Mundo ficciónIniciar sesión
(POV Christian)
A neblina de Teresópolis corta o rosto como uma lâmina cega. Seis e meia da manhã, o termômetro marca dez graus na Granja Comary, e o ar úmido cheira a grama recém-cortada, café forte e desespero. Faltam exatos seis meses para a Copa do Mundo no Catar. O clima nos treinos não é de camaradagem. É de sobrevivência. A Seleção Brasileira é um moedor de carne, e todo mundo aqui sabe que um deslize te tira da lista final. Ajeito a manga longa térmica por baixo do uniforme e corro para o meio-campo. Meus músculos já estão aquecidos, o suor escorrendo pela nuca a despeito do frio. Tô voando. Fisicamente, no auge. Cada passo que dou no gramado molhado é firme, rápido, letal. O treino começou tem uma hora. Daqui a pouco paramos e retornamos à tarde, após o treino na sala de musculação. Daniel, nosso capitão, tá na sobra. A montanha de gelo de um metro e noventa que comanda a zaga fecha o cerco em milissegundos. — Não vai passar, camisa dez! — Daniel provoca, o maxilar duro e a postura irredutível de quem não alivia nem em treino tático. Dou uma risada seca pelo nariz. Passo sim. Eu sou o Raio. Diego, meia-atacante e meu amigo, toca para Leo. — Solta a bola, Leo! — grito. A voz sai rasgando a garganta, abafada pela cerração. Leo gira o corpo rápido. O moleque tem dezenove anos, chegou ontem na equipe principal, mas a gente já abraçou o garoto. Ele não treme na base. Tem visão de jogo, toca de cabeça erguida e é o protegido do vestiário. O cruzamento dele sai limpo, com a precisão de um cirurgião. Dou um toque curto com a parte externa do pé esquerdo, tirando a bola do alcance de Hugo, e jogo o peso do corpo para dar a arrancada que me fez ser vendido por milhões. Toda a força, todo o torque e a explosão muscular se transferem para a perna de apoio em uma fração de segundo. A grama molhada cede um milímetro a mais sob a trava da minha chuteira. O estalo ecoa antes da dor. Um crack surdo. Seco. Violento. O som de um galho grosso de árvore sendo partido ao meio em uma floresta silenciosa. Não caio de imediato. A gravidade parece falhar por um instante antes de me puxar para baixo em um tranco brutal. Meu ombro b**e na terra com força, espirrando água suja no meu rosto, e o ar some dos meus pulmões num baque seco. Não consigo respirar. Minha garganta trava por completo. — Porra! — O grito que arranco da garganta não parece meu. É um urro rasgado, gutural. Minhas duas mãos voam para o joelho esquerdo. O tecido do calção de treino tá gelado, mas a articulação por baixo queima como se alguém tivesse derramado gasolina e riscado um fósforo dentro da minha perna. A dor não vem em ondas. Ela despenca em cima de mim como um bloco de concreto. — Parou! Parou a porra do treino! — Daniel berra, a voz potente cobrindo o apito apavorado do técnico. O zagueiro ajoelha do meu lado no mesmo segundo, sujando o uniforme branco de barro. As mãos pesadas do capitão seguram meus ombros contra o chão, travando meus movimentos. — Não mexe a perna, Christian. Fica quieto, caralho. Abro os olhos com esforço. Minha visão tá turva. O suor frio brota na minha testa, descendo pela têmpora até arder nos meus olhos. Diego se aproxima, ofegante, parando a dois passos. Ele passa a mão na nuca, o peito subindo e descendo rápido. O volante Hugo olha para o meu joelho e engole em seco, recuando um passo automático. Leo corre até nós. O rosto do moleque tá branco que nem cal. Os olhos castanhos arregalados, a respiração presa na garganta. Ele olha para as próprias chuteiras e depois para mim, em choque. — Cara... foi o passe? Eu toquei curto demais? — Leo gagueja, a culpa engolindo o recém-chegado, as mãos tremendo levemente na lateral do corpo. Tranco os dentes com tanta força que sinto a base da mandíbula latejar. — Sai dessa, Leo... A culpa... não é tua. Gramado de merda. — A frase sai em pedaços. Falar exige ar, e meus pulmões parecem ter encolhido. Daniel j**a a cabeça para trás e faz um sinal brusco em direção ao banco de reservas. — Cadê a porra do departamento médico?! Doutor Thiago, cacete! O som de solas de borracha escorregando pelo campo se aproxima em disparada. Thiago, o médico chefe da Seleção, desliza de joelhos na grama, parando ao meu lado. Ele não perde tempo com palavras de consolo. O rosto do Thiago é uma máscara impenetrável de protocolo técnico. Ele larga a maleta preta na poça de lama. — Afasta, todo mundo. Dá espaço pra ele respirar. Daniel, segura o tronco dele contra o chão. Não deixa ele debater. O capitão firma as mãos no meu peito, pesando o corpo sobre mim. Thiago levanta o tecido do meu calção com as mãos para melhor avaliar a situação do meu joelho. Os dedos dele são