Mundo de ficçãoIniciar sessão(POV Liah)
A sala de fisioterapia foi montada às pressas — isso eu vejo em cinco segundos, antes mesmo de largar a maleta. Maca nova ainda com etiqueta de plástico numa perna, equipamento de eletroestimulação ainda na caixa, um suporte de soro encostado num canto que não devia nem estar ali. Alguém comprou tudo que existia de mais caro no mercado em vinte e quatro horas e empilhou numa sala vazia, esperando que dinheiro substituísse o planejamento. O cheiro de plástico novo e desinfetante é forte, quase sufocante. Parece um cenário de filme, mas a realidade é crua e cheia de problemas técnicos. Vai ter que dar. Preciso manter o foco na minha carreira, na minha reputação. Engulo em seco, ajustando a alça da bolsa no ombro, tentando ignorar a sensação de estar invadindo um santuário proibido. — Senta na maca — peço, sem olhar pra ele, organizando o que vou precisar pra avaliação. — De calção. Preciso ver o joelho todo, não só a parte que dói. — Bom dia pra você também — Christian responde, irônico, manobrando as muletas pra se sentar com um cuidado que contradiz toda a arrogância da escada. O movimento dele é lento, metódico. Cada músculo do braço tenciona enquanto ele se apoia nas muletas de alumínio escovado. Há uma tensão palpável ali, uma vontade de não parecer vulnerável mesmo estando claramente debilitado. Não respondo a provocação. Calço as luvas. Visto o blazer por cima da blusa, mesmo dentro de casa, mesmo num dia que vai ser só trabalho técnico — é o uniforme que me protege, e hoje eu preciso de toda proteção que existe. O tecido do blazer pesa nos meus ombros, uma armadura de alfaiataria contra o olhar dele. — Vou palpar a articulação primeiro. Avisa se doer. — Vai doer — ele constata, já com a mandíbula travada antes mesmo de eu tocar. A luz de cima, vinda de um spot de LED forte demais, cria sombras duras no rosto dele. Ele aperta os lábios, esperando o impacto. Começo pela borda da patela, dedos firmes, mapeando o contorno do edema. Inchaço grau três, talvez quatro. A pele em volta do joelho tá quente, tensa, brilhante de tão estirada. Pressiono de leve a linha articular e ele sibila entre os dentes, sem gritar, sem se mover — só um som curto e seco que sai sem permissão. Sinto o tremor fino do joelho dele sob meus dedos. É um corpo potente, um corpo de elite que agora está operando com falhas graves. — Desculpa. — Não desculpa nada. Faz o que tem que fazer. Ele encara o teto, recusando-se a me olhar enquanto a dor atravessa seu sistema nervoso. Testo a gaveta anterior, a mão por trás do joelho dele, a outra estabilizando a tíbia, puxando de leve pra sentir a frouxidão do ligamento. O deslocamento é maior do que eu queria. Anoto mentalmente: instabilidade grau dois avançado, beirando o três. O joelho não está apenas machucado; está instável, perigoso. — E aí, doutora? Veredito? — Ainda não. — Recolho a mão, pego a prancheta, escrevo dois números antes de voltar a olhar pra ele. — Preciso testar a tensão do quadríceps agora. Vou apalpar a face interna da coxa enquanto você contrai o músculo. Não é nada além disso. — Sou todo seu. Ignoro o duplo sentido na voz dele, que provavelmente nem foi intencional — ou foi, e isso também não importa. O ar na sala parece ter ficado mais pesado, mais difícil de respirar. mais denso, mais carregado de eletricidade estática. Christian mantém os olhos fixos nos meus, uma insistência que me desconcerta. Coloco a mão na parte interna da coxa, acima do joelho, pele quente sob a palma, e peço pra ele contrair o quadríceps. O músculo responde rápido demais, duro como pedra de um jeito que não é só reflexo clínico — é reação, é corpo reagindo a corpo, é exatamente o tipo de informação que não cabe em prontuário nenhum. A firmeza daquela perna, mesmo lesionada, é intimidadora. Ele respira fundo, um som gutural que ecoa pelas paredes nuas da sala. Eu sinto isso na ponta dos dedos antes de conseguir desligar o pensamento. É proibido, e meu corpo não tá perguntando permissão. Ele não desvia o olhar. Eu também não. — Inibição neuromuscular leve — digo, a voz mais firme do que eu me sinto, recolhendo a mão e indo pra prancheta. — Esperado, depois de uma lesão dessa magnitude. Vamos trabalhar isso com eletroestimulação a partir de hoje. Anoto tudo com pressa, querendo me distanciar daquela proximidade excessiva. — Você fica falando difícil pra esconder o quê, exatamente? — Pra te explicar o protocolo. É o meu trabalho. — Não foi isso que eu perguntei. Não respondo. Termino de anotar, fecho a prancheta com mais força do que precisava, e quando levanto os olhos ele ainda tá ali, recostado na maca, observando cada movimento meu com uma atenção que não tem nada de paciente esperando diagnóstico. Ele sabe exatamente o que está fazendo. Ele está me estudando, mapeando minhas reações tão bem quanto eu mapeei seu joelho. — Vou buscar o equipamento de eletroestimulação — falo, já de costas, caminhando pra porta. — Volto em cinco minutos. Meus pés batem compassados contra o piso frio. Cada passo é uma tentativa de retomar o controle da situação. No corredor, encostada na parede fria de concreto, fecho os olhos por um segundo. A mão direita ainda lembra o calor da coxa dele, o jeito como o músculo travou debaixo dos meus dedos como se estivesse respondendo a uma pergunta que ninguém fez em voz alta. Eu vim aqui pra tratar um joelho. Não sabia, calçando as luvas naquela manhã, que ia precisar de muito mais blindagem do que um blazer largo pra sobreviver aos próximos cento e cinquenta dias dentro dessa casa.






