A noite caiu com uma calma enganosa, como se o mundo estivesse segurando o fôlego junto com Júlia. Desde a visita de Helena, algo havia se rearranjado dentro dela. Não era mais dor, nem raiva. Era clareza. E clareza, às vezes, assusta mais do que qualquer conflito aberto.
Daniel percebeu o silêncio diferente enquanto preparavam o jantar juntos. Não era desconfortável, mas denso, cheio de pensamentos não ditos.
— Você está quieta demais — ele comentou, mexendo a panela no fogão.
— Estou organizando despedidas — Júlia respondeu.
Ele parou o movimento.
— Despedidas?
Ela assentiu devagar.
— Não de pessoas… de versões minhas que não existem mais.
Daniel se aproximou, encostando-se ao balcão de frente para ela.
— Isso costuma doer — disse.
— Dói — Júlia concordou. — Mas dói menos do que continuar sendo quem já não sou.
Ele segurou o rosto dela com cuidado, como se estivesse tocando algo precioso.
— Você mudou muito desde que acordou naquele hospital — ele disse. — E não falo só da memória.