Mundo ficciónIniciar sesiónA Dana apareceu no escritório às seis e meia de quinta-feira com o casaco de inverno e a determinação de alguém que não aceita contra-argumentos, e eu fui porque era mais fácil do que inventar uma desculpa que ela aceitasse e porque, honestamente, precisava de sair.
O Finch's era o nosso sítio desde a faculdade, um bar em Wicker Park que tinha conseguido o feito improvável de envelhecer bem ao longo dos anos, com as mesas de madeira gasta e o jukebox que ninguém usava mas que estava sempre lá e a carta de vinho curta, mas adequada. A Dana já tinha a mesa do fundo, dois copos pedidos, e aquele olhar de quem se preparou para a conversa antes de eu chegar. — Conta — disse ela, mal me sentei. A curiosidade borbulhava em todo o seu rosto. — Boa noite, Dana, estou bem, obrigada por perguntares. — Quinn. Tens o olhar. — Ela tinha um olhar desconfiado. — Que olhar? — O olhar de quando há alguma coisa que queres dizer, mas estás a decidir se dizes. Que já te conheço há dez anos e sei distinguir. — Inclinou-se sobre a mesa. — É o caso novo? Tem a ver com algum homem? Bebi um gole de vinho antes de responder. Não queria hesitar, ainda mais de forma tão dramática, é só por necessidade de organizar o que ia dizer de modo a não soar como soava na minha cabeça, que era excessivo para uma reunião de trabalho de noventa minutos. — É o cliente — disse finalmente. A Dana ficou quieta durante exactamente dois segundos, o tempo dela para processar e recalibrar. Depois: — Descreve. — É um cliente, Dana. — O que mais eu poderia dizer? — Isso não é uma descrição. Isso é uma evasão com fato profissional. Descreve o homem. Olhei para o copo. — Alto. Fato cinzento. Olhos castanhos com âmbar. Faz perguntas curtas e directas e não perde tempo com superfluidades. — Deus meu. — É um cliente. — Repara que eu ainda não disse nada sobre isso. — Ela levantou a mão com a palma para a frente. — Continua. Como é ele além do visual? — Está a pedir-me que descreva a personalidade de um cliente numa reunião de trabalho de noventa minutos como se isso fosse uma data. — Estou a pedir-te que sejas honesta comigo, que é diferente. Fiz uma pausa. — É... difícil de ler. Diz pouco. Cada coisa que diz tem peso. Testou-me logo na primeira reunião, fez uma provocação pequena, sobre o facto de não ser o Marcus Holt — e eu respondi e ele... aceitou. Sem recuar nem escalar. Só aceitou. — E isso fez o quê a ti? — Nada. — Isso é verdade, mas... — Quinn. — Fiquei a pensar nisso mais do que devia. Ele me olhou mais do que devia. — Disse isso para o copo. — Satisfeita? Dana sorriu com o tipo de satisfação tranquila de quem acabou de confirmar uma hipótese que já tinha há algum tempo. — Não vou dizer que isto é surpreendente. — Então não digas nada. Devo estar a fazer tempestade em copo de água. — Dou um pequeno gol do meu copo. — Já que estás a pedir... — Não estou a pedir. — Vou dizer na mesma. — Ela endireitou-se na cadeira e o rosto ficou sério, embora ainda tivesse um pequeno sorriso. — Quinn. Ouve-me. Passaste dezoito meses a reconstruir tudo o que o Daniel desmontou. Fizeste isso sozinha, de forma metódica, como fazes tudo. É admirável. Mas há uma diferença entre reconstruir e fechar, e às vezes quando estás a reconstruir fechas também as coisas que devias deixar abertas. Não respondi imediatamente. Era o tipo de coisa que a Dana dizia que não tinha uma resposta fácil. — É o cliente — disse eu finalmente. — Esse é um facto relevante. Mas não é o único facto. — Acenou com satisfação — Se eu fosse você, aceitaria a possível investida que ele dará. Foi nessa altura que Ryan Cole apareceu. Chegou ao bar sozinho, pediu qualquer coisa ao barman, e o barman disse qualquer coisa e ele olhou para a nossa mesa com o tipo de sorriso aberto e sem segundas intenções de quem está genuinamente a ser amigável. A Dana respondeu ao sorriso com o entusiasmo de alguém que decidiu que este era o momento certo para uma interrupção. Ryan Cole era objectivamente atractivo — alto, loiro, com aquele tipo de beleza descomplicada e acessível que não pede nada a ninguém, facilmente um golden retriever. Apresentou-se com facilidade, consultor financeiro, de Boston há três anos, amigo de alguém que conhecia a Dana através de não sei quem. A conversa foi fácil. Ele tinha sentido de humor e não tentava demasiado e era exactamente o tipo de homem com quem eu deveria querer conversar. E eu conversei. Ria de coisas que eram genuinamente engraçadas. Ele pediu o meu número e eu estava a abrir a boca para o dar quando me apercebi de que estava a olhar para os olhos dele e a tentar perceber se havia ali algum âmbar. Não havia. Eram azuis, sem ambiguidade, azuis simples e claros. Dei o número. Ele saiu satisfeito. A Dana olhou para mim com aquela expressão. — Não digas — disse eu. — Não disse absolutamente nada. — Ela levantou as mãos em rendição. — Dana. — Bebe o vinho, Quinn. Bebi o vinho. E tentei não pensar que tinha acabado de passar os últimos quinze minutos numa conversa com um homem atractivo e simpático a pensar noutra coisa completamente. Tentei não pensar que a outra coisa tinha olhos castanhos com âmbar e uma voz grave que dizia há sempre diferença como se fosse facto estabelecido. Não consegui completamente. Mas tentei.






