Capítulo 2: A Farsa do Silêncio 

(POV Christian)

O caminho até a van é um borrão de dor e portas se abrindo. Daniel e Thiago me erguem rápido, sem cerimônia — meus pés ficam suspensos, longe de qualquer apoio no chão, enquanto o staff do CT me empurra na direção do veículo. Atrás da grade, as câmeras disparam sem parar. Reconheço a lente da Rafaela entre as outras, focada, paciente, esperando o ângulo certo da minha desgraça.

Dois seguranças abrem um guarda-chuva gigante de golfe na frente do alambrado, tampando o disparo das fotos. É ridículo. Mas funciona o suficiente pra eu entrar na van sem virar manchete antes da hora.

A porta lateral desliza e fecha. O ar-condicionado tá no talo, gelado contra o calor que ainda sobe da minha pele. Thiago estica minha perna no banco oposto e começa a imobilizar com uma faixa elástica, o rosto fechado, sem soltar uma palavra de conforto.

— Não aperta tanto — rosno.

— Se quiser que o inchaço baixe, cala a boca e deixa eu trabalhar — ele responde sem olhar pra mim.

A porta lateral desliza outra vez. Pietro entra e fecha com um movimento seco, nos trancando no cubículo blindado. Ele não senta. Fica de pé, terno impecável — mas a mão que solta a maçaneta treme um milímetro antes de ele esconder atrás das costas. Ninguém além de mim ia notar isso.

— Me dá o diagnóstico real, Christian — ele tenta soar frio, mas eu conheço esse tom. É o mesmo tom que ele usa quando está com medo de verdade. — O assessor já saiu inventando torção leve, "preservação por precaução". Quanto tempo de campo?

Olho pro Thiago. Ele hesita um segundo.

— Fala, Thiago. Sem rodeio.

— Ligamento cruzado anterior rompido. Completo. Protocolo padrão são seis meses parado. Ele tá fora da Copa.

O silêncio que cai na van pesa mais que o ar-condicionado no talo. Pietro caminha até o vidro, espia pela fresta da cortina. Lá fora, os jornalistas ainda rondam, tentando entender por que o camisa dez saiu antes da hora.

— Seis meses não é opção — Pietro murmura, virando pra mim. Se inclina, rosto a centímetros do meu, e por um segundo o terno desaparece e fica só o cara que jogou bola antes de virar presidente de qualquer coisa. — Eu vi essa cena antes, Christian. De dentro. Não vou ficar de braço cruzado vendo você jogar a carreira no lixo do mesmo jeito que eu joguei a minha.

— Eu tô tentando, porra — tento levantar o tronco, a dor escurece a visão por um segundo, caio de volta no banco. — Eu não escolhi romper o ligamento.

— Eu não posso te dar mais tempo, Christian. Só queria poder — Pietro endurece a voz pra não rachar no meio da frase. — Thiago. Tem alternativa? Alguma gambiarra que segure esse joelho dentro de cento e cinquenta dias, quando sairá a convocação?

Thiago para de mexer na maleta.

— Existe o tratamento conservador intensivo. É uma tortura. Sem cirurgia agora — fortalecimento agressivo de quadríceps, bloqueio de dor com corticoide e PRP, estabilização. Risco de colapso no primeiro drible sério: noventa por cento. E precisa de acompanhamento total. Alguém que durma, coma e respire essa recuperação junto com ele.

— Quem? — Pietro pergunta, direto.

— Liah Mendes.

O nome não me diz nada de imediato. Só depois, vasculhando a memória, encontro um resto: alguém comentou esse nome num vestiário, ano passado. Fisioterapeuta que trabalhou com atleta de elite e desapareceu do circuito sem explicação.

— Ela ainda atende esse tipo de caso? — Pietro questiona, e tem desconfiança na voz.

— Atende. Mas escolhe quem quer — Thiago responde, sem desviar o olhar da maleta. — Depois do que aconteceu com o último paciente dela, ela ficou seletiva. Cobra o que quiser e não dá desconto pra ego de jogador.

— O que aconteceu com o último paciente? — pergunto.

— Não importa agora — Thiago corta, e o jeito como ele desvia o assunto me diz que importa, sim, só não pro momento.

Pietro estreita os olhos, calculando.

