Mundo de ficçãoIniciar sessãoRespiro fundo, puxando o ar com força pelos pulmões na tentativa de manter o autocontrole emocional, mas a verdade amarga escapa pelos meus lábios antes que eu consiga construir qualquer barreira de proteção.
— A minha casa vai a leilão por falta de pagamento, Sabrina… nós temos apenas o prazo limite de dois meses exatos para conseguir levantar a quantia de cinquenta mil reais em dinheiro vivo, ou perderemos nossa casa, desabafo, sentindo as lágrimas quentes ameaçarem transbordar. — As paredes que sempre nos abrigaram e protegeram a vida inteira estão prestes a se tornar estranhas à nossa própria existência, e essa sensação constante de que vamos ficar na rua está me consumindo viva por dentro. Ela permanece completamente em silêncio por alguns segundos intermináveis, absorvendo o impacto daquela informação bombástica com uma serenidade fria, calculista e metódica que, confesso, me incomoda profundamente naquele momento de desespero. — O silêncio prolongado parece se estender ao nosso redor, fazendo com que cada segundo pareça um lembrete cruel do tamanho do abismo em que estamos caindo. — Eu posso resolver esse problema financeiro para você com facilidade, basta apenas que você aceite a minha ajuda e dê o sinal verde — afirma ela com uma convicção assustadora, olhando fundo nos meus olhos. Solto um riso curto, seco e totalmente desprovido de qualquer humor, passando a mão trêmula pelo rosto, completamente incapaz de acreditar que ela realmente esteja falando sério ou que ache que uma quantia dessa magnitude possa surgir do nada assim tão facilmente. — Deixe de brincadeira, Sabrina, nem eu mesma consigo enxergar uma luz no fim do túnel para resolver isso — respondo, sentindo a frustração e a impotência crescerem como uma onda agressiva dentro de mim. Ela não se abala com a minha incredulidade; pelo contrário, inclina o corpo ainda mais na minha direção, reduzindo o espaço entre nós e abaixando consideravelmente o tom de voz, como se o segredo que vai contar pudesse tornar a conversa menos pesada, embora produza o efeito exatamente inverso. — Eu consigo resolver, tenho contatos certos para isso, mas você precisa querer de verdade e ter estômago para encarar — diz ela, mantendo a firmeza magnética no olhar, como se seguisse rigidamente um plano estruturado que a minha mente atordoada sequer consegue vislumbrar ou imaginar. Franzi a testa imediatamente, tomada por uma mistura intensa de desconfiança, medo e confusão, buscando decifrar o que ela está insinuando nas entrelinhas. — Como assim você consegue? O que você está querendo dizer com isso? — pergunto, a curiosidade batendo de frente com um receio primitivo que arrepia todos os pelos dos meus braços. Sabrina sustenta o meu olhar penetrante por mais alguns instantes antes de se decidir a falar, exibindo uma determinação inabalável e fria em seu semblante que me deixa em alerta máximo. — Eu não trabalho apenas organizando festas ou atuando como promotora de eventos corporativos, como todo mundo na faculdade pensa — revela ela, jogando cartas na mesa. A frase seguinte está prestes a dinamitar todas as estruturas da minha realidade e mudar o rumo da minha vida para sempre. — Meu coração dá uma trombada violenta contra as costelas, o ar desaparece dos meus pulmões, e a dúvida se instala de forma aterrorizante: onde diabos ela quer chegar com essa conversa absurda? — Então você trabalha com o quê, afinal? — indago, incapaz de conter uma pontada aguda de incerteza e tremedeira na voz. — Eu sou acompanhante de luxo — as palavras dela caem com o peso e a força destrutiva de uma bomba atômica bem no meio da nossa conversa. O impacto dessa revelação é absolutamente avassalador, brutal e impiedoso; por um instante prolongado, fico completamente paralisada, estática, sem conseguir emitir nenhum som ou reação física, tentando desesperadamente processar o significado grotesco e chocante daquela confissão. — Você virou uma prostituta, Sabrina? É isso mesmo, o que estou ouvindo da minha melhor amiga? — questiono num sussurro incrédulo, sentindo a tontura tomar conta de mim enquanto a minha mente entra em parafuso completo diante da revelação. — Não me venha com moralismo barato, eu não fico com qualquer um na rua, eu escolho rigorosamente com quem eu saio e para quem dou atenção — corrige ela de imediato, defendendo-se com firmeza. — Eu trabalho exclusivamente com homens milionários, empresários poderosos, estrangeiros influentes e gente graúda que paga fortunas estratosféricas apenas por uma noite de boa companhia elegante. Foi exatamente essa atividade secreta que tirou a minha própria família da miséria absoluta e pagou as contas acumuladas lá em casa, com a diferença crucial de que os meus pais continuam acreditando que eu vivo de bicos honestos e eventos, pois eles não fazem a menor ideia de como eu realmente ganho o dinheiro que sustenta a nossa casa. — Ela profere todas essas informações com uma segurança inabalável e assustadora, deixando-me completamente atordoada, como se cada palavra fizesse parte de uma engrenagem fria pertencente a um plano muito maior e perigoso ao qual fui arrastada sem consentimento. Permaneço em um silêncio sepulcral, tentando desesperadamente encaixar essa nova e chocante realidade dentro da imagem limpa e admirável da pessoa que passei anos aprendendo a conhecer e respeitar. — A minha mente simplesmente se recusa a aceitar como a garota brilhante que sempre admirei na faculdade pôde se envolver voluntariamente nesse submundo de transações carnais. — E o que diabos a sua vida dupla tem a ver com a desgraça da minha família e com o leilão da minha casa? — pergunto, sentindo a cabeça latejar enquanto meus pensamentos fervem com a constatação aterrorizante de que posso estar perigosamente conectada a esse mundo marginalizado. Sabrina inclina a cabeça ligeiramente para o lado, avaliando-me com uma frieza estratégica que me causa calafrios na espinha dorsal antes de desferir o golpe final da sua proposta indecente. — Você é virgem, Mariana, e no circuito fechado e exclusivo em que circulo, a virgindade de uma garota jovem e bonita vale ouro em leilões privados para esses ricaços tarados — dispara ela, sem o menor pudor na voz. — Nesses eventos restritos e ultra secretos, eles fazem lances altíssimos disputando a honra de ser o primeiro, a casa organizadora fica com uma comissão de quarenta por cento do valor arrecadado, mas você ainda assim fica com a fatia maior, a bolada principal. Eu te garanto, sem sombra de dúvida, que você consegue levantar pelo menos uns cem mil reais limpos nessa única noite. — É dinheiro suficiente para quitar a dívida da sua casa e ainda sobra um capital alto para recomeçarem.






