Divórcio

Quando recuperei meus sentidos, estava na outra sala de estar, com a senhora Hills e o nosso jardineiro ao meu lado, ambos com semblantes preocupados.

— Quanto tempo fiquei desacordada? — perguntei, tentando levantar, sentindo minhas pernas ainda pesadas.

— Quase quatro minutos, senhora. — a governanta disse, consternada.

— Muito tempo... — ergui meu corpo com dificuldade. — O normal é dois minutos.

Fui andando, amparando-me na parede.

— Senhora... quer que eu providencie... um... chá?

— Não, senhora Hills. Obrigada.

Eu sabia que não havia chá capaz que curasse a minha doença. Tampouco a dor da rejeição que eu sentia. Achei que nada pudesse ficar pior entre Oliver e eu. Porém, nos meus últimos dias de vida, descobri que poderia.

Quando cheguei à sala principal, vi um dos funcionários subindo as malas de Brianna para o andar superior. Logo atrás dele, Brianna e Oliver conversavam animadamente.

Fui até a escadaria e tentei subir, sem saber se conseguiria.

Quando percebeu minha presença, Oliver virou a cabeça para trás:

— Aonde você estava? As crianças estão pedindo por você.

Parei por alguns segundos e disse:

— Eu estava providenciando o que você me pediu... o quarto para Brianna.

Os dois seguiram. E eu fiquei ali, sentindo o meu mundo desabar de vez.

Quase me arrastei até o quarto dos meus filhos. Quando cheguei, Maicon e Zoe já estavam dormindo. Senti uma lágrima boba escorrer pelo meu rosto. Lágrimas de orgulho por ser mãe daquelas criaturinhas tão perfeitas, que faziam tudo na minha vida realmente valer a pena. Eu os desejei ardentemente. E eles vieram exatamente do jeitinho que eu imaginava... dois pacotinhos de amor.

Ajeitei-me na cama entre os dois. Hoje eu dormiria ali. E acho que, até os meus últimos dias, velaria o sono tranquilo dos meus bebês, porque sabia que em breve não poderia mais fazer aquilo.

Pensei em Oliver e Brianna e finalmente entendi que era impossível segurar o meu casamento. Eu precisava libertar Oliver. E me libertar, por mais que doesse.

Eu facilitaria as coisas para Oliver. Pediria o divórcio. Sabia que talvez ele tivesse adiado aquilo por pena. E... talvez, pela primeira vez, mesmo à beira da morte, eu devesse preservar a minha dignidade.

Mandei uma mensagem para Natália, minha melhor amiga:

"Nati, eu gostaria que você desse entrada no meu divórcio."

Era tarde, e eu não esperava que ela respondesse imediatamente.

"Isso é um sonho ou você realmente acordou?"

Respirei fundo e confessei:

"Eu acordei. Mas não foi de um sonho e sim de um pesadelo."

Natália mandou vários emojis de mãos em prece.

"Redigir seu pedido de divórcio será a melhor coisa que já fiz até hoje na minha carreira de advogada."

Limpei as lágrimas, sentindo-me, pela primeira vez desde que recebi o diagnóstico naquela manhã, acolhida e apoiada.

Tentei dormir, mas não consegui. Revirava-me de um lado para o outro e, quando cochilava, despertava em pânico, coberta de suor.

Levantei e peguei o diagnóstico médico da minha bolsa. Rasguei-o em pedacinhos minúsculos e joguei tudo dentro do lixo do banheiro do quarto das crianças.

Antes de deitar novamente, vi sobre a mesa de estudos de Maicon e Zoe várias canetas coloridas e folhas de papel.

Sentei-me à mesa e peguei uma folha. Escolhi duas canetas coloridas, uma rosa-pink e outra azul-claro.

E então fiz uma lista.

DEZ COISAS QUE EU FAREI ANTES DE MORRER:

Pedir o divórcio.

Deixar meus filhos nas mãos de uma pessoa que eu sei que irá amá-los e cuidar deles da mesma forma que eu faria se estivesse viva.

Beijar na boca.

Aprender a dirigir.

Transar com um desconhecido e ter meu primeiro orgasmo.

