"Senhor Love"

E aquela mensagem não destruiu apenas o meu coração. Destruiu a minha alma.

"Olá. Acabei de pousar."

Logo abaixo havia uma foto de uma mala de viagem, com mãos de dedos finos e unhas impecavelmente feitas segurando a alça.

A mensagem seguinte dizia:

"Estou morrendo de saudade."

A resposta me fez sentir náuseas:

"Também estou com muita saudade."

"Então venha matar essa saudade, Oliver."

"Estou indo te buscar."

"Estou tão ansiosa."

"Não tanto quanto eu."

E foi ali, naquelas poucas palavras, que o pouco que ainda restava do meu mundo desmoronou.

Soltei uma risada amarga, digna de pena de mim mesma.

Passei anos tentando me convencer de que Oliver não me traía. Fingi acreditar que, mesmo tendo me tocado apenas duas vezes desde o nosso casamento, ele não procurava outras mulheres.

Transei com o meu marido apenas duas vezes em sete anos. Na primeira, ele chegou em casa tão bêbado que mal conseguia caminhar até o quarto. Eu o ajudei e, quando Oliver desabou na cama, acabei caindo sobre ele. Foi assim que aconteceu.

Não houve beijo na noite em que perdi minha virgindade com o meu marido. E acho que também não houve carinho. "Acho" porque nunca soube como era ser acariciada durante o sexo.

No dia seguinte, Oliver fingiu que nada havia acontecido. Na noite seguinte, esperei por ele no quarto, acreditando que nossa vida de casados finalmente começaria.

Mas meu marido nunca voltou. Passou a dormir definitivamente no quarto de hóspedes.

Eu sempre sonhei em ser mãe. E, numa tentativa desesperada de garantir que, caso fosse abandonada, ao menos sairia daquele casamento com um filho nos braços, coloquei um comprimido no uísque de Oliver. Aproveitei meu período fértil. E engravidei. E, no momento em que ele descobriu o que eu havia feito, eu o perdi para sempre.

Por isso, no fundo, eu não estava tão surpresa por ele ter outra mulher. Sempre achei impossível um homem passar tantos anos sem sexo. Além disso, Oliver jamais fingiu sentir desejo por mim.

O que eu nunca imaginei era que existisse sentimento. Que ele pudesse amar outra mulher.

Continuei sentada na cadeira dele, ainda mais destruída do que quando entrei naquela sala. Aquele dia parecia um pesadelo do qual eu não conseguia acordar.

Respirei fundo várias vezes, tentando recuperar o controle. Eu sabia que poderia morrer a qualquer momento, mas decidi que não seria naquele dia.

Mostrar meu diagnóstico a Oliver apenas faria com que ele sentisse pena de mim. Ainda assim, eu precisava desesperadamente dividir aquilo com alguém.

Então liguei para minha mãe.

Houve uma época em que nós duas éramos realmente mãe e filha. Ela me acolhia quando eu sofria e comemorava comigo cada pequena alegria. Mas isso também mudou depois que me casei e saí de casa. Ela achou que eu não precisava mais dela e passou a dedicar-se exclusivamente ao meu irmão.

Ela atendeu na primeira chamada.

— Oi, mãe.

Claro que dizer à minha mãe que eu estava morrendo não era algo que pudesse ser feito por telefone.

— Oi, Jack. Como você está?

— Eu... estou...

Morrendo, mãe! Eu estou morrendo.

Limpei a lágrima que escorreu pelo meu rosto e tentei esconder a emoção na minha voz.

— Eu gostaria de encontrá-la.

— Eu também preciso muito falar com você, Jack. — ela começou a chorar. — Johnny fugiu da clínica.

Mordi o lábio para conter um gemido.

— E eu não estou encontrando-o, Jack. Estou desesperada. Você pode me ajudar, filha?

Johnny era meu irmão mais novo. Meu pai era alcoólatra. Meu irmão não seguiu exatamente o mesmo caminho. Foi pior. Tornou-se dependente químico.

