Mundo ficciónIniciar sesiónO CONVITE
Ao atravessarmos a porta daquela casa, que mais se assemelhava a um hotel de luxo do que a qualquer lugar que eu conhecesse antes, Sabrina segurou minha mão com firmeza. —Sua força era como um escudo, destinada a me proteger do desconhecido que me aguardava. —O ambiente, excessivamente silencioso e bem organizado, era adornado com obras de arte que contavam histórias de vidas deslumbrantes. Contudo, uma inquietude permeia o ar, como se eu tivesse cruzado uma linha perigosa para uma realidade irreversível. — Fica calma, deixa eu falar com ela primeiro, tá?— murmurou ela ao meu lado, notando a frieza da minha mão. Suas palavras, uma mistura de solidariedade e um convite silencioso à bravura, me atingiram profundamente. — Confia em mim amiga, só te trouxe aqui porque é a única forma de você salvar sua casa. Eu apenas assenti, confiar nela era tudo o que eu podia fazer naquele momento, enquanto a esperança tremulava em meu peito, frágil como papel, dependente da promessa de Sabrina. Foi então que uma mulher surgiu no topo da escada, deve ter uns cinquenta anos. - Elegante e impecável, sua presença emanava uma aura de autoridade que imediatamente capturou minha atenção. Ela me lançou um olhar penetrante, como se pudesse desvelar as camadas de medo e vulnerabilidade que usava como armadura. — Sabrina… — disse ela, com um leve sotaque francês que trazia um charme distinto, contrastando com a dureza da situação. — Você trouxe uma garota, ela quer trabalhar aqui? Sabrina respondeu sem hesitação, decidida como eu desejava ser. — Madame Edith, esta é uma amiga Nina, ela precisa de ajuda urgente, está desesperada e necessita de dinheiro. —O olhar da mulher se fixou em mim, avaliando-me como se eu fosse um livro aberto, escondendo intenções ocultas atrás de seu semblante neutro. — Como assim, desesperada? — perguntou, aguardando que Sabrina expusesse toda a situação: a casa, a dívida, o prazo e a família prestes a perder o único lar que tinham. Permaneci em silêncio, sentindo o peso de suas palavras em meu coração, como uma cruel reflexão da fragilidade que separava o conforto da miséria. Madame Edith não demonstrou pena nem desprezo; seu olhar era um campo de batalha entre compaixão e pragmatismo. — Você é virgem? — perguntou, com uma intensidade que parecia despir todos os meus segredos. — Sim, senhora… sou, tenho dezenove anos. — Virgem mesmo, não está mentindo? — insistiu, como se a confirmação ganhasse um peso inesperado. — Sim, senhora sou . — Ela assentiu, já esperando essa resposta. — Venha comigo. — Com o coração acelerado e uma nuvem de incertezas pairando sobre mim, segui-la, sentindo o olhar de Sabrina me apoiar nas costas, um anseio silencioso por minha segurança. — Adentrei uma sala limpa e fria, onde uma médica nos aguardava, pronta para realizar sua tarefa com eficiência implacável. Nunca me senti tão exposta; e vulnerável , o medo me dominava era quase palpável. — Doutora, verifique se essa jovem é intocada— ordenou Madame Edith de maneira natural, sua voz refletindo a determinação de quem executava um trabalho sem apelos emocionais. O exame foi rápido e técnico, mas para mim, pareceu uma eternidade. —Mantive os olhos fechados, tentando convencer-me de que aquilo era um passo necessário, um processo com um propósito maior, embora a dúvida batesse à porta da minha mente. Finalmente, quando terminou, a médica se levantou e informou, com tranquilidade: — Sim, madame Edith, ela é virgem, totalmente. — Aquelas palavras ecoaram em mim de forma estranha, sem alívio ou orgulho; era apenas uma confirmação de que algo que eu nunca imaginei negociar estava prestes a acontecer, a minha inocência tornava-se moeda de troca, e valia o preço de salvar minha casa. Madame Edith voltou a me olhar, desta vez com um interesse renovado, como se cada palavra fosse um convite à tentação. — Então vai render um bom valor — constatou, desprovida de emoções, como se falasse de um fato trivial. — Quanto você precisa Nina? Engoli em seco antes de responder, consciente do peso da situação e do que estava em jogo. — Cinquenta mil reais… é o valor da dívida da casa da minha família. Se eu não pagar em dois meses, vamos perder tudo, e não sei o que será de nós. Ela inclinou a cabeça, analisando-me com olhos que pareciam perscrutar até as profundezas da minha alma. — Você pretende continuar depois? Não, senhora — respondi, firme, apesar do coração apertar e o medo quase me paralisar. — Eu só preciso dessa quantia, depois da noite que for o leilão, não quero mais esse trabalho, quero casar um dia, ser mãe sabe? Apenas farei esse sacrifício para dar paz a minha família. Ela soltou um leve suspiro e cruzou os braços, contemplando a ironia daquela vida que meninas como eu levavam. — É uma pena… com a sua aparência, você poderia ganhar muito dinheiro, você tem uma beleza angelical, e corpo de pecado, poderia ficar rica. Balancei a cabeça em negativa, determinada a não me deixar levar por promessas sedutoras. Eu não quero essa vida, me desculpe, vim só porque quero salvar a minha família, mesmo que signifique perder a mim mesma no processo. — Ela desviou o olhar para Sabrina por um instante, como se ponderasse a complexidade da questão. Sabrina deu um passo à frente, sua voz baixa mas firme, como um escudo à minha frente. — Por favor… ajude-a, minha amiga precisa ajudar a família dela. Nina não é como eu, estou aqui porque escolhi essa vida, mas ela