantando os olhos enquanto falava, varri a rua atrás de curiosos. — Está investigando ele também? — Sim. Seus dados são maiores que os dela, mas não os tenho em minhas mãos ainda.Apertei a mandíbula, irritado. Isso não me satisfez. Não era uma questão de querer entender o caso, era uma questão de evitar que mais danos fossem causados. O que quer que ela fosse, precisava ser mantido longe dos olhos públicos.
“Ótimo, agora não são apenas um. Podem ser dois ou três, em poucos meses.” Já não bastava ter que procurar a tal filha bastarda do meu pai, agora tinha que averiguar seu relacionamento e se ela tomava pílulas para supor o futuro de mais alguém. “E se ela tiver um bebê em breve? Droga!”Meus olhos pararam em um ponto atrás de Pereira, uma viatura, onde havia uma mulher se apoiando nela. Não tinha certeza, mas, quando ela tirou o boné e soltou os cabelos, vi sua franja loira. Algo nela me fez travar. Toda a investigação sumiu da minha mente.
A curiosidade bateu forte. Não era só o cabelo ou a forma como ela se movia. Era o jeito em que se comportava, quase despretensiosa, mas com uma confiança que me incomodava.
— Quem é ela? — perguntei, tentando parecer indiferente.O investigador olhou para ela antes de responder, como se fosse algo irrelevante.
— Minha parceira? — Ele respondeu de maneira descomplicada. — Uma policial de campo. — Ele lançou uma resposta vaga, como se fosse só mais uma pessoa qualquer.Não fiquei satisfeito. Apertei os olhos na direção dele, esperando mais detalhes.
— Peço desculpas. Não gravei o nome dela. Só sei que a chamam de Martins — ele disse, com desinteresse.Ele parecia não se importar o suficiente para me dar mais informações.
"Martins." O nome não deveria me importar, mas algo na maneira como ela se movimentava me inquietava. Uma confiança que parecia familiar, mas eu não conseguia associar a ninguém.A visão dela continuava me atormentando. Algo ali estava me incomodando de uma forma estranha, como se eu já tivesse visto aqueles olhos antes. Eu sabia a cor daqueles olhos, mesmo não os vendo agora.
Ela não olhou para mim. Sua atenção estava totalmente voltada para o aparelho nas mãos, como se o mundo ao redor não existisse. Eu, contudo, não conseguia desviar o olhar. Algo em mim gritava que já a conhecia, mas não fazia sentido... era só uma policial, como tantas outras.
“Ele não deveria saber sobre todos?” Estreitei os olhos com chateação.Eu já não estava mais prestando atenção nas palavras que ele dizia. Meu foco estava em outra coisa, algo que se recusava a sair da minha cabeça. A sensação de familiaridade, a visão dela, a memória que ela trouxe de volta.
Eu me vi ali de novo, com ela ao meu lado, a sensação quente da pele dela contra a minha, a franja loira… Eu podia sentir os dedos dela traçando os contornos da minha tatuagem, explorando com interesse.
— É linda. — O fascínio no rosto dela me orgulhou. O som das nossas vozes ecoou na minha mente, a minha resposta… — Que bom que gostou. — Vai ficar gravada na minha memória. — Suas palavras confiantes me instigaram.Aquela noite não deveria ter significado nada. Eu a tratei como nada mais do que um momento passageiro. Pelo jeito, ela também. Mas agora, vendo-a ali, tão próxima e tão alheia, senti algo crescer dentro de mim. Algo que eu pretendia ignorar.
“E eu estava certo? Ela não se lembrava de mim?” A ideia me inquietava mais do que eu gostaria de admitir. Queria que tudo fosse esquecido, sem mais complicações. “Seu corpo lembraria?”A voz do investigador me trouxe de volta à realidade:
— Senhor Ferri? — Estamos concluídos aqui — respondi, tentando soar indiferente, mesmo que meu interesse por ela continuasse pulsando em minha mente.A visão dela ficou gravada, de alguma forma, mas eu sabia que precisávamos seguir em frente. Olhei para ela uma última vez antes de me afastar, me virei e caminhei até o carro de luxo que me esperava.
O silêncio foi quase como um alívio. Mas, ao olhar pela janela, a sensação de familiaridade ainda me assombrava. Seus olhos me seguiram. Tomei uma decisão.
“Ainda nos veremos, senhorita Martins!”






