Helena
O escritório ainda estava silencioso quando atravessei a porta de vidro. Daniel me cumprimentou com um sorriso que eu devolvi apenas com um aceno breve. Meu corpo estava presente, mas minha mente já estava na sala, mergulhada nos documentos do caso de Ângela.
Quando entrei, encontrei a mesa exatamente como deixei: flores silvestres do meu pai ainda vivas, meu notebook carregado e o dossiê de Ângela aberto como um lembrete de que alguém acreditava em mim para restaurar a própria vida.
Sentei. Endireitei as costas. Abri a pasta.
Hoje eu ia montar tudo. Do início ao fim.
Ângela Farias merecia isso.
Respirei fundo e comecei pela linha do tempo. Quanto mais eu lia, mais a sensação de sufocamento dela se infiltrava em mim.
1. A suspeita
A fatura do cartão.
O nome do motel.
A insistência das mesmas datas.
Ângela descreveu esse momento como “a primeira rachadura no vidro”. Não era só ciúme. Era um incômodo estrutural. Uma sensação de que algo essencial já tinha mudado sem que ela fosse