Mundo de ficçãoIniciar sessãoFiquei na sala de reuniões depois de ela sair.
Garrett entrou dois minutos depois para recolher as pastas e os copos e teve o bom senso profissional de interpretar o meu silêncio como sinal de que não precisava de conversa. Era por isso que Garrett durava, sabia quando o espaço era para preencher e quando era para deixar em paz, e não confundia os dois. Fui até à janela. Chicago estava cinzenta e agitada lá fora, o lago encrespado pelo vento de novembro, os barcos de recreio já amarrados há semanas e os turistas substituídos pelas pessoas que viviam aqui de verdade, de casacos escuros e passo decidido, sem tempo para o cenário. Era a cidade que eu preferia. Não a versão de verão, que era bonita de um modo demasiado óbvio. A versão de inverno, que exigia algo das pessoas. Quinn Mercer não era o que eu esperava. E o que me incomodava não era isso, eu adaptava-me a variáveis, era o meu trabalho. O que me incomodava era a natureza específica da diferença. Eu esperava competência. Aldridge & Park não mandava incompetentes para contas desta dimensão. Competência eu sei gerir: coloco-a no lugar certo da hierarquia, uso-a onde preciso, descarto-a quando não serve. Era simples. Era previsível. O que eu não esperava era aquela qualidade de atenção. Quinn Mercer ouvia de um modo que a maior parte das pessoas não ouve, não apenas a processar o que eu dizia enquanto formulava a resposta seguinte, mas a ouvir de verdade, a pesar, a considerar. Havia nela uma presença que não performava. Não tentou impressionar-me. Não tentou agradar. Quando eu a provoquei com a observação sobre Marcus Holt ela não recuou nem tentou suavizar, devolveu, limpa e directa, com aquela frase que ficou: Há sempre diferença. Ninguém me devolvia assim. Não a mim, não com aquela naturalidade. As pessoas ou recuavam, ou tentavam compensar com eficiência excessiva, ou sorriam do modo calculado de quem quer que eu gostasse delas. Ela não fez nenhuma das três coisas. Simplesmente bateu de frente comigo e percebi a leve irritação, embora ela a tivesse contido. Peguei no telefone e liguei a Cassandra, porque precisava descarregar alguma tensão ou vontade, era para isso que ela servia. Não atendeu. Deixei tocar e desliguei sem mensagem. A tarde teve quatro reuniões mais e um jantar com um investidor de Dallas que tinha ideias interessantes e uma tendência para se ouvir a falar que tornava os jantares inevitavelmente longos. Voltei ao escritório depois das dez, trabalhei até à meia-noite, fui a casa. O apartamento estava vazio e em silêncio, como estava a maior parte das noites. Servi whisky, sentei-me no sofá, e deixei que o cansaço das últimas doze horas assentasse nos ombros enquanto olhava para as luzes da cidade pela janela. Tentei pensar na reunião de Ohio de quinta-feira. Pensei em Quinn a dizer há sempre diferença. Tentei organizar o calendário da semana seguinte. Pensei no modo como ela me tinha olhado quando eu disse funcionará, não com satisfação nem com ansiedade, mas com aquela expressão de avaliação directa, como se eu fosse um problema que ela estava a resolver em tempo real. Como se eu não a impressionasse particularmente. Embora ela tenha me intrigado. Era isso. Era exactamente isso que não conseguia catalogar: na minha experiência, as pessoas eram impressionadas por mim antes de me conhecerem, pelo nome, pela empresa, pelo que representava. E depois ou confirmavam ou decepcionavam-se. Na maioria das vezes a primeira opção, e faziam de tudo para grudar em mim e tentar tirar alguma vantagem. Quinn Mercer tinha entrado naquela sala sem nenhum dos dois, tinha entrado com os seus próprios documentos e as suas próprias perguntas e tinha tratado a reunião como um problema a resolver onde eu era uma das variáveis, não a mais importante. Não estava habituado a isso. Não sabia ainda se gostava. Sabia que não conseguia parar de pensar nisso, que era uma informação diferente e que, provisoriamente, guardei naquele compartimento da cabeça onde ficam as coisas que ainda não têm categoria. Eu tinha conseguido perceber que toda a vez que ela se concentrava no documento, passava lentamente a língua pelos lábios, como se fosse satisfatório. Eu já conseguia visualizar o que ela poderia fazer com o meu pau. A forma como seus lábios ficariam cada vez mais rosados e inchados. Dei um suspiro. Às duas da manhã Cassandra mandou mensagem: Adormeci. Amanhã? Escrevi: Sim. E fui para a cama. Mas fiquei acordado mais uma hora com o tecto por cima e a consciência incómoda de que amanhã tinha mais três reuniões e dois relatórios e uma decisão sobre Ohio, e que de todas essas coisas a que ficava mais próxima da superfície do pensamento era a reunião de hoje. Era a reunião de hoje. Era Quinn Mercer a dizer há sempre diferença com aqueles olhos verdes nos meus que não piscaram.






