####CAPÍTULO 04

PAUL

Convocamos uma reunião extraordinária com acionistas e novos compradores, pois a Silver Moon Estate, nossa vinícola no Oregon, dirigida pelo tio Peppe, estava apresentando resultados inesperados.

Historicamente, sempre produziu com excelência, entrelaçando a tradição italiana ao solo americano, mas a situação atual era diferente.

— O aumento nas vendas era apenas a ponta do iceberg; uma transformação na identidade da vinícola chamava a atenção de todos, como uma mariposa que, ao se transformar em borboleta, revelava cores vibrantes.

A sala estava cheia de empreendedores atentos, potenciais compradores em busca de contratos exclusivos, e representantes de restaurantes renomados, que apreciavam nossos espumantes como a cereja do bolo em seus pratos autorais.

— Enquanto observava tudo em silêncio, Peppe me lançou um olhar significativo, como se dissesse que ele tinha um trunfo na manga.

Um acionista, inclinando-se na cadeira, questionou Peppe: — Como a Silver Moon conseguiu essa transformação nos últimos dois anos?

—Sempre fomos bons, mas agora estamos... superiores, o que está acontecendo lá?

Peppe, cruzando as mãos sobre a mesa e apreciando o momento, respondeu: — Vocês realmente desejam saber?

Alguns riram, atentos à expectativa, ele virou-se para mim, revelando o enigma: — Há três anos, uma italiana chegou à nossa vinícola, jovem, e com muita disposição para trabalhar, com poucos meses descobriu está grávida, mesmo com uma barriga enorme, atrapalhou até o bambino nascer.

Ergui a cabeça, intrigado: — Italiana?

— Sim, jovem e determinada. Começou como colona na coleta de uvas.

— Observava tudo atentamente, como um maestro analisando sua orquestra, e logo começou a levantar questões e fazer reclamações.

Na sala, algumas pessoas esboçaram sorrisos, divertidos pela ideia: — Reclamar?

— Ela disse que nossas parreiras eram tratadas como números, e não como seres vivos, como se fossem apenas máquinas a produzir uvas.

— Afirmou que a poda era feita na época errada, que a terra precisava de descanso para se recuperar, e que a lua influenciava mais do que uma simples planilha de produção, como as marés afetam o movimento do oceano.

Um dos investidores soltou uma risada baixa: — Lua?

Peppe sorriu satisfeito e explicou: — Ela comentou que as uvas têm um tempo apropriado para amadurecer, como um filme que precisa de tempo para se desenvolver.

— Existem dias específicos para a colheita; não se deve arrancar a fruta como se fosse um lucro imediato.

— No começo, achei sua abordagem ousada, mas comecei a observar e refletir sobre suas palavras.

Ele se inclinou para frente, enfatizando a importância da abordagem: — Ela ensinou os funcionários a colher as uvas como se estivessem lidando com algo sagrado, comparando o processo a um artista moldando sua obra-prima. — Ela destacou que não se deve empilhar as caixas de qualquer jeito ou esmagar as frutas antes do tempo; assim como um chef respeita cada ingrediente, deve-se respeitar a uva, e então, ela olhou para mim e afirmou que nosso vinho se parecia com vinagre.

A sala caiu em silêncio, levantei uma sobrancelha, surpreso: — Ela falou assim com o senhor?

— Disse, diretamente na minha frente, sem hesitar.

Alguns riram novamente, mas Peppe continuou: — Ela demonstrou como o vinho era produzido na vinícola de seus pais, destacando o respeito pelos métodos tradicionais.

— Era como ensinar a cozinhar um prato clássico, enfatizando a importância da fermentação natural controlada e do tempo adequado de descanso.

— Focou na importância do respeito pela madeira dos barris, dizendo que a paciência é como o tempo necessário para assar um pão perfeito: a pressa não tem lugar na vinificação de qualidade.

Peppe respirou fundo: — Gradualmente, comecei a testar em pequenos lotes, como um cientista que ajusta sua fórmula.

— O resultado?

