5 - Quinn

A Dana apareceu no escritório às seis e meia de quinta-feira com o casaco de inverno e a determinação de alguém que não aceita contra-argumentos, e eu fui porque era mais fácil do que inventar uma desculpa que ela aceitasse e porque, honestamente, precisava de sair.

O Finch's era o nosso sítio desde a faculdade, um bar em Wicker Park que tinha conseguido o feito improvável de envelhecer bem ao longo dos anos, com as mesas de madeira gasta e o jukebox que ninguém usava mas que estava sempre lá e a carta de vinho curta, mas adequada. A Dana já tinha a mesa do fundo, dois copos pedidos, e aquele olhar de quem se preparou para a conversa antes de eu chegar.

— Conta — disse ela, mal me sentei. A curiosidade borbulhava em todo o seu rosto.

— Boa noite, Dana, estou bem, obrigada por perguntares.

— Quinn. Tens o olhar. — Ela tinha um olhar desconfiado.

— Que olhar?

— O olhar de quando há alguma coisa que queres dizer, mas estás a decidir se dizes. Que já te conheço há dez anos e sei distinguir. — Inclinou-se sobre a mesa. — É o caso novo? Tem a ver com algum homem?

Bebi um gole de vinho antes de responder. Não queria hesitar, ainda mais de forma tão dramática, é só por necessidade de organizar o que ia dizer de modo a não soar como soava na minha cabeça, que era excessivo para uma reunião de trabalho de noventa minutos.

— É o cliente — disse finalmente.

A Dana ficou quieta durante exactamente dois segundos, o tempo dela para processar e recalibrar. Depois:

— Descreve.

— É um cliente, Dana. — O que mais eu poderia dizer?

— Isso não é uma descrição. Isso é uma evasão com fato profissional. Descreve o homem.

Olhei para o copo.

— Alto. Fato cinzento. Olhos castanhos com âmbar. Faz perguntas curtas e directas e não perde tempo com superfluidades.

— Deus meu.

— É um cliente.

— Repara que eu ainda não disse nada sobre isso. — Ela levantou a mão com a palma para a frente. — Continua. Como é ele além do visual?

— Está a pedir-me que descreva a personalidade de um cliente numa reunião de trabalho de noventa minutos como se isso fosse uma data.

— Estou a pedir-te que sejas honesta comigo, que é diferente.

Fiz uma pausa.

— É... difícil de ler. Diz pouco. Cada coisa que diz tem peso. Testou-me logo na primeira reunião, fez uma provocação pequena, sobre o facto de não ser o Marcus Holt — e eu respondi e ele... aceitou. Sem recuar nem escalar. Só aceitou.

— E isso fez o quê a ti?

— Nada. — Isso é verdade, mas...

— Quinn.

— Fiquei a pensar nisso mais do que devia. Ele me olhou mais do que devia. — Disse isso para o copo. — Satisfeita?

Dana sorriu com o tipo de satisfação tranquila de quem acabou de confirmar uma hipótese que já tinha há algum tempo.

— Não vou dizer que isto é surpreendente.

— Então não digas nada. Devo estar a fazer tempestade em copo de água. — Dou um pequeno gol do meu copo.

— Já que estás a pedir...

— Não estou a pedir.

— Vou dizer na mesma. — Ela endireitou-se na cadeira e o rosto ficou sério, embora ainda tivesse um pequeno sorriso. — Quinn. Ouve-me. Passaste dezoito meses a reconstruir tudo o que o Daniel desmontou. Fizeste isso sozinha, de forma metódica, como fazes tudo. É admirável. Mas há uma diferença entre reconstruir e fechar, e às vezes quando estás a reconstruir fechas também as coisas que devias deixar abertas.

Não respondi imediatamente. Era o tipo de coisa que a Dana dizia que não tinha uma resposta fácil.

— É o cliente — disse eu finalmente.

— Esse é um facto relevante. Mas não é o único facto. — Acenou com satisfação — Se eu fosse você, aceitaria a possível investida que ele dará.

Foi nessa altura que Ryan Cole apareceu.

Chegou ao bar sozinho, pediu qualquer coisa ao barman, e o barman disse qualquer coisa e ele olhou para a nossa mesa com o tipo de sorriso aberto e sem segundas intenções de quem está genuinamente a ser amigável. A Dana respondeu ao sorriso com o entusiasmo de alguém que decidiu que este era o momento certo para uma interrupção.

Ryan Cole era objectivamente atractivo — alto, loiro, com aquele tipo de beleza descomplicada e acessível que não pede nada a ninguém, facilmente um golden retriever. Apresentou-se com facilidade, consultor financeiro, de Boston há três anos, amigo de alguém que conhecia a Dana através de não sei quem. A conversa foi fácil. Ele tinha sentido de humor e não tentava demasiado e era exactamente o tipo de homem com quem eu deveria querer conversar.

E eu conversei. Ria de coisas que eram genuinamente engraçadas. Ele pediu o meu número e eu estava a abrir a boca para o dar quando me apercebi de que estava a olhar para os olhos dele e a tentar perceber se havia ali algum âmbar.

Não havia. Eram azuis, sem ambiguidade, azuis simples e claros.

Dei o número. Ele saiu satisfeito.

A Dana olhou para mim com aquela expressão.

— Não digas — disse eu.

— Não disse absolutamente nada. — Ela levantou as mãos em rendição.

— Dana.

— Bebe o vinho, Quinn.

Bebi o vinho. E tentei não pensar que tinha acabado de passar os últimos quinze minutos numa conversa com um homem atractivo e simpático a pensar noutra coisa completamente. Tentei não pensar que a outra coisa tinha olhos castanhos com âmbar e uma voz grave que dizia há sempre diferença como se fosse facto estabelecido.

Não consegui completamente. Mas tentei.

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