Mundo de ficçãoIniciar sessãoNa véspera do meu casamento, os padrinhos e as madrinhas estavam animados demais para dormir e sugeriram uma brincadeira de confissões anônimas. Cada um escreveria num papel algo que gostaria de dizer a mim, a futura noiva. Fechei os olhos cheia de expectativa, imaginando que receberia todo tipo de felicitação. Mas congelei assim que abri o primeiro bilhete. "Sua desgraçada! Se você não tivesse pressionado meu irmão, a Cami seria minha cunhada!" Camila Ferreira, minha melhor amiga, havia me ligado chorando apenas três horas antes para pedir desculpas. Disse que precisaria viajar a trabalho de última hora e não conseguiria comparecer ao meu casamento. Com as mãos trêmulas, continuei lendo. "A aliança que Rafael comprou para você foi a que a Camila rejeitou. Ela achou simples demais, então acabou sobrando para você." "Sabia? No dia em que sua mãe morreu, ele estava transando com a Camila na cama da casa onde vocês iam morar depois do casamento?" "A Camila não vai ao casamento porque acabou de ter um filho do Rafael e ainda está se recuperando do parto." Quando meus olhos chegaram ao último bilhete, reconheci a letra na hora.
Ler maisRafael permaneceu quinze dias em Vila Serena.Tentou tudo o que conseguiu imaginar.Flores, presentes, pedidos de desculpas e até se ajoelhar diante de mim.Mas eu não queria mais nada.No sétimo dia, ele finalmente chegou ao limite.Naquela manhã, saí da pousada como de costume, pronta para caminhar às margens do Lago das Brisas.Rafael estava agachado diante da entrada. Assim que me viu, levantou-se de repente.Mas se ergueu rápido demais. Suas pernas cederam, e ele caiu de joelhos diante de mim.Parei e o observei de cima.— Helena.Sua voz e seu corpo inteiro tremiam.— Diga o que preciso fazer para você me perdoar.— Dê-me uma solução. Não importa o quanto seja difícil, eu farei.— Se mandar que eu morra, eu morro.Olhei em seus olhos sem dizer nada.De repente, ele levantou a mão e deu um tapa violento no próprio rosto.— Este foi em seu nome.— Eu nunca deveria ter me envolvido com sua melhor amiga.Ele se esbofeteou novamente.— Este foi em nome da sua mãe.— Quando ela morreu,
Rafael não foi embora.Ele se hospedou em Vila Serena e, todos os dias, às sete da manhã, ficava agachado diante da minha pousada esperando que eu saísse.Às vezes, eu passeava pelo Centro Histórico. Em outras, ficava distraída às margens do Lago das Brisas.Rafael me seguia a uma pequena distância. Não ousava se aproximar demais, mas também se recusava a ficar longe.No terceiro dia, comprou um enorme buquê de hortênsias, deixou-o na recepção da pousada e escreveu um bilhete:"Você disse que esta era sua cor favorita."Quando passei pela recepção, apenas olhei para as flores e não as peguei.No quarto dia, descobriu que eu gostava dos biscoitos artesanais de goiabada vendidos numa confeitaria do Centro Histórico. Enfrentou duas horas de fila para comprar uma caixa.Deixou-a nos degraus diante da pousada.Quando voltei, desviei dela.No quinto dia, começou a chover em Vila Serena.Rafael estava sob o toldo do outro lado da rua, encharcado dos pés à cabeça e segurando um guarda-chuva.A
Rafael chegou a Vila Serena no fim da tarde do dia seguinte.Seguiu pela rua da foto publicada pelo colega até parar, ofegante, diante de uma loja de tecidos artesanais.Olhou para dentro.Não havia nenhum cliente.Ele entrou e perguntou à proprietária:— Com licença, uma moça esteve aqui hoje?— Ela usava um sobretudo cinza, tinha cabelo comprido e mais ou menos esta altura...Rafael indicou minha altura com a mão.A proprietária pensou por um instante e assentiu.— Sim. Aquela moça veio ontem e comprou um pedaço de tecido. Disse que faria uma caminha para o gato de casa.— Sabe onde ela está hospedada?A mulher balançou a cabeça.— Isso eu não sei. Mas parece que ela pretende ficar por bastante tempo. Já veio à nossa loja várias vezes.Rafael agradeceu e saiu.Parado no meio da rua, ele não sabia que caminho seguir.Começou a andar sem rumo pelo Centro Histórico.Sempre que passava por uma pousada, erguia os olhos, esperando encontrar a silhueta conhecida.Ao chegar perto do Portão S
Rafael começou a me procurar por toda parte.Primeiro, foi ao café onde nos conhecemos.Ficava numa rua estreita perto da universidade.O lugar continuava igual. Plantas verdes pendiam do parapeito das janelas, e um sino dos ventos estava pendurado na entrada.Quando Rafael abriu a porta, encontrou a mesma proprietária sorridente de antes. Ao ver ele, ela ficou surpresa.— Rafael? Quantos anos! Nunca mais apareceu por aqui.— Senhora, a Helena... veio aqui recentemente?Ela pensou por um momento e balançou a cabeça.— Não. Aquela moça não vem aqui há muito tempo.Rafael agradeceu e saiu.Depois, foi ao cinema onde havíamos assistido ao nosso primeiro filme juntos.O velho cinema havia sido demolido anos antes, e agora havia um shopping no local.Ele ficou algum tempo parado na entrada, observando as pessoas que iam e vinham. Nenhuma silhueta lhe pareceu familiar.Por fim, seguiu até a praia onde havíamos começado a namorar.O vento do inverno era frio o bastante para doer nos ossos.A





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