frios, precisos, tateando a patela já desconfigurada pelo inchaço brutal. Ao menor toque na linha do ligamento, meu corpo inteiro convulsiona num espasmo involuntário que me arranca outro palavrão. — Puta que pariu, tira a mão daí! — rosnando, tento empurrar o braço do médico, mas Daniel me prende no chão. — Fica imóvel, Christian — Thiago corta, a voz baixa, fria. O olhar dele não encontra o meu. Ele olha apenas para o inchaço. E esse é o pior sinal de todos. Quando o médico do esporte não te olha nos olhos durante o exame de toque, a notícia é um obituário. A vinte metros dali, colada na grade que separa o campo de treinos da zona mista da imprensa, escuto o disparo contínuo das lentes fotográficas. Click-click-click. Viro o pescoço de lado, sentindo o gosto de terra e mato na boca. Atrás do alambrado, a figura de Rafaela Rocha se destaca. A jornalista já tá ali, enfiando a lente da câmera no buraco da tela de arame, registrando cada espasmo de dor meu. O olhar implacável dela cruza com o do Diego por uma fração de segundo no campo, antes de ela voltar o foco da lente para a minha desgraça. A mídia já sentiu o cheiro da carniça. Mais acima, nas arquibancadas vips, completamente vazias por causa do treino fechado, um homem de sobretudo escuro se levanta da cadeira rápido demais pra ser só educação. Pietro D'Angelo. Presidente da SAF, dono do meu passe — e o único cara nesse clube que sabe, na própria pele, o que aquele estalo significa. Pietro estourou o tendão aos vinte e dois anos, jogando na Itália, e nunca mais pisou num gramado depois disso. Ele não precisa que ninguém traduza o som que acabou de sair do meu joelho. Ele já ouviu antes, de dentro da própria perna. Mesmo daqui, através da neblina, dá pra ver que ali não tem só um presidente fazendo conta de prejuízo. Tem um amigo torcendo pra ter ouvido errado. — Thiago... — Minha voz não passa de um sussurro rouco agora. O choque tá começando a amortecer o sistema nervoso. Agarro o pulso do médico. Meus dedos cravam na pele dele com desespero. — Diz que foi só torção. Thiago finalmente ergue o rosto. A expressão dele me empurra para a beira de um precipício. — Eu não vou mentir pra você a essa altura, Christian — Thiago murmura bem baixo, garantindo que as câmeras da Rafaela lá fora não façam leitura labial. — Tem fluido vazando rápido. A gaveta anterior tá completamente frouxa. O ligamento cruzado já era. A palavra b**e na minha testa como uma marreta. Já era. Cento e oitenta dias de recuperação padrão. Faltam cento e cinquenta para a convocação da copa que começa em cento e oitenta dias. O céu cinzento de Teresópolis gira acima de mim. Solto o pulso do Thiago e deixo a cabeça bater de volta na terra. O ar, a pressão, a expectativa do país inteiro em cima dos meus ombros — tudo desmorona de uma vez só. — Tô fora. — A constatação arranha a garganta num chiado patético. Daniel aperta meu ombro em silêncio. Leo vira de costas e passa as duas mãos pelo cabelo em desespero, se afastando devagar. — Você tá fora do treino de hoje — Thiago corrige, o tom cirúrgico sem um pingo de emoção visível, mas a linha da mandíbula dele tá tensa. Ele abre a maleta. — Se a gente operar agora e abrir o joelho, a sua Copa acabou. Esquece o Catar. Fixo os olhos turvos na maleta. — Eu faço o que for preciso. Pago o preço que for. Me põe em pé. Thiago balança a cabeça devagar, travando os olhos nos meus, ignorando as dezenas de pessoas em volta. — Se quiser fugir da faca e tentar o milagre do tratamento conservador, o clube não vai cobrir o risco. É um inferno físico. Você vai precisar de uma profissional exclusiva, que respire a sua perna vinte e quatro horas por dia, blindada e trancada dentro da sua casa, sem a mídia saber do real risco e o Pietro aceitar isso. Ele fez uma pausa que me fez compreender melhor a situação, além de me dar uma opção e pelo visto a única. — E eu só conheço uma mulher no Rio de Janeiro com a arrogância e o pulso firme pra aguentar a sua dor e te botar pra correr a tempo. Mas ela tem um histórico complicado, não atende pouquíssimas pessoas e cobra um absurdo. E você, como eu disse, terá que ser dedicação exclusiva, você tem que ter a sorte de ela estar disponível. Aperto os punhos na lama, a respiração finalmente se estabilizando na urgência do desespero. — Eu não perguntei quanto ela custa, Thiago. Manda o contrato de exclusividade pra ela. Agora. O nome dela ainda não significa nada pra mim. Só um número de telefone, uma reputação difícil, um problema a ser resolvido em noventa dias. Eu não tenho ideia, deitado naquela lama com o joelho em pedaços, de que vou trocar o ligamento cruzado pelo pior — e melhor — erro da minha vida.