Eu não falava com meu pai. Embora ainda morasse na mesma casa que minha mãe e Johnny, nós simplesmente nos ignorávamos. Nunca consegui perdoá-lo pelo que fez comigo no passado.

Johnny passou a ser a grande obsessão da minha mãe. Acho que, por nunca ter conseguido salvar o marido, decidiu dedicar todas as forças para salvar o filho. Ele consumia toda a vida dela. E, ainda assim, minha mãe jamais desistia.

Depois que me tornei mãe, passei a entendê-la um pouco melhor. Mesmo assim, doía perceber que ela deixara de ser a minha mãe para ser apenas a mãe do Johnny.

— Jack, você está me ouvindo?

Não consegui mais conter o choro e quase gritei:

— Mãe, por favor, eu preciso de você... eu vou...

— Tentar te ajudar, mãe. Vou ver o que posso fazer.

— Precisamos encontrá-lo. Estou desesperada.

Suspirei. Aquilo já havia se tornado rotina. Johnny fugia da clínica, passava dias na rua se drogando e voltava quando não tinha mais de onde tirar dinheiro. Minha mãe o recebia de braços abertos, cheia de esperança, e pouco tempo depois tudo se repetia.

Encerrei a ligação o mais rápido que pude, fazendo uma promessa que, pela primeira vez, decidi não cumprir.

Chegava de Johnny e das tragédias que ele criava. Eu tinha preocupações muito maiores... como a minha própria vida. Enquanto meu irmão desperdiçava a saúde e a oportunidade de viver, eu daria qualquer coisa por mais um ano.

Eu me sentia sufocada. Já não sabia se era pela doença ou pelo peso de tudo o que a vida havia decidido despejar sobre mim naquele único dia.

Recebi uma ligação da escola dos meus filhos. Levantei imediatamente da cadeira, sentindo um aperto no peito. O que tinha acontecido com os meus bebês?

Era a diretora:

— Senhora Bianchi?

— Oi, diretora Foster. — minha voz mal saiu.

— Ninguém veio buscar Maicon e Zoe na escola.

Meus lábios tremeram. Enquanto saía da sala, respondi:

— Estou indo imediatamente.

Claro que Oliver tinha esquecido dos próprios filhos. Estava ocupado demais buscando a Senhora Love no aeroporto. Depois, certamente a levaria para a suíte de algum hotel de luxo, onde lhe entregaria todo o amor... aquele que nunca me pertenceu.

Assim que cheguei à escola, encontrei as crianças ansiosas:

— Mamãe, o papai não viria nos buscar hoje? — Zoe perguntou.

Maicon não disse nada. Apenas ergueu os bracinhos, pedindo colo.

Zoe era falante, curiosa e parecia ter palavras de sobra, inclusive pelas que Maicon nunca dizia. Minha menina queria conquistar o mundo. Meu menino só queria a mamãe.

Esperei pelo motorista com Maicon adormecido em meus braços. Por um instante, questionei se ainda podia fazer aquele esforço. Mas, quando senti seus bracinhos envolvendo meu pescoço, pensei que, se um dia morresse com meu filho nos braços, partiria em paz. Ao mesmo tempo, Zoe segurou minha mão, e percebi que, apesar de tudo, a vida havia sido generosa comigo ao me dar aqueles dois pequenos milagres.

Quando chegamos em casa, Maicon continuava dormindo em meu colo. Zoe falava sem parar, contando absolutamente tudo o que havia acontecido na escola, inclusive que batera em um colega por tê-la chamado de burra.

Abri a porta antes mesmo que a governanta viesse nos atender. Fiz menção de subir a escadaria para levar Maicon ao quarto, mas congelei.

Na sala de estar estavam Oliver e Brianna, próximos demais. Próximos o suficiente para parecer que estavam prestes a se beijar. Ou talvez já tivessem se beijado.

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