Eu tinha apenas 11 anos… mas, naquele dia, senti como se tivesse vivido mais do que deveria.
O sol ainda brilhava forte em Moçambique, como sempre. Mas, para mim, tudo escureceu no momento em que aqueles homens armados invadiram a minha aldeia. Eu não entendi o que estava acontecendo… só senti o medo tomando conta de tudo.
Segurei com força a mão de Aziza, minha irmãzinha de 6 anos, enquanto tentava manter Amir, meu pequeno irmão de 4, perto de mim. Ele chorava sem parar, assustado, sem entender nada.
— Fica comigo… não solta — eu sussurrei, mesmo com a voz tremendo.
Mas o medo já era maior que qualquer palavra.
Eles nos arrancaram dos nossos pais… sem despedida… sem explicação. Até hoje eu consigo ouvir o grito da minha mãe ecoando na minha cabeça, chamando por nós, lutando… e depois… nada. Só silêncio.
Os dias passaram… ou pelo menos eu acho que passaram. Eu já não sabia mais. Estávamos com fome, com sede, cansados… até que nos levaram até um grande navio.
Foi a primeira vez que vi o mar.
Em outra vida, talvez eu tivesse achado bonito. Mas naquele momento… ele parecia infinito… e cruel.
Fomos empurrados para dentro de um lugar escuro, apertado, cheio de gente. O cheiro era horrível. O medo… pior ainda.
Aziza chorava baixinho.
— Jamila… a gente vai voltar pra mamãe?
Eu engoli o choro. Eu queria dizer que sim. Queria acreditar nisso. Mas lá no fundo… eu já sabia.
— Eu tô aqui… eu não vou deixar nada acontecer com vocês — falei, abraçando os dois.
E foi ali… naquele escuro… que eu deixei de ser criança.
Eu virei força. Virei proteção. Virei o que eles precisavam.
Os dias no navio não acabavam nunca. Fome, sede, doença… gente chorando o tempo todo. Mesmo assim, eu fazia de tudo pra manter meus irmãos vivos. Dividia cada pedaço de comida, cada gole de água.
Eu já não pensava mais em mim.
Só neles.
Quando finalmente chegamos ao Brasil… eu pensei que talvez fosse acabar.
Mas não acabou.
Nos colocaram em fila… como se fôssemos coisas. As pessoas olhavam, apontavam, falavam… como se estivéssemos à venda.
E estávamos.
Meu coração disparou. Eu apertei ainda mais as mãos dos meus irmãos.
— A gente vai ficar junto… — eu disse, mais pra mim mesma do que pra eles.
Mas, no fundo… eu já sentia que aquela promessa ia doer.
O sol estava alto quando começaram a separar as pessoas. Os homens gritavam ordens. Eu não entendia tudo… mas entendia o suficiente: ninguém ali tinha escolha.
Segurei Aziza de um lado e Amir do outro com toda a força que eu tinha.
— Não solta… não solta de mim… — eu repetia, como uma oração.
Aziza já chorava alto. Amir tremia, escondido em mim.
Então… um homem se aproximou.
Ele me olhou… como se eu fosse um objeto. Deu a volta em mim… e, de repente, puxou meu braço com força.
— NÃO! — eu gritei, tentando me soltar. — Eles vêm comigo!
Outro homem arrancou Aziza de mim.
O grito dela… eu nunca vou esquecer.
— JAMILA! NÃO! EU NÃO QUERO!
Amir começou a chorar ainda mais alto quando o puxaram pro outro lado.
— Jami… Jami…
Eu lutei.
Com tudo que eu tinha.
Chutei, puxei, gritei… tentei alcançar eles… mas eu era pequena demais.
— POR FAVOR! ELES SÃO MEUS IRMÃOS! — minha voz já nem parecia minha.
Mas ninguém respondeu.
Ninguém se importou.
Por um último instante… eu vi Aziza sendo levada, com a mãozinha estendida pra mim… os olhos cheios de medo.
Amir gritava meu nome… tentando voltar…
E então…
Eles sumiram.
Minhas pernas não aguentaram.
Eu caí de joelhos.
O mundo ficou em silêncio.
Eu não ouvia mais nada. Nem gritos… nem vozes… nem o próprio vento.
Só um vazio.
Um vazio enorme dentro de mim.
Minhas mãos… que antes seguravam meus irmãos… agora estavam vazias.
Eu apertei os dedos contra o peito, como se aquilo pudesse trazer eles de volta… mas não trouxe.
— Qual é o seu nome? — um menino mais velho perguntou.
Demorei pra responder. Minha voz saiu fraca… quebrada:
— Jamila…
Uma mulher me interrompeu, fria:
— Agora você pertence a nós. Vai aprender a se comportar.
Eu abaixei a cabeça.
As lágrimas caíam… silenciosas.
Naquele momento… eu não era mais só uma menina.
Eu era alguém que tinha perdido tudo.
Mas, mesmo com a dor rasgando meu peito… uma promessa ainda ardia dentro de mim.
Eu nunca vou esquecer Aziza e Amir.
Nunca.
E um dia…
Eu vou encontrar meus irmãos novamente.