está fazendo isso porque precisa, e isso é muito diferente. — Você sabe que eu prefiro que as meninas continuem. O silêncio que se seguiu foi breve, mas suficiente para me fazer prender a respiração, a agonia da espera pesando como chumbo. — Então, Madame Edith suspirou, como se estivesse cedendo a algo que não costumava permitir, e a tensão no ar tornou-se quase elétrica, trazendo consigo a promessa de um futuro desconhecido. — Esse meu coração mole ainda vai me dar problemas — murmurou Madame Edith, mais para si mesma do que para nós, antes de voltar a me encarar com aquele olhar firme, que não era cruel, mas também não era acolhedor; era apenas direto, como alguém acostumada a decisões difíceis. Ela se aproximou um pouco mais, certificando-se de que eu entendia cada palavra. — Vamos fazer do seu jeito, então, você entra, faz o leilão, resolve a sua situação… e vai embora, mas até lá, você seguirá todas as regras da casa. Caso no futuro deseje ser uma das nossas é só avisar. Eu assenti, mesmo com o coração acelerado, porque naquele momento já sabia que não havia espaço para dúvidas. — Hoje você vai para o spa, cuidado com a pele, hidratação, depilação tudo o que for necessário. Eu não coloco ninguém no salão sem estar impecável. Ela fez um gesto leve com a mão, como se aquilo fosse apenas um detalhe de um processo muito maior. — No final de semana teremos estrangeiros, homens que sabem o que estão fazendo e que pagam alto, é lá que você vai entrar. Meu corpo enrijeceu, mas permaneci em silêncio, absorvendo cada informação como se estivesse assinando um contrato invisível. — Eu… não queria que ninguém soubesse que sou eu, teria como fazer com quem eu seja outra pessoa?— consegui dizer, com a voz mais baixa do que eu gostaria. — Existe alguma forma de esconder minha identidade? Madame Edith me observou por um instante, avaliando, como se ponderasse até onde poderia atender aquele pedido sem comprometer o funcionamento do que comandava. — O seu corpo não pode ser escondido — respondeu, com naturalidade. — Mas o resto, sim, vamos cobrir seus cabelos com uma peruca escura, esconder parte do seu rosto com uma venda e podemos usar lentes de contato para mudar a cor dos seus olhos, esses detalhes costumam ser suficiente. Engoli em seco antes de completar: — Eu tenho uma pintinha… em formato de coração. Ela arqueou levemente uma sobrancelha. — Onde? Senti o rosto esquentar. — No bumbum, marca de nascença. Ela assentiu, sem demonstrar constrangimento. — Disfarçamos com maquiagem, fora isso, não há mais o que esconder, querida. O modo como disse “querida” não era carinhoso, mas também não era frio; era apenas… profissional. — O lance inicial será de cinquenta mil — continuou — quarenta por cento fica comigo, sessenta por cento é seu, se tiver sorte, pode sair daqui com muito mais do que precisa. Respirei fundo, sentindo o peso daquela realidade se acomodar dentro de mim. —As palavras saíram firmes, apesar de tudo dentro de mim tremer. — Não tenho outra saída, aceito, madame. Madame Dite assentiu, como se tivesse acabado de fechar mais um acordo entre tantos outros. — Muito bem, Sabrina, cuide dela, a leve para se cuidar, quero que esteja pronta, para o sábado, já vou avisar aos clientes vips, que teremos um leilão. Sabrina segurou minha mão novamente, desta vez com mais força, como se estivesse me puxando de volta para um caminho do qual não havia retorno. — Vem comigo, amiga vou te levar no doar que ela mandou.. Eu caminhei ao lado dela, ainda tentando processar tudo o que acontecera em tão pouco tempo. — Você está bem, Nina? — perguntou, Sabrina já em um tom mais baixo, uma vez que nos afastamos. Demorei alguns segundos para responder, na verdade era eu que não sabia, o que falar. — Eu… não sei — admiti...— Parece que estou assistindo à minha vida de fora. Ela apertou minha mão levemente, buscando me confortar. — Vai dar certo, você vai conseguir o dinheiro e tudo isso acaba, eu estou nessa vida, porque posso ajudar melhor minha família. Me diz Sabrina. - Quando me formar pretendo parar, você não precisa continuar se não quiser. Eu queria acreditar, de verdade, tenho que ser forte, mas, no fundo, algo dentro de mim sussurrava que não seria tão simples assim. — Naquela noite, ao voltar para casa, tudo parecia igual, mas ao mesmo tempo completamente diferente. Minha mãe estava na cozinha e meu pai, sentado no sofá, nesse momento, quase desisti de tudo. —Quase disse que não conseguiria, que não valia a pena, que encontraríamos um jeito. Mas então lembrei do papel. Do prazo. Do olhar deles. — Mãe… — chamei, tentando manter a voz firme — a Sabrina conseguiu uma vaga pra mim em um evento. Vou trabalhar com ela no final de semana… e provavelmente terei que dormir na casa dela. Minha mãe me olhou imediatamente, preocupada. — Mas você tem certeza, minha filha? Você já trabalha tanto… Meu pai também ergueu o olhar, cansado, mas atento. — A gente precisa de dinheiro — completei, antes que eles insistissem — e essa é uma boa oportunidade. Eu não posso recusar. Eles trocaram um olhar silencioso, daqueles que dizem mais do que palavras. — Se você acha que dá conta… — minha mãe respondeu, ainda insegura — então vá. Mas se cuide. Assenti, concordando, mas afirmei que daria conta. — Tenho que tentar mamãe, vou conseguir ,esse dinheiro vai ajudar em casa. Mas, pela primeira vez na minha vida… estava mentindo para minha mãe, não tenho certeza se realmente conseguirei.






