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Capítulo 3:  A Fortaleza Industrial (POV Liah)

(POV Liah)

A caneta para um segundo antes da última assinatura.

Não é hesitação sobre o contrato — já li cada cláusula duas vezes, sublinhei o que precisava, perguntei o que precisava. É outra coisa. Uma onda de náusea sobe da boca do estômago e b**e atrás da garganta, do mesmo jeito que b**eu ontem de manhã e anteontem também. Espero passar. Passa.

Assino.

Liah Mendes, fisioterapeuta, CREFITO tal, contrato de exclusividade, sigilo absoluto, cento e cinquenta dias. O número fica registrado em algum canto técnico da minha cabeça, o mesmo canto que calcula prazo de consolidação óssea e janela de recuperação ligamentar. Cento e cinquenta dias é factível. Apertado, mas factível — se o paciente cooperar, e eu já sei, pela fama dele, que cooperar não tá no vocabulário de Christian Barbosa.

O celular vibra na mesa da cozinha. Olho de soslaio antes de virar a tela pra baixo. O nome dele ainda me faz o pescoço travar, um reflexo automático que eu não escolhi e não consigo desligar. Não abro a mensagem. Não hoje. Hoje eu tenho outra coisa pra carregar.

Levanto da cadeira e a mão vai direto pro abdômen, gesto que virou hábito nas últimas semanas, antes que eu me lembre de parar. Seis semanas. Calculei a data três vezes, com a régua clínica que uso pra tudo na vida, e três vezes o resultado foi o mesmo: a conta não fecha bem com nenhuma versão da história que eu queria contar pra mim mesma.

Visto o blazer cinza, o mais largo que tenho. Não esconde nada de verdade — ainda não tem o que esconder, fisicamente — mas o tecido solto na cintura me dá uma sensação de blindagem que eu preciso hoje mais do que nunca. Ajusto o coque no espelho do corredor. Encaro a mulher que devolve o olhar. Ela parece mais cansada do que devia parecer uma profissional indo assumir o caso mais importante da carreira.

O motorista que o clube enviou já tá esperando lá embaixo.

A Barra da Tijuca não fica longe do Recreio, mas o trânsito da Avenida das Américas faz o trajeto parecer mais longo do que é. Olho pelo vidro, o cinza dos prédios cedendo lugar aos muros altos, às câmeras discretas, aos portões eletrônicos dos condomínios fechados que cercam essa parte da cidade como se o resto do Rio fosse uma ameaça externa.

O carro entra num desses condomínios e para diante de uma casa que não parece casa. Parece um bunker desenhado por alguém com bom gosto e dinheiro demais — concreto aparente, vidro do piso ao teto, mármore escuro na entrada, um estilo industrial. Sem vista pro mar, percebo. Estranho, pra um clube que paga isso tudo, não comprar logo de cara a vista. Depois entendo: a privacidade vale mais que a vista, nesse mundo.

Pego a maleta profissional no banco de trás. O peso dela na mão é familiar, é chão firme. Sigo com ela até a porta principal.

A porta já tá aberta quando chego.

E ele tá lá. No topo da escada interna — uma escada de piso escuro, larga, desenhada pra impressionar quem entra — apoiado em duas muletas, com o peso todo distribuído na perna boa. O calção de treino, a camisa colada no peito pelo suor de algum exercício que ele não devia ter feito sozinho, o cabelo cortado na régua ainda úmido.

Christian Barbosa me encara de cima como quem já decidiu que essa visita vai ser entretenimento.

— Então você é a fisioterapeuta milagrosa — ele diz, e o sorriso que sobe num canto da boca não é simpático. É um desafio embrulhado em cortesia. — Achei que era mais velha.

Não respondo na hora. Deixo o silêncio fazer o trabalho que ele costuma fazer melhor que qualquer frase.

Subo o primeiro degrau com a maleta na mão, o salto baixo batendo seco no piso. Ele não se move, não desce, só continua me observando subir, com aquela atenção de quem mede adversário antes de decidir se vale a pena lutar.

— Eu sou a fisioterapeuta que você vai precisar implorar pra não desistir de você no meio do caminho — respondo, sem parar de subir. — Isso responde sua pergunta?

Alguma coisa passa pelo rosto dele. Não é recuo. É curiosidade genuína, do tipo que homens como ele raramente sentem por mulheres que não estão tentando agradá-los.

— Olha lá — ele murmura, mais pra si do que pra mim, ajustando o peso nas muletas quando eu chego ao topo da escada e fico parada a um metro dele, olhos no mesmo nível mesmo com ele alguns centímetros mais alto. — Isso pode ser divertido.

— Não vai ser — corto. — Vai ser trabalho. Cento e cinquenta dias de trabalho, sem exceção e sem você decidindo, no meio do caminho, que sabe mais do que eu.

Ele ri — um som baixo, rouco, genuinamente achando graça da minha cara de pedra. E é nesse riso que eu vejo, por baixo da arrogância toda, o tanto que ele tá assustado. Reconheço o disfarce porque eu uso a mesma máscara, só que com ferramentas diferentes.

— Bem-vinda à minha casa, doutora — ele diz, finalmente, abrindo o braço livre num gesto largo, quase teatral, pra mostrar o hall atrás dele. — Espero que você aguente o que vem por aqui.

Eu não respondo que também espero. Só ajusto a alça da maleta no ombro e entro.

Ninguém me avisou, naquela manhã em que assinei o contrato na cozinha do meu apartamento escondendo o estômago embrulhado debaixo de um blazer largo demais, que o homem no topo daquela escada ia se tornar o único lugar onde, dali pra frente, eu conseguiria respirar direito.

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