Arranjar um emprego e me sentir útil.

Fazer uma viagem longa com meus filhos.

Perdoar Oliver e o meu pai.

Me apaixonar novamente e descobrir que, ainda assim, consigo viver sem isso.

Ser amada pela primeira vez e saber que não sou a segunda opção na vida de alguém.

Dobrei o papel tomado por letras coloridas e limpei as lágrimas, finalmente sorrindo de verdade, de forma espontânea, depois de tanto tempo.

Eu não sabia se teria tempo para realizar todos os meus desejos. Mas faria o possível para concluir aquela lista antes do meu último suspiro.

Guardei a folha num bolso escondido da minha bolsa. E, junto dela, um marca-texto verde-neon para riscar cada item conforme fosse concluído.

Se conseguiria riscar todos? Eu não sabia. Infelizmente, sempre fui uma covarde. Mas jamais descobriria se não tentasse.

Voltei para a cama. Maicon, ainda dormindo, me abraçou e aconchegou-se ao meu corpo. Zoe murmurou algo sem perceber e, ainda adormecida, virou-se e bateu o braço no meu rosto.

Sorri. Até dormindo eram eles mesmos.

Decidi que, quando meus filhos crescessem, teriam orgulho da mãe que tiveram. Era hora de deixar de ser invisível. Nem que fosse nos meus últimos dias ou meses de vida, eu faria diferença na vida de alguém, principalmente na dos meus filhos.

Na manhã seguinte, levantei da cama sem sequer ter dormido. Olhei-me no espelho e vi olheiras profundas.

Passei uma leve maquiagem para esconder a dor física estampada no meu rosto, mesmo sabendo que a emocional não podia ser maquiada.

Deixei as crianças na escola e depois passei no escritório de Natália. Tentei ser breve, porque ainda não queria contar a ela sobre a minha condição. Na verdade, nem sabia se deveria dividir aquilo com alguém.

Minha amiga era como uma metralhadora de palavras. Falava sem parar e, às vezes, me deixava zonza. Naquele momento, porém, o assunto eram os papéis do divórcio que ela me entregava.

Ela insistiu tanto que acabei aceitando um jantar na casa dela naquela noite. Fazia tempo que não nos encontrávamos pessoalmente e só conversávamos pelo celular. Sempre gostei muito de Natália, e ela era alguém que eu gostaria de ter ao meu lado até o meu último suspiro. Assim como meus filhos, ela sentiria a minha falta.

Peguei a pasta e me dirigi à Diamond Bianchi Group. Ainda no elevador, flagrei-me rindo. E pensar que, no dia anterior, eu estava naquele mesmo lugar levando ao meu marido o diagnóstico de uma doença terminal.

Agora eu levava os papéis do divórcio.

Seria cômico, se não fosse trágico.

Quando entrei na sala de Oliver sem anunciar, vi Brianna sentada na cadeira à frente dele, separados apenas por uma mesa de vidro.

Ele ficou impressionado quando me viu. Ela não.

— Jaqueline, que surpresa! Eu e Oliver estamos discutindo os últimos detalhes da campanha de lançamento da Diamond. Você quer analisar as minhas fotos? Eu gostaria da sua sincera opinião... coisa de mulher, sabe!

Eu não olhei para Brianna. Ignorei sua fala e encarei Oliver:

— Preciso falar com você, em particular. É bem importante.

Oliver arqueou uma sobrancelha, surpreso:

— Fale.

Olhei para Brianna:

— Se você não se importa... eu gostaria de ficar a sós com meu marido. É um assunto de família.

Ela olhou para Oliver, em busca de apoio para ficar na sala. Ele, por sua vez, olhou tranquilamente para a amante e disse:

— Tome um café para descansar um pouco. Logo voltamos a acertar os últimos detalhes. Prometo que serei breve.

Brianna saiu, visivelmente chateada.

Oliver voltou os olhos para mim. Naquele dia, em especial, meu marido parecia ainda mais bonito do que já era.

Respirei fundo, tentei manter meu corpo ereto quando coloquei a pasta sobre a mesa dele:

— Eu quero o divórcio.

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