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Capítulo 4: Roupas Largas, Olhares Afiados

(POV Liah)

A sala de fisioterapia foi montada às pressas — isso eu vejo em cinco segundos, antes mesmo de largar a maleta.

​Maca nova ainda com etiqueta de plástico numa perna, equipamento de eletroestimulação ainda na caixa, um suporte de soro encostado num canto que não devia nem estar ali.

​Alguém comprou tudo que existia de mais caro no mercado em vinte e quatro horas e empilhou numa sala vazia, esperando que dinheiro substituísse o planejamento.

​O cheiro de plástico novo e desinfetante é forte, quase sufocante.

​Parece um cenário de filme, mas a realidade é crua e cheia de problemas técnicos.

​Vai ter que dar.

​Preciso manter o foco na minha carreira, na minha reputação.

​Engulo em seco, ajustando a alça da bolsa no ombro, tentando ignorar a sensação de estar invadindo um santuário proibido.

​— Senta na maca — peço, sem olhar pra ele, organizando o que vou precisar pra avaliação. — De calção. Preciso ver o joelho todo, não só a parte que dói.

​— Bom dia pra você também — Christian responde, irônico, manobrando as muletas pra se sentar com um cuidado que contradiz toda a arrogância da escada.

​O movimento dele é lento, metódico.

​Cada músculo do braço tenciona enquanto ele se apoia nas muletas de alumínio escovado.

​Há uma tensão palpável ali, uma vontade de não parecer vulnerável mesmo estando claramente debilitado.

​Não respondo a provocação. Calço as luvas.

​Visto o blazer por cima da blusa, mesmo dentro de casa, mesmo num dia que vai ser só trabalho técnico — é o uniforme que me protege, e hoje eu preciso de toda proteção que existe.

​O tecido do blazer pesa nos meus ombros, uma armadura de alfaiataria contra o olhar dele.

​— Vou palpar a articulação primeiro. Avisa se doer.

​— Vai doer — ele constata, já com a mandíbula travada antes mesmo de eu tocar.

​A luz de cima, vinda de um spot de LED forte demais, cria sombras duras no rosto dele.

​Ele aperta os lábios, esperando o impacto.

​Começo pela borda da patela, dedos firmes, mapeando o contorno do edema.

​Inchaço grau três, talvez quatro.

​A pele em volta do joelho tá quente, tensa, brilhante de tão estirada.

​Pressiono de leve a linha articular e ele sibila entre os dentes, sem gritar, sem se mover — só um som curto e seco que sai sem permissão.

​Sinto o tremor fino do joelho dele sob meus dedos.

​É um corpo potente, um corpo de elite que agora está operando com falhas graves.

​— Desculpa.

​— Não desculpa nada. Faz o que tem que fazer.

​Ele encara o teto, recusando-se a me olhar enquanto a dor atravessa seu sistema nervoso.

​Testo a gaveta anterior, a mão por trás do joelho dele, a outra estabilizando a tíbia, puxando de leve pra sentir a frouxidão do ligamento.

​O deslocamento é maior do que eu queria.

​Anoto mentalmente: instabilidade grau dois avançado, beirando o três.

​O joelho não está apenas machucado; está instável, perigoso.

​— E aí, doutora? Veredito?

​— Ainda não. — Recolho a mão, pego a prancheta, escrevo dois números antes de voltar a olhar pra ele. — Preciso testar a tensão do quadríceps agora. Vou apalpar a face interna da coxa enquanto você contrai o músculo. Não é nada além disso.

​— Sou todo seu.

​Ignoro o duplo sentido na voz dele, que provavelmente nem foi intencional — ou foi, e isso também não importa.

O ar na sala parece ter ficado mais pesado, mais difícil de respirar.

mais denso, mais carregado de eletricidade estática.

​Christian mantém os olhos fixos nos meus, uma insistência que me desconcerta.

​Coloco a mão na parte interna da coxa, acima do joelho, pele quente sob a palma, e peço pra ele contrair o quadríceps.

​O músculo responde rápido demais, duro como pedra de um jeito que não é só reflexo clínico — é reação, é corpo reagindo a corpo, é exatamente o tipo de informação que não cabe em prontuário nenhum.

​A firmeza daquela perna, mesmo lesionada, é intimidadora.

​Ele respira fundo, um som gutural que ecoa pelas paredes nuas da sala.

​Eu sinto isso na ponta dos dedos antes de conseguir desligar o pensamento.

É proibido, e meu corpo não tá perguntando permissão.

​Ele não desvia o olhar. Eu também não.

​— Inibição neuromuscular leve — digo, a voz mais firme do que eu me sinto, recolhendo a mão e indo pra prancheta. — Esperado, depois de uma lesão dessa magnitude. Vamos trabalhar isso com eletroestimulação a partir de hoje.

​Anoto tudo com pressa, querendo me distanciar daquela proximidade excessiva.

​— Você fica falando difícil pra esconder o quê, exatamente?

​— Pra te explicar o protocolo. É o meu trabalho.

​— Não foi isso que eu perguntei.

​Não respondo.

​Termino de anotar, fecho a prancheta com mais força do que precisava, e quando levanto os olhos ele ainda tá ali, recostado na maca, observando cada movimento meu com uma atenção que não tem nada de paciente esperando diagnóstico.

​Ele sabe exatamente o que está fazendo.

​Ele está me estudando, mapeando minhas reações tão bem quanto eu mapeei seu joelho.

​— Vou buscar o equipamento de eletroestimulação — falo, já de costas, caminhando pra porta. — Volto em cinco minutos.

​Meus pés batem compassados contra o piso frio.

​Cada passo é uma tentativa de retomar o controle da situação.

​No corredor, encostada na parede fria de concreto, fecho os olhos por um segundo.

​A mão direita ainda lembra o calor da coxa dele, o jeito como o músculo travou debaixo dos meus dedos como se estivesse respondendo a uma pergunta que ninguém fez em voz alta.

​Eu vim aqui pra tratar um joelho. Não sabia, calçando as luvas naquela manhã, que ia precisar de muito mais blindagem do que um blazer largo pra sobreviver aos próximos cento e cinquenta dias dentro dessa casa.

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