Capítulo 2
Meu celular vibrou sobre a mesa durante toda a noite.

As mensagens de Camila chegaram uma após a outra.

A tela acendia e apagava sem parar.

Não li nenhuma. Apenas silenciei o aparelho.

Às nove da manhã, bateram à porta.

Rafael entrou, seguido pela maquiadora.

Ele vestia um terno cinza-escuro e a gravata que eu havia comprado especialmente para ele.

— Pode começar a maquiagem. Já está quase na hora.

Continuei sentada, sem me mexer.

— Eu já disse que o casamento foi cancelado.

Seu rosto escureceu. Ele franziu a testa:

— Os convidados estão prestes a chegar. Que escândalo você quer fazer agora?

Ergui a cabeça para encará-lo e soltei uma risada fria:

— Não consigo fingir que nada aconteceu. Não consigo me casar com um homem que transou escondido com a minha melhor amiga.

— Rafael, você não sente nojo de si mesmo?

Seus lábios se moveram, mas, antes que pudesse responder, a porta se abriu de repente.

Camila entrou correndo.

Ela ainda usava as roupas fornecidas pela casa de recuperação materna, e o cabelo estava preso de qualquer jeito.

— Lena, deixe eu explicar...

Ela avançou e segurou meu pulso.

— Aquilo foi um acidente!

Puxei a mão de volta.

— Não precisa explicar.

— Mesmo que o que aconteceu quatro anos atrás tenha sido um acidente, o filho também foi?

— Durante esses quatro anos, eu a considerei minha melhor amiga, enquanto você transava escondida com o meu homem.

Camila abriu a boca, e as lágrimas brotaram de seus olhos.

— Lena, eu...

Baixei os olhos para a roupa que ela vestia.

No peito, havia uma pequena frase bordada: Casa de Recuperação Materna Aurora da Baía das Acácias.

De repente, ri e me virei para Rafael:

— Então era por isso que você vivia viajando a trabalho para a Baía das Acácias, sem atender minhas ligações nem responder minhas mensagens.

— Na verdade, você ia ver ela e cuidar dela.

— E eu, como uma idiota, rezava todos os dias para seu voo pousar em segurança e só conseguia dormir depois de receber uma mensagem sua.

Rafael apertou os lábios e abaixou a cabeça.

Camila começou a chorar:

— Lena, me desculpe... Eu não queria esconder isso de você...

Rafael atravessou o quarto em dois passos e a amparou.

— Cami, você acabou de sair do resguardo. Não fique muito tempo em pé.

Ele a levou até o sofá, agachou-se diante dela e deu leves tapinhas em suas costas.

Meus olhos pararam na aliança que Camila usava.

Era três vezes maior do que a minha, e as facetas do diamante cintilavam sob a luz.

Não era de admirar que ela tivesse achado a minha simples demais.

— Rafael, eu passei oito anos ao seu lado.

Naquele momento, nem sabia se deveria me revoltar mais por ter sido menosprezada ou pela traição dos dois.

— Eu estive com você desde o apartamento alugado que vivia inundando até a cobertura enorme. Desde a época em que não tínhamos dinheiro nem para macarrão instantâneo até você passar a ganhar centenas de milhares de reais por ano.

— A aliança que você colocou no meu dedo não chega nem a um terço do tamanho da que deu a ela.

— Para você, eu valho tão pouco assim?

Rafael se levantou bruscamente, o rosto sombrio.

— Chega!

— Ela acabou de dar à luz e ainda não se recuperou. Pare de falar.

— Está bem. Não vou dizer mais nada.

Me virei, peguei o celular na cabeceira e caminhei para a porta.

Mal dei alguns passos, encontrei a mãe do Rafael, Teresa, vindo na direção oposta.

Ela vestia um vestido vinho. Ao me ver, seu sorriso desapareceu.

— Helena, veja que horas são! Você ainda nem fez a maquiagem. Aonde pensa que vai?

— Para casa. Não vou mais me casar.

Ela ficou paralisada por um segundo.

— O que você disse?

— Eu disse que o casamento foi cancelado. Não vou mais me casar.

O rosto dela ficou vermelho.

— Helena, você está brincando com toda a nossa família, sua...

Antes de terminar, ela olhou por cima do meu ombro e viu as pessoas dentro do quarto.

Camila estava sentada no sofá com a roupa da casa de recuperação, o rosto ainda coberto de lágrimas.

Teresa hesitou, e sua expressão mudou.

— Cami, você acabou de dar à luz! Por que saiu da Casa Materna Aurora?

Fiquei imóvel.

Quando finalmente entendi, achei tudo aquilo absurdamente ridículo.

Todos sabiam.

Todos, menos eu.

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