Mundo de ficçãoIniciar sessãoMeu olhar caiu sobre as malas próximas à escadaria e meu coração bateu com tanta força que achei que pudesse infartar e morrer naquele momento.
Não! Não podia ser ela!
Brianna era minha prima. Havia sido criada por minha mãe quase como uma filha. Durante muitos anos, foi a pessoa mais próxima que tive de uma irmã. Não podia ser a mulher das mensagens. Não podia ser a mulher por quem meu marido estava apaixonado.
Talvez Oliver tivesse apenas ido encontrá-la. Talvez aquelas malas e a intimidade entre os dois não significassem nada. Mas uma parte de mim, aquele pensamento que eu tentava desesperadamente silenciar, já sabia a verdade.
Mordi o lábio, tentando impedir que percebessem o quanto ele tremia.
— Jaqueline. — ela levantou-se e apontou para o sofá à nossa frente. — Sente-se. Estou com tanta saudade e ansiosa para te contar como foi minha morada em Paris.
Sim... ela me convidava para sentar na minha própria casa, como se eu fosse a visita e ela a dona.
E talvez, dentro de alguns meses, realmente fosse. Em menos de um ano, ela ocuparia o meu lugar na vida do meu marido e, inevitavelmente, na dos meus filhos.
— Quem é ela, mamãe? — Zoe perguntou, escondendo-se atrás de mim, como se tivesse percebido o quanto aquela presença me abalava.
— Sua mamãe nunca falou de mim? — Brianna fez um beicinho. — Eu não acredito nisso! Éramos tão ligadas, Jaqueline. Como esqueceu de falar da sua quase irmã para a sua filha? — fingiu estar magoada.
Zoe permaneceu em silêncio. Sem que eu percebesse, Oliver se aproximou e retirou Maicon adormecido dos meus braços.
— Mas aposto que o seu papai contou sobre mim, não é mesmo, Oli?
"Oli"?
Um arrepio percorreu minha espinha. Depois de tantos anos, ela ainda o chamava daquele jeito.
— Papai não me falou nada. — Zoe respondeu. — Você é minha prima, então?
— Sim, eu sou sua prima. Mas pode me chamar de tia, se quiser. Tia Bri.
Não consegui conter um sorriso irônico.
"Tia Bri."
A mulher que, muito em breve, provavelmente ocuparia o meu lugar definitivamente. A vida que eu tanto sonhei e a qual nunca teria.
Olhei para as malas e depois para Oliver. Eu deveria perguntar porque uma visita chegava com tantas bagagens, mas simplesmente não consegui.
— Você esqueceu de buscá-los na escola. — falei.
— Fui buscar Brianna no aeroporto.
Naquele instante, a última esperança que eu ainda tentava preservar desapareceu. A foto da mala, as unhas impecavelmente feitas. A mensagem avisando que havia acabado de pousar.
Era ela. Brianna era a "Senhor Love" de Oliver.
— E esqueceu dos seus filhos?
— A culpa é minha, Jaqueline!
Brianna aproximou-se e repousou delicadamente a mão sobre o braço de Oliver.
— Liguei para o Oli de última hora. Fazia tanto tempo que não nos víamos que eu não imaginei ninguém me buscando a não ser ele. Você não se importa, não é mesmo? Sabe há quanto tempo Oli e eu ficamos separados.
Não respondi. Meu coração acabara de se partir mais uma vez. E, ironicamente, nem fazia diferença. Ele já estava condenado a deixar de bater em breve.
— Vou botar Maicon na cama. — Oliver disse, seco. — Brianna ficará aqui em casa até ela encontrar uma casa. Não acho justo ela ficar num hotel sendo que temos quartos de sobra nessa casa.
Enquanto Oliver subia as escadas, peguei Zoe no colo e o acompanhei. Eu jamais abria mão de dar banho nos meus filhos, alimentá-los e colocá-los para dormir.
Oliver acomodou Maicon na cama, enquanto Zoe começou a contar ao pai como havia sido seu dia.
Naquela casa existiam pelo menos quinze quartos. Mesmo assim, Zoe e Maicon nunca aceitaram dormir separados. Eram gêmeos extremamente ligados, embora Maicon dependesse muito mais da irmã do que ela dele.
Pela primeira vez em muitos anos, Oliver parecia não dar verdadeira atenção ao que Zoe dizia. Era evidente que queria encerrar a conversa para voltar para Brianna.
Respirei fundo e perguntei:
— Por que ela está aqui?
