3 - Quinn

O edifício da Harlow Industries ficava no coração do Loop e era exactamente o que eu esperava: quarenta e dois andares de vidro e aço que o céu de novembro reflectia em tonalidades cinzentas e azuis conforme a luz mudava. A entrada era ladeada por duas esculturas abstractas que eu identificava como arte cara mesmo sem ser especialista, e a recepcionista tinha o sorriso ensaiado de quem está habituada a que toda a gente que entra por aquela porta seja importante de alguma forma, logo, ela tinha de ser simpática.

Identifiquei-me e sem demora, fui conduzida ao elevador. Vigésimo nono andar.

Respirei durante a subida e passei a mão sobre a minha roupa. Não de ansiedade, ou não apenas isso. Esse é tipo o meu ritual antes de fazer qualquer coisa importante: encher completamente, esvaziar completamente, recomeçar, verificar se está tudo oky em mim. O meu professor de yoga da faculdade chamava-lhe centramento. Eu chamava-lhe de não entrar numa sala a tremer.

A sala de reuniões era enorme, com aquela vista do lago que em novembro era quase opressiva, o céu cor de chumbo, a água quase preta, o horizonte sem linha clara entre os dois. Havia uma mesa de conferências para vinte pessoas e eu estava sozinha nela com um assistente chamado Garrett que me ofereceu café com uma eficiência quase robótica de alguém que faz aquilo duzentas vezes por semana. Aceitei. Abri a pasta. Verifiquei as minhas notas pela última vez com a concentração de um piloto a confirmar o checklist antes de descolar.

Esperei sete minutos.

Depois a porta abriu-se e eu percebi imediatamente o que as fotografias não tinham conseguido transmitir: Jace Harlow era, antes de tudo o resto, uma questão de presença. Não de dimensão apenas, embora fosse alto, de ombros largos, com um fato cinzento-escuro que assentava nele com a precisão de algo feito à medida e provavelmente era. Era a forma como ele entrou na sala: sem urgência, sem hesitação, com a cadência específica de alguém que não precisa de verificar se há espaço para ele porque nunca questionou que havia.

Eu estava de queixo caído. Mentalmente.

Os olhos eram castanhos com algo de âmbar, e quando ele me viu, quando entrou e o olhar dele me encontrou de pé junto à janela, não houve nenhuma expressão discernível, mas o olhar passeou sobre mim. Não foi surpresa, não foi avaliação visível. Foi apenas atenção. Uma atenção completa e imediata que me prendeu como um pino antes que eu tivesse tempo de me preparar para ela.

— Ms. Mercer. — A voz era grave, baixa, controlada. Não perguntou. Confirmou.

— Mr. Harlow. — Estendi a mão, enquanto me forçava a não tremer.

O aperto foi firme, breve e seco, a mão dele era grande e quente, e durou exactamente o tempo certo, nem um segundo a mais nem a menos, o tempo de dois adultos profissionais a estabelecerem um território de trabalho. Mas quando ele libertou a minha mão os olhos dele ficaram nos meus um momento a mais. Suficiente para que eu notasse. Mas não sabia o que fazer com essa informação.

Sentámo-nos. Ele abriu a pasta que Garrett tinha deixado sobre a mesa e depois não olhou para ela. Olhou para mim. Senti como lâminas sobre mim.

— Não é Marcus Holt — disse.

Não era queixa nem aprovação. Era o registo de um facto, entregue com a neutralidade de quem anota uma variável numa equação.

— Não. — Pausei com drama e com os olhos semicerrados. Todo nervosismo tinha passado. — Sou eu a associada líder neste caso. Algum problema com isso?

Algo passou pelos olhos dele. Demasiado rápido para nomear.

— Ainda não sei — disse ele com tom que soou frio demais. E havia ali uma provocação pequena e precisa, do género que se pode ignorar ou aceitar. Ele entregou-a sem sorrir, sem nenhum sinal de que estava a testar. Mas estava.

