Capítulo 6

O sol ainda nem tinha nascido quando o sino tocou.

O som cortou o silêncio da madrugada… e, como sempre, arrancou a gente de um descanso que nunca era suficiente.

Eu abri os olhos devagar, sentindo o corpo pesado. A senzala ainda estava escura, abafada… cheia de gente, de respirações cansadas, de sonhos interrompidos.

Ali dentro… não existia silêncio de verdade.

Só cansaço.

Chinara já estava de pé.

Ela sempre acordava antes.

— Levanta, menina… — ela sussurrou, tocando meu ombro com cuidado. — Quanto mais rápido a gente se organiza, menos bronca a gente leva.

Eu assenti, ainda meio perdida entre o sono e a realidade.

Levantei do colchão de palha, sentindo o frio do chão nos pés. Ao meu redor, outras mulheres também se levantavam… em silêncio, quase automático.

Lá fora… os homens já estavam sendo levados.

Eu conseguia ouvir os passos, os comandos… o começo de mais um dia pesado na lavoura.

Eu já tinha visto.

Sol forte, pouca água… trabalho sem parar.

Os feitores sempre por perto.

Sempre olhando.

Sempre prontos.

O chicote não precisava nem ser usado muitas vezes… só de estar ali, já dizia tudo.

Eu e Chinara ficávamos na casa-grande.

Mas isso não significava descanso.

Nunca significava.

Cozinhar, lavar, limpar… cuidar de Sol…

O trabalho não acabava.

E cuidar de Sol… apesar do carinho… era um risco.

Qualquer coisa.

Um tropeço.

Um choro.

Um arranhão.

E a culpa… sempre vinha pra mim.

A comida era pouca.

De manhã… farinha, às vezes um café fraco.

No almoço… feijão ralo.

A gente comia rápido.

Sempre rápido.

Porque o tempo nunca era nosso.

Mas… mesmo ali…

Existiam momentos.

Pequenos… mas existiam.

À noite… quando o trabalho acabava… e o céu ficava cheio de estrelas…

A gente se juntava.

Baixinho.

Sem chamar atenção.

Alguém contava uma história.

Outro cantava.

E, por alguns minutos… parecia que a gente ainda era gente.

Eu olhava pro céu… e pensava neles.

Aziza…

Amir…

— Você ainda sonha em ser livre? — eu perguntei uma noite.

Chinara ficou em silêncio por um tempo.

Olhando pro céu… pela fresta da parede.

— Sonhar… ninguém pode tirar isso da gente — ela respondeu.

Eu guardei aquilo.

Mas nem todos os dias terminavam assim.

Quando algo dava errado…

O castigo vinha.

Rápido.

Cruel.

Às vezes… os gritos ecoavam pela fazenda.

E lembravam a gente de tudo.

Dona Ofélia não aceitava erro.

Principalmente das escravas da casa.

O senhor Santiago…

Ele era diferente.

Mas não o suficiente.

Ele não fazia.

Mas também não impedia.

E aquilo… às vezes doía igual.

No meio de tudo isso…

Eu cresci.

Entre o medo…

E a coragem.

Entre a dor…

E pequenos momentos de carinho.

E… sem perceber direito…

Algo novo começou a nascer dentro de mim.

Principalmente… quando eu cruzava o olhar com ele.

Afonso.

Eu não entendia.

Mas sentia.

Naquele dia… depois de horas de trabalho…

Algo mudou.

Sol apareceu correndo.

— Jamila! Vamos passear hoje! Mamãe deixou!

Eu me surpreendi.

Aquilo não era comum.

Passear… sem tarefa?

Mesmo assim, eu sorri de leve.

— Vamos sim, sinhazinha.

Antes de sair… eu olhei pra Chinara.

Ela não disse nada.

Mas o olhar dela disse tudo.

Cuidado.

Eu entendi.

Saímos.

O caminho era de terra… cercado por árvores. O verde ao redor parecia outro mundo… tão diferente da vida que a gente levava.

Sol corria… ria… colhia flores.

Leve.

Livre.

— Olha, Jamila! Essa é bonita, né?

Eu olhei pra flor… simples… mas cheia de cor.

E sorri.

De verdade.

— É linda, sim.

Por um momento…

Eu esqueci.

Senti o vento no rosto.

O sol na pele.

E… quase… parecia liberdade.

Mas durou pouco.

Eu senti antes de ver.

Aquele olhar.

Quando levantei os olhos… ele estava lá.

Um feitor.

Encostado perto da cerca.

Olhando.

Mas não era um olhar comum.

Não era só vigilância.

Era diferente.

Pesado.

Eu senti meu corpo travar.

Sol não percebeu.

— Vamos até ali! — ela disse, puxando minha mão.

O homem começou a andar na nossa direção.

Cada passo… pesado.

— Passeando, é? — ele disse.

Eu abaixei o olhar na hora.

— Sim, senhor… a sinhazinha quis sair um pouco.

Silêncio.

Eu senti o olhar dele em mim.

Lento.

Como se estivesse me analisando.

Como se eu fosse… uma coisa.

— Bonita você… — ele murmurou.

Meu coração disparou.

Um arrepio subiu pelo meu corpo.

Mas eu fiquei em silêncio.

Como sempre aprendi.

Sol franziu a testa, sem entender nada.

— Vamos, Jamila!

Ela me puxou.

E eu fui.

O homem não impediu.

Mas continuou olhando.

Eu só consegui respirar melhor quando já estávamos longe.

— Você tá estranha… — Sol disse.

Eu forcei um sorriso.

— Não é nada, sinhazinha.

Mas era.

E eu sabia.

Quando voltamos… Chinara percebeu na hora.

Ela sempre percebia.

— O que aconteceu?

Eu hesitei.

Mas falei.

— O feitor… ele olhou pra mim… estranho.

Ela fechou os olhos por um instante.

Como se já conhecesse aquela história.

— Fique atenta, menina… — ela disse. — Tem olhar que traz problema.

Eu senti um peso crescer dentro de mim.

Naquela fazenda…

Não bastava trabalhar.

Não bastava obedecer.

Existiam perigos que não vinham do chicote.

Vinham dos olhos.

E, naquele momento…

Eu entendi uma coisa que me deu medo de verdade.

Minha beleza…

Não era proteção.

Era risco.

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