(Thales)
A dor era uma coisa viva, pulsante, grudada no meu rosto.
O lado direito era um inferno de carne cozida e crua ao mesmo tempo, uma massa úmida e latejante sob as ataduras grossas que o médico de merda tinha colocado.
Cada respiração puxava a pele, fazendo um fogo novo brotar.
E a visão… essa merda do lado direito era só um borrão de luzes e sombras, uma névoa permanente de agonia.
A facada na barriga doía a cada movimento, era uma pontada constante que me lembrava da traição final dela.
Ela tentou me matar.
Eu entrei no apartamento-fortaleza mancando, o gosto do ódio tão forte na boca quanto o gosto do pus que eu sentia escorrer da minha cara.
O cheiro do lugar, mofo e tensão, piorou minha náusea.
O médico, um cara baixo e assustado que trabalhava para o esquema, se aproximou, seus olhos fugindo dos meus.
— Senhor Thales, eu insisto… o senhor precisa de repouso. A queimadura é de segundo grau, pode infeccionar, e a facada…
— Cale a boca! — grunhi, e a dor no rosto disp