Mundo ficciónIniciar sesión(POV Christian)
Segunda sessão, segundo dia, e ela já chegou com aquela cara de quem decidiu antes de entrar no quarto que eu não vou gostar do que vem a seguir. A luz da manhã entrava pela janela, destacando as olheiras que ela tentava esconder com uma seriedade quase cômica. O cheiro de café forte vinha da cozinha, mas aqui dentro o ambiente era apenas clínico, tenso e frio. Ela parecia estar fugindo de algo, ou talvez estivesse apenas fugindo de mim. — Hoje a gente trabalha amplitude passiva — Liah anuncia, organizando o equipamento sem nem me olhar de frente. — Flexão controlada, sem carga, sem dor além do limite tolerável. Suas mãos moviam-se com uma precisão cirúrgica, alinhando os eletrodos como se a ordem externa pudesse organizar o caos que eu sentia. A camiseta branca dela estava impecável, o blazer do dia anterior fora substituído por uma blusa leve, mas a postura continuava rígida como ferro. Eu observava cada movimento, sentindo a perna latejar num lembrete constante de que eu não era o mesmo homem de uma semana atrás. — Eu não tô com vontade hoje. A minha voz saiu um pouco mais rascante do que o pretendido, o reflexo do meu temperamento tentando dominar a dor. Ela para. Vira pra mim com aquela calma que eu já aprendi, em vinte e quatro horas, que é mais perigosa do que qualquer grito. Os olhos dela encontraram os meus, fixos, sem desviar, como se estivesse medindo a minha força de vontade contra a sua autoridade. — Vontade não tá no protocolo, Christian. O ar no quarto pareceu rarefeito por um momento, um silêncio pesado demais pro tamanho daquele cômodo. Eu odiava ser submetido a ordens, ainda mais por alguém que se escondia atrás de um prontuário e de termos técnicos. — Eu sou o paciente. Achei que o paciente tinha voz. — O paciente tem voz pra dizer onde dói. Não pra decidir o tratamento. — Ela pega o gel, fria, mecânica. — Senta na maca. Não sento. Fico parado, apoiado numa muleta só, testando até onde isso vai. Eu via o esforço dela para manter o rosto neutro, para não demonstrar que eu estava tirando-a do sério. Mas o leve trêmulo nos dedos ao abrir o pote de gel denunciava que a máscara estava começando a rachar. — Você acha que manda em mim porque tem um diploma, doutora? A pergunta sai mais ácida do que eu planejei, mas já tá fora, e eu não vou recuar primeiro. Encurto a distância — duas passadas, mancando, até ficar a centímetros do rosto dela, perto o suficiente pra ela sentir minha respiração, perto o suficiente pra quebrar qualquer distância regulamentar que esse contrato idiota tentou inventar. A aura de controle que ela exalava parecia vacilar. O cheiro de sabonete suave que emanava da pele dela era uma distração perigosa, algo que eu deveria ignorar, mas que me puxava para mais perto. Ela não recua um milímetro. — Eu mando porque sou a única pessoa nessa casa que entende o que tá acontecendo dentro do seu joelho — ela responde, a voz baixa, cortante, sem um grau de calor. — Você pode brincar de duelo de olhar o quanto quiser. No fim do dia, ou você faz o que eu mando, ou some da lista da Copa. A escolha é sua. A ameaça era real, fria e calculada, e ela sabia que eu não tinha como ignorá-la. Devia me irritar mais. Devia. Mas tem uma coisa errada na cena, e demoro um segundo pra identificar o quê: os ombros dela, que travaram do nada, num ângulo que não tem nada a ver comigo. A garganta apertando, visível, o músculo do pescoço marcado por um segundo antes de ela engolir e recompor a postura. Ela parecia estar lutando contra um espectro invisível, algo muito mais forte do que a minha simples teimosia. O ambiente, que já era tenso, ficou sufocante, como se o oxigênio tivesse sido sugado de repente para fora da sala. Cada batida do meu coração parecia ecoar nas paredes nuas, uma contagem regressiva para algo que eu ainda não entendia. Ela não tá com medo de mim. Ela tá com medo de alguma outra coisa, e eu cheguei perto demais de alguma linha que não sabia que existia. — Senta na maca, Christian — ela repete, mais baixo agora, a voz quase de volta ao normal, mas o pulso dela — vejo pela artéria do pescoço — ainda batendo rápido demais pra alguém que só tá irritada com paciente difícil. Eu estava prestes a ver algo que ela desesperadamente tentava manter enterrado, e o instinto me dizia para continuar pressionando. Sento. Não porque ela mandou. Porque alguma coisa nesse instante de fraqueza dela me interessa mais do que qualquer discussão sobre protocolo. — Quem é? — pergunto, baixo, enquanto ela posiciona as mãos no meu joelho pra começar a mobilização. — Quem é o quê. — A pessoa que te assustou. Os dedos dela travam por uma fração de segundo na minha pele. Só uma fração. Depois o movimento clínico volta, perfeito, impecável, como se a pergunta nunca tivesse sido feita. — Flexiona o joelho até onde aguentar — ela diz, ignorando completamente a pergunta. — Eu aviso quando parar. Obedeço. Fico calado pelo resto da sessão, e ela também fica, mas o silêncio dessa vez não é alívio nenhum. São os dois sabendo, ao mesmo tempo, que eu acabei de descobrir que essa mulher carrega um peso que não tem nada a ver com o meu joelho — e que, de algum jeito que eu não consigo explicar ainda, mas eu já decidi que vou descobrir qual é.