Nossos espumantes passaram a ser utilizados na culinária de alto padrão: reduções, molhos e harmonizações específicas.

Com essa abordagem, não estávamos apenas oferecendo bebidas; estávamos elevando a experiência gastronômica ao integrá-las como ingredientes essenciais nas criações de chefs renomados, como um artista que usa as melhores tintas para sua tela.

Eu me recostei na cadeira e perguntei: — E ela?

— Eu a promovi a enóloga — respondeu Peppe com um brilho nos olhos.

— Mas ela não se contenta em ficar apenas no escritório.

Assim como um maestro em uma orquestra, ela vai ao parreiral, ensina, exige resultados e supervisiona pessoalmente a primeira coleta.

— Para ela, a liderança é como cultivar um jardim: se constrói com as mãos sujas de terra, numa plantação que requer dedicação constante e um entendimento profundo do terroir.

Um dos compradores fez uma observação: — Isso explica o caráter artesanal, porém limita a escala.

— Exatamente — confirmou Peppe. — Por isso não firmamos contratos de grande volume.

— Produzir em massa seria como tentar encher um balde com um vazamento; não é viável.

—O verdadeiro valor está na exclusividade, no cuidado que colocamos em cada garrafa, em cada lote que representa o nosso compromisso com a qualidade.

Permanecei em silêncio por alguns segundos e, então, perguntei: — Qual é o nome dessa jóia?

Peppe sorriu de canto e respondeu: — Gio.

O nome passou por mim como um eco distante, mas não se fixou, pensei: Giovanna, talvez.

Um dos investidores questionou: — Ela possui formação acadêmica?

— Não no sentido formal — respondeu Peppe. — Mas possui algo que nenhuma universidade pode ensinar: um profundo respeito pela terra e um instinto aguçado.

— É esse entendimento intuitivo que lhe permite criar vinhos que não são apenas agradáveis ao paladar, mas que também contam uma história, como os aromas que mudam conforme as estações.

Ele fez uma pausa antes de acrescentar: — Ela chegou grávida, trabalhou até o final da gestação e retornou três meses depois, carregando o menino nas costas, se necessário.

— Essa determinação dela é admirável e reflete a paixão que ela tem por este trabalho, como um agricultor que semeia suas plantas com carinho, mesmo em tempos difíceis.

Algo dentro de mim se agitou, embora eu não conseguisse explicar o porquê.

— Eu sentia que aquela reunião não era apenas mais um encontro de negócios; havia um peso emocional nas palavras de Peppe, como um eco distante que ressoa nas montanhas, representando uma conexão profunda com algo maior.

Encerramos a reunião com contratos seletivos e estratégicos, focando em restaurantes especializados, não discutimos volumes, mas sim o valor.

Assim que os investidores deixaram o local, fiquei sozinho com Peppe, refletindo sobre o impacto que tudo aquilo poderia ter, como uma onda em um lago tranquilo que se expande e altera a superfície.

— Você precisa visitar o Oregon — afirmou ele. — Ver o que está se desenrolando lá. Conhecer essa força da natureza.

Forcei um sorriso ameno: — E você está orgulhoso.

— Estou muito curioso para observar sua reação ao conhecer a Gio, ela é uma força da natureza..

— Por quê?

Ele apenas deu de ombros: — Porque algumas pessoas têm o poder de transformar uma vinícola.

— Outras têm a capacidade de mudar destinos inteiros, e a Gio, está transformando nossa vinícola em algo grande.

— Pense em como certas vinícolas se tornaram verdadeiros pontos turísticos, onde o prazer de degustar vinho se entrelaça com experiências sensoriais e culturais, como um artista que, com cada pincelada, transforma uma tela comum em uma obra-prima.

Eu não disse nada, mas algo dentro de mim indicava que aquela viagem seria muito mais do que apenas uma apreciação do vinho.

— Era como se o próprio Oregon estivesse chamando, oferecendo promessas de novas descobertas, assim como um mapa misterioso que promete aventuras incríveis a quem se atreve a segui-lo.

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