Capítulo 3

O sol ainda nem tinha nascido direito quando a casa já estava em movimento.

Eu percebi antes mesmo de alguém me dizer: era dia de festa.

Tudo parecia mais apressado, mais tenso… mas Sol estava diferente. Ela corria de um lado para o outro, sorrindo, animada como eu nunca tinha visto.

— Jamila vai comigo! — ela insistia, batendo o pé.

Eu fiquei em silêncio, esperando a resposta que já conhecia.

Mas, para minha surpresa… Dona Ofélia cedeu.

— Desde que saiba se comportar — disse ela, sem nem olhar para mim direito.

Meu coração apertou.

“Se comportar”… aquilo sempre vinha acompanhado de um peso.

Foi então que Chinara me chamou.

Ela abriu um baú antigo e, com muito cuidado, tirou um vestido verde. Simples… mas bonito. Bonito de um jeito que eu não estava acostumada a ver em mim.

— Vem cá — ela disse, com uma voz diferente, mais suave.

Eu me aproximei, meio sem jeito.

Ela começou a me arrumar como se… como se eu fosse importante.

Ajeitou o vestido no meu corpo, com cuidado. Penteou meu cabelo com paciência, separando cada mecha. Limpou meu rosto… ajeitou tudo.

Ninguém nunca tinha feito aquilo por mim daquela forma.

— Hoje você vai brilhar… mas com cuidado — ela disse.

Eu não respondi.

Mas senti.

Quando ela terminou… ficou em silêncio por um instante. Eu percebi o olhar dela em mim.

— Você está… linda — ela falou.

Eu abaixei os olhos na mesma hora.

Eu não sabia o que fazer com aquela palavra.

Linda.

Quando chegamos ao casamento… eu quase parei na entrada.

Era tudo grande demais. Luzes, música, vestidos caros… pessoas rindo alto, como se o mundo fosse leve.

Eu caminhei ao lado de Sol… sempre um passo atrás.

Como eu tinha aprendido.

Mas algo estava diferente.

Eu comecei a sentir os olhares.

Primeiro poucos… depois mais.

Até que ficou impossível ignorar.

Foi quando eu senti.

Alguém me olhando de verdade.

Eu levantei os olhos por um instante… e encontrei os dele.

Afonso.

Ele estava parado, olhando para mim como se… não me reconhecesse.

Como se estivesse me vendo pela primeira vez.

Eu desviei o olhar imediatamente.

Meu coração começou a bater mais rápido.

Eu não entendia o porquê.

Tentei continuar como sempre. Ajustei o vestido de Sol, cuidei dela, fiz o que era meu lugar.

Mas os olhares não paravam.

E ele… também não.

Depois de um tempo… ele se aproximou.

Eu senti antes mesmo de ver.

— Sol… você está bonita hoje — ele disse.

Ela sorriu toda feliz.

— Eu sei! Foi a Chinara que me arrumou… e a Jamila também!

Eu quis desaparecer naquele momento.

Então ele olhou para mim.

De verdade.

O mundo… ficou em silêncio.

— Você… está diferente — ele disse.

Minha garganta secou.

Eu abaixei os olhos.

— Obrigada, senhor…

Assim que falei… senti o peso da palavra.

“Senhor”.

Eu sempre disse.

Mas, naquele momento… pareceu errado.

Ele franziu levemente o rosto.

— Não precisa me chamar assim…

Eu nem tive tempo de responder.

— Afonso.

A voz de Dona Ofélia cortou o momento.

Eu senti o corpo travar.

Ela se aproximou devagar. Olhou primeiro para ele… depois para mim.

Aquele olhar.

Frio.

Medido.

— Sol, venha comigo. Você precisa cumprimentar os noivos.

— Mas eu quero ficar com a Jamila…

— Agora, Sol.

Sol suspirou, mas obedeceu. Antes de sair, segurou minha mão.

— Você vem também!

Por um segundo… eu quase fui.

Mas Dona Ofélia foi mais rápida.

— Não. Jamila fica.

Minha mão ficou vazia.

De novo.

O silêncio voltou… pesado.

Eu já sabia.

Ela se aproximou mais.

— Você está chamando atenção demais — disse, em voz baixa. — Lembre-se do seu lugar.

Cada palavra entrou como se fosse… conhecida demais.

Eu engoli seco.

— Sim, senhora…

— Fique mais afastada. E não quero você circulando como se fosse uma deles.

Eu senti o vestido pesar no meu corpo.

Aquilo que, por um momento, me fez sentir… diferente…

Agora parecia um erro.

Ao lado, Afonso ficou em silêncio… mas eu percebi.

Ele não gostou.

— Mãe, ela só está—

— Afonso — ela interrompeu — vá conversar com pessoas da sua idade.

Ele hesitou.

Eu senti o olhar dele em mim mais uma vez.

Mas ele foi embora.

E eu fiquei.

Parada.

Tentando não deixar as lágrimas caírem.

Foi quando senti alguém ao meu lado.

Chinara.

— Eu te avisei… — ela disse, baixinho.

Eu assenti.

— Eu não fiz nada…

Minha voz saiu pequena.

Ela segurou minha mão, escondido.

— Eu sei. Mas às vezes… só existir já incomoda.

Eu respirei fundo.

Tentei me recompor.

Mas, dentro de mim… algo tinha mudado.

Do outro lado do salão… eu ainda sentia o olhar dele.

Mas agora… não era só admiração.

Era diferente.

E, pela primeira vez…

Eu também comecei a sentir.

Não só o peso do meu lugar naquele mundo…

Mas o quanto ele podia mudar tudo.

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