Capítulo 5

O sol já estava desaparecendo quando a carruagem parou na frente da casa.

O caminho de volta foi em silêncio… mas não era um silêncio tranquilo. Era pesado. Eu sentia no peito. Sabia que aquilo não tinha acabado.

Sabia que Dona Ofélia não ia deixar passar.

Assim que descemos… nem deu tempo de respirar.

— Jamila, venha comigo. Agora.

A voz dela cortou o ar.

Eu engoli seco e abaixei a cabeça, seguindo atrás dela. Minhas mãos tremiam… mesmo tentando esconder.

Eu senti o olhar de Chinara de longe.

Ela sabia.

Ela sempre sabia.

Mas não podia fazer nada.

Quando entramos na sala… Dona Ofélia fechou a porta com força.

O som ecoou dentro de mim.

— Você me fez passar vergonha! — ela começou, andando de um lado para o outro. — Uma escrava… chamando atenção daquele jeito!

Meu coração disparou.

— Eu… só fiz o que mandaram, senhora…

— Cala-se!

O grito veio forte.

Eu me calei na mesma hora.

Ela se aproximou.

Eu vi a mão dela se levantar.

E eu fiz o que sempre fazia.

Fechei os olhos.

Esperei.

— MÃE, NÃO!

A voz veio antes do golpe.

Meus olhos se abriram na hora.

Sol.

Ela entrou correndo… e se colocou na minha frente.

Na minha frente.

— A culpa não é dela! Fui eu que quis levar ela! — disse, com a voz firme… mesmo sendo tão pequena.

Meu peito apertou.

Eu não sabia o que sentir.

Logo atrás… ele apareceu.

Afonso.

Sério.

O olhar fixo na mãe.

— A senhora está sendo injusta. Jamila não fez nada de errado.

Eu senti o chão sumir por um instante.

Ninguém… nunca tinha feito aquilo por mim.

Nunca.

Dona Ofélia olhou para os dois… como se não acreditasse.

— Vocês estão me desafiando agora?

— Não é desafio — ele respondeu. — É o certo.

O silêncio ficou pesado.

Então outra voz entrou na sala.

Senhor Santiago.

Ele parou na porta, observando tudo… como se já entendesse.

— Já chega, Ofélia.

Ela se virou, indignada.

— Você vai permitir isso? Seus filhos defendendo uma escrava?

Eu abaixei mais a cabeça.

A palavra doeu… como sempre.

— Eu vou permitir justiça — ele disse. — E ela não merece castigo nenhum.

O silêncio que veio depois… foi diferente.

Pesado… mas firme.

Sol segurou minha mão com força.

Como se estivesse me protegendo.

Afonso ficou ao nosso lado.

Eu não estava sozinha.

Pela primeira vez… eu não estava sozinha.

Dona Ofélia respirou fundo… com raiva.

Eu senti.

Mas ela abaixou a mão.

— Isso não acabou… — disse antes de sair, batendo a porta.

Eu fiquei parada.

Sem reação.

Ainda tentando entender o que tinha acontecido.

Sol apertou minha mão e sorriu pra mim.

— Eu não vou deixar ninguém te machucar.

Eu senti algo subir pela garganta.

Quase chorei.

Afonso só fez um pequeno gesto com a cabeça.

Mas foi suficiente.

Algo… tinha mudado.

Sol me puxou.

— Vem… vamos sair daqui.

Eu fui.

A gente foi para o jardim.

O ar lá fora era diferente. Mais leve. O céu já estava escuro… com algumas estrelas aparecendo.

Sol logo correu, distraída, atrás de uma borboleta.

E, de repente… eu fiquei sozinha com ele.

O silêncio veio.

Mas não era ruim.

Só… tímido.

— Você tá bem? — ele perguntou.

Eu olhei pro chão.

— Tô… já estou acostumada…

Assim que falei… percebi.

Mas era verdade.

Ele franziu o rosto.

— Não devia estar acostumada com isso.

Eu levantei o olhar, surpresa.

Ninguém nunca tinha dito aquilo.

— Aqui… é assim que as coisas são — respondi.

Ele deu um passo mais perto.

Meu coração acelerou.

— Nem tudo precisa continuar sendo.

Eu não soube o que dizer.

Só senti.

— Por que você me defendeu? — perguntei, quase sem voz.

Ele não desviou o olhar.

— Porque foi injusto… — disse. — E… porque eu me importo.

Meu coração… falhou.

Por um instante… eu não sabia onde olhar… nem o que sentir.

Ninguém nunca tinha dito aquilo pra mim.

Nunca.

O silêncio voltou… mas agora… cheio de algo que eu não conhecia.

— Vocês estão muito quietos! — Sol apareceu correndo.

Eu quase me assustei.

Afonso sorriu de leve.

— Só conversando.

Sol nos olhou desconfiada… mas logo esqueceu.

— Vamos brincar!

Ela me puxou.

E, sem perceber… eu ri.

De verdade.

Depois de tanto tempo… eu ri.

Mas enquanto eu brincava… eu sentia.

O olhar dele.

Diferente.

E, dentro de mim…

Algo começou a mudar.

Naquela mesma noite… a casa estava em silêncio.

Mas eu não consegui dormir.

E, sem saber por quê… senti que algo ainda estava acontecendo.

Algo que eu não via.

Mas que… ia me atingir.

Porque eu conhecia o olhar de Dona Ofélia.

E, dessa vez…

Era diferente.

Não era só desprezo.

Era pior.

Era como se… ela tivesse me escolhido.

Como um problema.

Como uma ameaça.

E eu sabia…

Que isso… nunca acabava bem.

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