Eu escolhi aceitar.

— Então sugiro que nos poupemos a especulações e comecemos a trabalhar — disse eu. — Tenho o esboço do âmbito da diligência prévia, as áreas prioritárias identificadas, e um calendário proposto para as seis semanas. Se quiser começar pelo âmbito...

— Pelo âmbito. — Me interrompeu.

— Pelo âmbito, então. — Endireitei a postura para conter a leve irritação.

Trabalhámos durante noventa minutos. Ele fazia perguntas curtas, directas, do tipo que revela preparação prévia e uma inteligência que não precisa de se anunciar. Cada pergunta ia exactamente ao ponto de pressão do argumento, não às margens, não ao superficial. Ao centro. E quando eu respondia ele ouvia de verdade, não apenas a processar para formular a resposta seguinte.

Era raro. Eu não esperava que fosse raro nele e ficou-me.

A certa altura, durante a discussão sobre uma discrepância nos registos de activos em Illinois, ele levantou os olhos dos documentos e olhou para mim por cima da mesa com aquela atenção total. Estava inclinado ligeiramente para a frente, as mãos abertas sobre os papéis, e havia na proximidade dele, mesmo com a mesa entre nós, uma qualidade de calor físico que eu registei.

Algo se agitou no meu âmago, mas não era uma sensação de desconforto.

— Esta discrepância é intencional ou erro de registo? — perguntou.

— Ainda não sei. As duas hipóteses têm implicações diferentes para a avaliação. Vou ter uma resposta até quinta.

— Quarta. — Declarou com os olhos me avaliando, tal como durante toda a reunião. Como se conseguisse me ler claramente, como se eu fosse um simples papel.

Olhei para ele.

Isto era um desafio? Um teste?

— Quarta é possível se eu tiver acesso aos registos secundários até amanhã à tarde.

Jace girou a caneta entre os dedos. Nossos olhares não se desviaram em momento algum.

— Terá.

— Então quarta.

No fim da reunião ele fechou a pasta e ficou em silêncio um momento antes de falar.

— Funcionará — disse. Não era elogio. Era avaliação do meu empenho.

— Fico satisfeita em ouvir isso. — É verdade. De repente estava de volta a terceira série, recebendo aprovação em algum projecto bobo. Embora esse trabalho fosse tudo, menos bobo.

— Não disse que funcionaria bem. Disse que funcionará.

Havia ali outra provocação, mais pequena, mais subtil, mas presente. Ele olhava para mim com aquela expressão que não mudava mas que tinha qualquer coisa de activo por baixo, como uma corrente sob a superfície de água parada.

Olhei de volta, sem desviar. Já podia ver o canto de sua boca franzido. O idiota estava se divertindo.

— Há diferença — disse eu, por fim, enquanto me levantava e passava as mãos sob a calça.

— Há sempre diferença.

O silêncio que se seguiu durou três segundos e tinha textura. Ele não desviou o olhar e eu também não. E depois Garrett entrou com alguma questão logística e o momento desfez-se com a eficiência prática de interrupções corporativas.

Saí do seu escritório com honra, quase desfilando. Fiz o caminho de regresso ao escritório num taxi, com a bolsa no colo e os olhos na rua, e tentei fazer o inventário clínico do que tinha acontecido: reunião produtiva, cliente exigente, bom início de relação de trabalho. Profissional. Gerível.

O problema era que o inventário clínico não incluía uma linha para o modo como ele tinha dito há sempre diferença, com aquele tom baixo e preciso que não era flerte e não era só trabalho, que era qualquer coisa que eu não sabia como catalogar e que ficou na minha cabeça muito tempo depois do resto ter assentado.

Aqueles olhos âmbar eram um problema. A forma como ele me encarava era um problema.

Eu sabia-o. E sabia também que saber não ia necessariamente resolver nada.

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