— Traz ela. Mas isso fica entre a gente, Christian. Quanto menos gente souber, melhor pra todo mundo — pra ela, pra você, pro clube inteiro. Eu não tô em posição de proteger ninguém se isso estourar antes da hora.

Ele abre a porta da van, pronto pra enfrentar os repórteres com a mentira já pronta na ponta da língua. Para no batente um segundo de mais.

— Você tem cento e cinquenta dias pra ser herói, Christian. — A voz baixa, só pra mim ouvir, antes de ele voltar pro modo presidente. — Eu sei o que é não ter os cento e vinte dias. Não desperdiça os seus.

Sai. A porta b**e com um baque surdo.

Thiago suspira, termina a bandagem, puxa o celular do bolso.

— Vou ligar pra ela. Já aviso: se você for arrogante do jeito que costuma ser com gente que você não conhece, ela desliga em cinco minutos. E dessa vez eu não vou tá aqui pra te salvar.

Ele disca. Coloca no viva-voz. O tom de chamada soa uma, duas, três vezes.

Na quarta, uma voz corta o silêncio da van.

— Quem fala?

Fria. Sem rodeio, sem aquele verniz de simpatia que todo mundo usa quando atende telefone de número desconhecido.

— Liah? Aqui é o Thiago. Departamento médico da Seleção.

— Thiago — Ela repete o nome como quem confirma um dado, não como quem cumprimenta. — Faz tempo.

— Eu sei. Preciso de um favor grande.

— Você sempre precisa.

Thiago olha pra mim, sobrancelha erguida, como quem diz "viu, eu avisei".

— O Christian Barbosa rompeu o ligamento cruzado hoje de manhã. Tratamento padrão é seis meses. A Copa é em cento e oitenta dias, a convocação em cento e vinte dias.

Do outro lado, silêncio. Não o silêncio de quem não entendeu — o de quem já tá calculando o tamanho do problema antes de abrir a boca.

— E o que isso tem a ver comigo, Thiago? — a voz dela tem um fio de tédio que me irrita mais do que devia. — Eu não atendo mais atleta de elite. Você sabe por quê.

— Eu sei. Mas não existe outra pessoa no Rio capaz de fazer o que precisa ser feito em cento e conquenta dias.

— Existe, sim. Você só não confia em mais ninguém.

Ela vai desligar. Sinto isso pelo tom, pela pausa antes da última frase. Tomo o celular da mão do Thiago antes que ele consiga argumentar de volta.

— Liah — minha voz sai mais rouca do que eu queria. — Aqui é o Christian.

— Eu sei quem é — ela responde, sem um pingo de impressão na voz. — Seu nome tá em outdoor da Linha Amarela.

— Eu preciso que você venha pra Barra. Eu pago o que for.

— Todo mundo paga o que for, até descobrir o que "o que for" significa de verdade.

— Então me diz o preço.

Ela demora pra responder. Quando volta a falar, o tom mudou — não ficou mais quente, ficou mais afiado.

— O preço é eu mandar em você dentro da sua própria casa por cento e cinquenta dias. Sem exceção, sem charme, sem você decidindo que sabe mais do que eu sobre o seu próprio corpo. Se isso for um problema, desliga agora e poupa o meu tempo.

— Não é problema.

— Vai ser. — Ela faz uma pausa breve. — Eu não confirmo nada agora. Vou ver a ficha clínica primeiro. Manda o Thiago me enviar.

— Liah.

Ela já desligou.

O celular fica morto na minha mão. Thiago me encara, as sobrancelhas arqueadas.

— Ela vem? — eu pergunto, devolvendo o aparelho.

— Ela disse que ia ver a ficha — Thiago pega o celular de volta, guarda no bolso. — Com ela, isso já é mais resposta do que a maioria recebe.

Olho pela janela da van. A neblina de Teresópolis sobe de novo, engolindo o gramado, os fotógrafos, a Granja Comary inteira.

— Então a gente espera — falo, sentindo o peso de depender de alguém que eu nunca vi na vida pra decidir se a minha Copa ainda existe.

Ela desligou sem prometer nada. Sem confirmar, sem aceitar, sem dar esperança.

O que eu não sei, olhando pra neblina engolir o gramado vazio, é que em vinte e quatro horas essa mulher vai atravessar o portão da minha mansão — e que o joelho vai deixar de ser, longe, o meu maior problema.

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