Capítulo 2

O sol já estava se pondo quando cheguei à casa dos meus novos donos.

Eu nunca tinha visto nada igual. As paredes eram altas, os móveis brilhavam, e tudo parecia… silencioso demais. Um silêncio que não trazia paz. Só medo.

Meu coração batia rápido. Não era esperança.

Era medo do que vinha pela frente.

Foi ali que eu conheci eles.

A mulher… Ofélia… tinha um olhar frio. Ela me observava como se eu não fosse gente. Como se estivesse avaliando algo que tinha comprado. Ao lado dela, o senhor Santiago não disse quase nada. Só olhou… e concordou com a cabeça, como se aquilo bastasse.

— Essa é a nova — ela disse, seca. — Vai cuidar da Sol.

Eu abaixei a cabeça.

Não tinha o que dizer.

Logo depois, uma menina apareceu correndo pelo corredor. Pequena, leve… com um sorriso que parecia não conhecer o mundo em que vivia.

— Essa é Sol — Ofélia falou. — E você vai fazer tudo por ela.

A menina se aproximou de mim, curiosa. Me olhou como se eu fosse algo novo… mas não com maldade.

— Você vai brincar comigo? — ela perguntou.

Eu forcei um sorriso pequeno.

— Vou sim, sinhazinha.

E naquele momento… eu entendi que minha vida ali seria dela.

Mas eu também entendi outra coisa.

Nada ali era leve de verdade.

Eu aprendi rápido.

Se Sol caísse… a culpa era minha.

Se ela chorasse… eu apanhava.

Se ela se sujasse… eu era castigada.

Não importava o que acontecesse.

Sempre… era minha culpa.

Os dias viraram tensão constante. Eu vivia observando tudo, tentando prever cada movimento, cada erro… antes que ele acontecesse.

Foi numa dessas tardes que eu conheci melhor Chinara.

Ela também era de Moçambique. Quando ouvi a voz dela pela primeira vez… senti algo diferente. Como se, por um instante, eu não estivesse tão sozinha.

Mas os olhos dela… carregavam tristeza.

Uma tristeza antiga.

Ela me viu sendo castigada. Não disse nada na hora. Mas depois… quando ninguém estava olhando… ela se aproximou.

— Escuta, menina — ela falou baixo — aqui a gente sobrevive aprendendo a observar.

Eu segurei o choro.

— Não é culpa minha… — eu sussurrei.

Ela colocou a mão no meu ombro.

— Eu sei. Mas aqui, culpa não importa. O que importa… é evitar o erro antes que ele aconteça.

A partir daquele dia… ela começou a me ensinar.

Como perceber o humor de Ofélia antes dela falar.

Como distrair Sol antes que ela se machucasse.

Como esconder o cansaço.

— Nunca deixe eles verem você fraca — ela dizia. — Porque eles usam isso contra você.

Eu guardei cada palavra.

Mesmo com tudo isso… Sol começou a se apegar a mim.

Ela não entendia o que acontecia ao redor. Não via a maldade. Só queria alguém perto.

E, sem perceber… eu também comecei a me apegar.

Cuidar dela… às vezes… era o único momento em que eu sentia um pouco de paz.

Mas quando a noite chegava…

A dor voltava.

Eu fechava os olhos… e só conseguia ver Aziza… Amir…

— Onde vocês estão…? — eu sussurrava no escuro.

E prometia, em silêncio:

Eu vou encontrar vocês.

Eu não vou desistir.

Enquanto eu tentava sobreviver ali… eu sentia, no fundo… que meus irmãos também estavam lutando.

Eu não sabia onde.

Mas sabia que estavam.

E, dentro de mim… algo sempre dizia que eles ainda estavam juntos.

Aziza…

Eu conheço minha irmã.

Ela nunca soltaria Amir.

Nunca.

E isso me dava força.

Os anos começaram a passar.

Os dias continuavam parecidos… mas eu já não era a mesma.

Sol cresceu… e eu cresci com ela.

Ela deixou de ser só a menina que eu cuidava.

Virou minha companhia.

Minha pequena amiga.

Ela confiava em mim… como se eu fosse alguém importante.

Como se eu fosse… família.

E isso… doía e confortava ao mesmo tempo.

Porque eu sabia que a minha verdadeira família… estava longe.

Ou talvez… perdida.

Quando completei 15 anos… eu já não era mais aquela menina assustada que chegou ali.

Eu tinha aprendido a me controlar. A observar. A suportar.

Mas, dentro de mim… ainda existia saudade.

Saudade de Aziza…

De Amir…

De tudo que eu perdi.

Quem me ajudava a não me perder completamente… era Chinara.

Ela virou mais do que alguém que me ensinava.

Ela virou abrigo.

Era ela quem cuidava de mim quando ninguém via.

Quem tratava minhas feridas.

Quem me lembrava de quem eu era.

— Você não é só o que fizeram com você — ela dizia. — Você é o que ainda vai se tornar.

Eu guardava isso comigo.

Como um segredo.

Como uma esperança.

À noite, quando tudo ficava em silêncio… a gente conversava.

Ela me contava sobre Moçambique.

Sobre nossas tradições.

Sobre músicas… histórias…

E, por alguns momentos… eu sentia que ainda pertencia a algum lugar.

Que eu ainda tinha raízes.

E, no fundo do meu peito…

Algo começou a crescer.

Não era só dor.

Era esperança.

Uma esperança silenciosa… mas forte.

Forte o suficiente pra me manter de pé.

Forte o suficiente pra me fazer acreditar…

Que um dia…

Eu ainda vou encontrar meus irmãos.

E que a minha história…

Ainda não terminou.

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