Capítulo 7

O tempo passou… e eu nem percebi quando deixei de ser aquela menina assustada.

Os dias continuaram duros, um atrás do outro… mas eu mudei.

Agora, perto de completar 18 anos… eu sentia isso.

No meu corpo.

No meu olhar.

As pessoas olhavam pra mim de um jeito diferente. Eu percebia. Mas não era só isso.

Tinha algo dentro de mim também.

Algo que cresceu com a dor… com a resistência… com tudo que eu precisei suportar.

Naquela noite… Chinara estava diferente.

Eu percebi desde cedo.

Ela andava de um lado pro outro, organizando coisas com cuidado. Coisas simples… mas feitas com carinho.

Quando vi… senti meu coração apertar.

Um bolo.

Pequeno… simples… mas lindo.

— Hoje é um dia importante — ela disse, ajeitando um pano sobre a mesa improvisada. — Você merece lembrar que nasceu… que existe… e que é mais do que tudo isso aqui.

Eu não consegui segurar.

— Ninguém nunca fez isso por mim… — minha voz saiu fraca, com os olhos cheios de lágrimas.

Ela não disse nada.

Mas o olhar dela… disse tudo.

Quando a noite caiu… alguns vieram.

Em silêncio.

Sem festa… sem música alta…

Mas com algo que eu sentia falta.

União.

Verdade.

Chinara colocou o bolo no centro.

— Faça um pedido.

Eu fechei os olhos.

E, por um instante…

Eu não estava ali.

Não havia senzala… nem dor…

Só um desejo.

Liberdade.

Antes que eu abrisse os olhos…

Eu ouvi passos.

Todo mundo ficou tenso.

Meu coração disparou.

Mas quando olhei…

Não era quem eu esperava.

Era Sol.

E atrás dela…

Ele.

Afonso.

Eu senti o ar faltar por um segundo.

Sol entrou sorrindo.

— A gente soube… não dava pra deixar passar.

Eu não sabia o que dizer.

Afonso ficou mais atrás… mas o olhar dele…

Parou em mim.

— Feliz aniversário, Jamila — ele disse.

Meu nome… na voz dele…

Soou diferente.

O silêncio tomou conta por um instante.

Eles ali… na senzala…

Aquilo não era normal.

Sol se aproximou e me entregou um pequeno embrulho.

— É simples… mas eu pensei em você.

Minhas mãos tremeram levemente quando peguei.

Abri devagar.

Um lenço.

Delicado… bonito… raro.

Algo que não pertencia àquele lugar.

— É… lindo… — eu disse. — Muito obrigada, sinhazinha.

— Não me chama assim hoje — ela respondeu, quase brava. — Hoje é seu dia.

Eu sorri… sem saber direito como reagir.

Mas eu sentia.

Algo diferente.

Afonso não tirava os olhos de mim.

— Você mudou muito… — ele disse.

Eu abaixei o olhar.

— O tempo muda todo mundo, senhor.

— Nem tudo — ele respondeu. — Algumas coisas… só ficam mais fortes.

Meu coração acelerou.

Eu não consegui olhar pra ele.

Chinara se aproximou.

Eu senti.

Ela tinha percebido.

— Agradecemos a visita… mas já está tarde.

Ele entendeu.

Sempre entendia.

Sol me abraçou antes de sair.

— Você merece coisas boas… nunca esquece disso.

Eu fiquei ali… parada… segurando o lenço.

Mas não era só o presente que mexia comigo.

Era ele.

O jeito que me olhava.

O que eu sentia… sem entender.

Chinara chegou perto de mim.

— Cuidado, menina…

Eu olhei pra ela.

— Nem todo sentimento pode ser vivido sem dor.

Aquilo ficou em mim.

Fundo.

Depois que tudo acabou… e o silêncio voltou…

Eu não consegui dormir.

Meu coração ainda estava acelerado.

Eu levantei devagar… sem fazer barulho… e saí.

A noite estava bonita.

O céu cheio de estrelas.

O vento leve no meu rosto…

Por um momento… paz.

— Tão longe… — eu murmurei.

— Nem tudo está tão longe assim.

A voz atrás de mim me fez estremecer.

Eu me virei.

Era ele.

Afonso.

— Senhor… o que faz aqui?

Ele se aproximou devagar.

— Eu podia te perguntar o mesmo.

Eu abaixei o olhar.

— Só queria… um pouco de ar.

Ele olhou pro céu.

— Eu vinha aqui quando era mais novo… achava que as estrelas traziam respostas.

— E trazem? — perguntei.

Ele sorriu de leve.

— Ainda estou esperando.

O silêncio veio.

Mas não era ruim.

Era cheio de algo que eu não sabia explicar.

Então ele fez um movimento.

— Eu trouxe uma coisa pra você.

Eu olhei, confusa.

Ele tirou uma pulseira.

Simples… mas bonita.

Delicada.

— Eu vi isso e… pensei em você.

Meu coração disparou.

— Eu não posso aceitar, senhor…

— Não me chama assim — ele disse, baixo.

Eu hesitei.

— Isso não é certo…

Ele deu um passo mais perto.

— Eu sei.

O olhar dele encontrou o meu.

E eu não consegui desviar.

— Mas isso aqui… não é sobre regras.

Ele pegou minha mão.

O toque foi leve.

Mas… mudou tudo.

Devagar… ele colocou a pulseira no meu pulso.

Eu não me mexi.

Nem consegui.

— Pronto…

Eu olhei pra pulseira.

Depois pra ele.

— Por quê?…

Ele demorou… mas respondeu:

— Porque você merece mais do que esse lugar.

Aquilo me atingiu.

Forte.

— O senhor não devia dizer isso…

— Talvez não… — ele disse. — Mas é verdade.

O silêncio ficou mais intenso.

Mais perigoso.

Eu dei um passo pra trás.

— Se alguém vê…

— Eu sei.

Ele respirou fundo.

— Eu só queria te dar isso.

Eu segurei a pulseira com cuidado.

Como se fosse algo precioso demais.

— Obrigada…

Ele assentiu.

Mas não foi embora na hora.

Ficou me olhando.

Como se quisesse dizer mais.

Mas não podia.

Então… ele se virou.

— Boa noite… Jamila.

Meu nome.

Sem distância.

Sem barreira.

Eu fiquei ali.

Parada.

Olhando ele se afastar.

O céu ainda estava cheio de estrelas…

Mas, dentro de mim…

Algo brilhava mais forte.

Algo bonito.

E ao mesmo mais perigoso.

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