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06 O mundo real era mesmo uma droga.

O QG da Vértice Concept estava em polvorosa. A seleção de modelos para a campanha "AURA" atraiu uma fila que dobrava o quarteirão.

No centro de tudo, Domenico ajustava os refletores com uma agilidade impressionante.

Ele parecia mais disposto do que na reunião, embora seus olhos ainda tivessem aquele brilho de quem passou a madrugada acordado.

Me aproximei dele com uma prancheta de marcação de horários.

— Nenhum bombom hoje, Dom?

brinquei, tentando aliviar a tensão que ainda sentia desde a conversa na sala do Nikos.

Ele parou o que estava fazendo e me deu aquele sorriso de canto que sempre me desarmava.

— Puxa, Elise... eu deixei você mal acostumada, não deixei?

Ele inclinou a cabeça, os olhos brilhando.

— Você tem que me agradar também, loirinha. O que eu ganho em troca hoje?

Senti minhas bochechas esquentarem. Antes que eu pudesse responder, o celular no bolso dele vibrou.

O gesto dele foi imediato: ele largou o cabo do refletor e sacou o aparelho, os olhos fixos na tela com uma ansiedade que não combinava com o jeito relaxado dele.

— Esperando alguma mensagem importante?

arrisquei, sentindo uma pontada de intriga.

— Estava sim...

ele murmurou, a expressão mudando para algo mais sério, antes de guardar o celular rapidamente.

— Mas vamos trabalhar! Temos muito o que fazer.

Ele se afastou, me deixando parada ali. Ele estava esperando por ela? Pela Pimentinha?

Cada vez mais, o comportamento do Dom batia com as conversas do Lobo.

E... Se fosse ele?

No centro do set, o elevador se abriu. Nikos desceu como se o chão pertencesse a ele.

Em questão de segundos, um enxame de modelos de elite o cercou. Eram mulheres deslumbrantes, perfeitamente esculpidas, competindo por um segundo da atenção dele.

"Prefiro o que é real"

ele tinha dito para a Paola no banheiro.

Olhando para aquela cena, fazia todo o sentido.

Com mulheres como aquelas implorando por um olhar dele, por que ele perderia tempo em um app.

Ele vivia na abundância da beleza.

O anonimato era para quem, como eu, precisava de uma máscara para ser vista.

— Ei! Elise, o que você tá fazendo? Vamos trabalhe!

O grito de Paola me tirou dos meus pensamentos. Ela passou por mim como um furacão, esbarrando no meu ombro.

— Você está ocupando todo o espaço, Elise! Anda... vai chamar os maquiadores. Agora!

Ela estava claramente irritada.

Dava para ver nos olhos dela: ela odiava que as modelos tivessem acesso ao Nikos, e descontava toda a frustração na pessoa mais fácil de atingir. Eu.

Respirei fundo, ignorando a ferroada do comentário, e fui até o backstage. Quando voltei, os testes de luz tinham começado.

Domenico estava fotografando um modelo masculino que seria o rosto ou melhor, o corpo da campanha.

O homem estava sem camisa, usando uma calça de alfaiataria preta e uma máscara de couro que escondia metade do rosto, deixando apenas o maxilar rígido e os lábios visíveis.

Fiquei hipnotizada.

A luz de neon roxo e azul do cenário criava sombras profundas nos músculos dele. Era uma imagem potente, misteriosa e... excitante.

Será que o Lobo é assim?, pensei, sentindo um calafrio.

....

O expediente na Vértice Concept parecia nunca ter fim. Enquanto os flashes finalmente se apagavam, o cheiro de café frio e laquê ainda pairava no ar.

Me arrastei pelo estúdio, coletando cada xícara de porcelana abandonada em cima de balcões, tripés e mesas de edição. Meus pés latejavam dentro dos tênis, um lembrete físico da minha invisibilidade.

Estava curvada, pegando uma última xícara perto da saída da diretoria, quando a porta se abriu num solavanco.

Nikos passou por mim como um furacão, o celular pressionado contra a orelha e o rosto rígido de tensão.

— Eu já entrei em contato com o aplicativo, Edy!

ele rosnou para o aparelho, a voz cortando o silêncio do corredor.

— Não teremos problemas com a plataforma, eles vão lucrar com isso. Vê se não vê cabelo em ovo!

Ele nem notou minha presença.

Passou direto, exalando aquele perfume amadeirado que agora parecia misturado com o cheiro metálico de estresse puro.

Fiquei ali, segurando a xícara fria.

Terminei de organizar a copa e segui para a saída dos fundos.

Ao cruzar o estacionamento, vi o carro de Domenico. Ele estava encostado na porta do veículo, sorrindo abertamente para uma das modelos que tinha feito o teste hoje, uma garota alta, loira, com um corpo que parecia esculpido à mão.

Meus passos hesitaram quando vi os dois trocando celulares.

Pela inclinação da tela, não era um número de telefone. Era a interface roxa do AURA.

Vi o momento em que ele escaneou o código dela, rindo de algo que ela sussurrou no seu ouvido.

Senti um soco no estômago.

Uma frustração amarga subiu pela minha garganta.

"Que safado!"

pensei, apertando a alça da minha bolsa.

"E eu aqui achando que podia ser especial... Que burra, Elisa. Você é só mais uma notificação pra ele."

Se ele for o lobo né? Mas o lobo deve fazer isso também. Aí que idiota eu estou sendo.

A volta para casa foi um teste de resistência.

O ônibus demorou uma eternidade e, quando finalmente apareceu, passou direto, lotado até a porta.

Levei quase duas horas para chegar.

Quando finalmente entrei no meu quarto, mal tirei os sapatos. Eu me joguei na cama e afoguei um grito de puro cansaço e raiva contra o travesseiro.

O mundo real era uma droga.

Trim.

A notificação do AURA iluminou o quarto escuro. Meu coração, teimoso, deu um salto quando li sua resposta da mensagem que mandei mais cedo.

LOBO: " Ah amor, quer levar isso pra outro nível? Não faz ideia do que está atiçando pimentinha. Eu vou te corromper tanto que você não vai ter lembrança de como era ser pura."

...

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