Capítulo 5: O Primeiro Conflito 

(POV Christian)

​Segunda sessão, segundo dia, e ela já chegou com aquela cara de quem decidiu antes de entrar no quarto que eu não vou gostar do que vem a seguir.

​A luz da manhã entrava pela janela, destacando as olheiras que ela tentava esconder com uma seriedade quase cômica.

​O cheiro de café forte vinha da cozinha, mas aqui dentro o ambiente era apenas clínico, tenso e frio.

​Ela parecia estar fugindo de algo, ou talvez estivesse apenas fugindo de mim.

​— Hoje a gente trabalha amplitude passiva — Liah anuncia, organizando o equipamento sem nem me olhar de frente. — Flexão controlada, sem carga, sem dor além do limite tolerável.

​Suas mãos moviam-se com uma precisão cirúrgica, alinhando os eletrodos como se a ordem externa pudesse organizar o caos que eu sentia.

​A camiseta branca dela estava impecável, o blazer do dia anterior fora substituído por uma blusa leve, mas a postura continuava rígida como ferro.

​Eu observava cada movimento, sentindo a perna latejar num lembrete constante de que eu não era o mesmo homem de uma semana atrás.

​— Eu não tô com vontade hoje.

​A minha voz saiu um pouco mais rascante do que o pretendido, o reflexo do meu temperamento tentando dominar a dor.

​Ela para. Vira pra mim com aquela calma que eu já aprendi, em vinte e quatro horas, que é mais perigosa do que qualquer grito.

​Os olhos dela encontraram os meus, fixos, sem desviar, como se estivesse medindo a minha força de vontade contra a sua autoridade.

​— Vontade não tá no protocolo, Christian.

O ar no quarto pareceu rarefeito por um momento, um silêncio pesado demais pro tamanho daquele cômodo.

​Eu odiava ser submetido a ordens, ainda mais por alguém que se escondia atrás de um prontuário e de termos técnicos.

​— Eu sou o paciente. Achei que o paciente tinha voz.

​— O paciente tem voz pra dizer onde dói. Não pra decidir o tratamento. — Ela pega o gel, fria, mecânica. — Senta na maca.

​Não sento. Fico parado, apoiado numa muleta só, testando até onde isso vai.

​Eu via o esforço dela para manter o rosto neutro, para não demonstrar que eu estava tirando-a do sério.

​Mas o leve trêmulo nos dedos ao abrir o pote de gel denunciava que a máscara estava começando a rachar.

​— Você acha que manda em mim porque tem um diploma, doutora?

​A pergunta sai mais ácida do que eu planejei, mas já tá fora, e eu não vou recuar primeiro.

​Encurto a distância — duas passadas, mancando, até ficar a centímetros do rosto dela, perto o suficiente pra ela sentir minha respiração, perto o suficiente pra quebrar qualquer distância regulamentar que esse contrato idiota tentou inventar.

​A aura de controle que ela exalava parecia vacilar.

​O cheiro de sabonete suave que emanava da pele dela era uma distração perigosa, algo que eu deveria ignorar, mas que me puxava para mais perto.

​Ela não recua um milímetro.

​— Eu mando porque sou a única pessoa nessa casa que entende o que tá acontecendo dentro do seu joelho — ela responde, a voz baixa, cortante, sem um grau de calor. — Você pode brincar de duelo de olhar o quanto quiser. No fim do dia, ou você faz o que eu mando, ou some da lista da Copa. A escolha é sua.

​A ameaça era real, fria e calculada, e ela sabia que eu não tinha como ignorá-la.

​Devia me irritar mais. Devia. Mas tem uma coisa errada na cena, e demoro um segundo pra identificar o quê: os ombros dela, que travaram do nada, num ângulo que não tem nada a ver comigo. A garganta apertando, visível, o músculo do pescoço marcado por um segundo antes de ela engolir e recompor a postura.

​Ela parecia estar lutando contra um espectro invisível, algo muito mais forte do que a minha simples teimosia.

​O ambiente, que já era tenso, ficou sufocante, como se o oxigênio tivesse sido sugado de repente para fora da sala.

​Cada batida do meu coração parecia ecoar nas paredes nuas, uma contagem regressiva para algo que eu ainda não entendia.

​Ela não tá com medo de mim.

​Ela tá com medo de alguma outra coisa, e eu cheguei perto demais de alguma linha que não sabia que existia.

​— Senta na maca, Christian — ela repete, mais baixo agora, a voz quase de volta ao normal, mas o pulso dela — vejo pela artéria do pescoço — ainda batendo rápido demais pra alguém que só tá irritada com paciente difícil.

​Eu estava prestes a ver algo que ela desesperadamente tentava manter enterrado, e o instinto me dizia para continuar pressionando.

​Sento. Não porque ela mandou. Porque alguma coisa nesse instante de fraqueza dela me interessa mais do que qualquer discussão sobre protocolo.

​— Quem é? — pergunto, baixo, enquanto ela posiciona as mãos no meu joelho pra começar a mobilização.

​— Quem é o quê.

​— A pessoa que te assustou.

​Os dedos dela travam por uma fração de segundo na minha pele. Só uma fração. Depois o movimento clínico volta, perfeito, impecável, como se a pergunta nunca tivesse sido feita.

​— Flexiona o joelho até onde aguentar — ela diz, ignorando completamente a pergunta. — Eu aviso quando parar.

​Obedeço. Fico calado pelo resto da sessão, e ela também fica, mas o silêncio dessa vez não é alívio nenhum. São os dois sabendo, ao mesmo tempo, que eu acabei de descobrir que essa mulher carrega um peso que não tem nada a ver com o meu joelho — e que, de algum jeito que eu não consigo explicar ainda, mas eu já decidi que vou descobrir qual é.

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