— Eu já te respondi. — ele disse, como se aquilo realmente explicasse tudo.
— Eu não achei que vocês ainda se falavam.
— Temos nos falado com frequência. Contratei Brianna para a nova campanha da Diamond. Ela será a modelo do novo perfume que estaremos lançando.
Naquele momento, senti que já não restava mais nada do meu mundo.
Além de amantes, agora trabalhariam juntos.
— Providencie um quarto para Brianna, Jaqueline. — ordenou.
Eu poderia discutir. Poderia dizer que aquela também era a minha casa, mas, por algum motivo, não encontrei forças. Talvez porque fosse inútil tentar segurar algo que nunca foi verdadeiramente meu, principalmente agora, quando minha própria vida escorria por entre os dedos.
Enquanto Zoe prendia o pai em mais uma de suas intermináveis histórias, desci para pedir que a governanta preparasse um quarto para Brianna.
Brianna me observou atravessar a sala. Ignorei completamente sua presença e fui direto até a governanta:
— Senhora Hills, por favor, providencie um quarto para a nossa hóspede. — sorri na direção da minha prima. — Você prefere ao lado do quarto do meu marido ou dividir o mesmo quarto que ele?
Brianna deu um sorriso debochado, daqueles que eu conhecia muito bem. Aproximou-se de mim sem pressa e lançou um rápido olhar para a escada, certificando-se de que Oliver ainda não estava voltando.
Então sussurrou:
— Por enquanto o quarto ao lado. Mas em breve estarei ocupando a cama de Oliver e você sabe muito bem disso.
Brianna pouco se importou com o fato de a governanta estar escutando. E quanto à possibilidade de Oliver ouvir? Nem deveria se preocupar em esconder o que estava dizendo. Oliver nunca se importou com o que eu sentia ou deixava de sentir.
Ou seja, ela podia dizer o que quisesse dentro da minha própria casa, porque meu marido jamais me defenderia. E acho que ela sabia disso tão bem quanto eu.
A senhora Hills me olhou, visivelmente sem jeito com a resposta da nossa hóspede, que pelo jeito não seria temporária.
— Senhora Bianchi, eu devo...
— Providencie para ela o quarto ao lado de Oliver. — sorri, tentando não demonstrar o quanto aquilo me atingia.
Assim que a governanta se afastou, Brianna me encarou por alguns segundos. Sustentei seu olhar.
— Você sabe que ele irá pedir o divórcio, não é mesmo?
Senti tudo rodar e amparei-me na parede, tentando me manter de pé.
Não... Eu não esperava que ele fosse tão longe.
— Ou acha que algum dia ele te escolheu porque gostava de você?
Sim, ele me escolheu. Quando Oliver me pediu em casamento, surpreendeu a todos, até a mim. Ele nunca foi obrigado a fazer aquilo, e foi justamente isso que me fez acreditar que, apesar de tudo, eu tinha sido uma escolha.
— Nunca foi uma escolha. — respondi, tentando não desabar em lágrimas. — Oliver simplesmente... quis me pedir em casamento. Foi uma... decisão dele.
Brianna riu, com um deboche que fez meu corpo estremecer, como se já antecipasse o golpe seguinte:
— Naquela noite em que Oliver te pediu em casamento, foi com a aliança que ele escolheu para mim...
Brianna suspirou e disse, com uma calma que me fazia acreditar que, se ela me matasse, jamais sentiria remorso:
— Oliver me pediu em casamento no jardim, minutos antes de voltar para o jantar e pedir a sua mão. Você foi a segunda opção dele, porque eu disse "não". E sabe por que eu disse "não"? Porque, naquele mesmo dia, minha mãe biológica entrou em contato comigo e disse que queria que eu fosse morar com ela em Paris.
Ela voltou a sorrir e continuou, sabendo exatamente o impacto que aquelas palavras tinham sobre mim:
— Eu escolhi o meu futuro, o meu sonho de me tornar uma modelo famosa, e não uma simples dona de casa que nunca passaria disso. Oliver sempre soube que você gostava dele, que nos espionava, esgueirando-se pelos cantos da casa, imaginando ser invisível. Ele sabia que você nunca recusaria. Tudo o que fez foi para me atingir, para me punir por eu ter dito não. Mas Oliver sempre me amou. E todo mundo sabe disso.
Minhas pernas não conseguiram mais sustentar meu corpo. Então tudo ficou escuro. A última coisa que senti foi o impacto da queda contra o chão.







