####CAPÍTULO 03

A afirmação dela atinge os meus ouvidos de forma tão direta, crua e cortante que meu corpo inteiro se enrijece instantaneamente como se tivesse tomado uma descarga elétrica, enquanto um pavor primitivo e inexplicável domina cada célula do meu organismo.

— Sabrina… pelo amor de Deus, você perdeu o juízo completamente? — , lanço um olhar de pura reprovação e pânico, com a voz trêmula enquanto tento processar a dimensão monstruosa daquilo que ela acaba de sugerir em plena luz do dia.

— Escute o que eu estou te dizendo com calma e preste muita atenção — ela continua insistindo, adotando um tom imperativo, frio e irredutível. — Existem eventos corporativos e sociais estritamente privados onde homens bilionários pagam cifras astronômicas por exclusividade absoluta.

— E a grande vantagem disso tudo para a sua situação crítica é que você só precisa fazer isso uma única vez na vida.

Se você conseguir o dinheiro necessário logo no primeiro lance, acabou!

— Você resolve de uma vez por todas a vida financeira da sua família inteira, quita a porcaria da casa, e pronto, ninguém mais precisa saber jamais que aquilo aconteceu, pois tudo é acobertado por contratos pesados de sigilo absoluto e identidades preservadas.

Ninguém na faculdade, ou sua família vai saber que era você por trás do disfarce.

— As implicações morais, psicológicas e sociais daquela proposta descabida me deixam completamente paralisada, com a respiração suspensa na garganta.

Fecho os olhos com força por um instante prolongado, sentindo o peso esmagador daquela sugestão me comprimir o peito até a exaustão, exatamente como se uma tempestade violenta estivesse se formando dentro da minha alma, rasgando todas as minhas convicções éticas e valores morais construídos ao longo de toda a minha vida.

— Eu sempre sonhei… eu sempre quis que a minha primeira vez fosse algo especial, com alguém que eu realmente amasse e que me amasse de volta na mesma intensidade… — confesso, deixando escapar um lamento doloroso e frustrado, revelando o desejo mais íntimo, puro e profundamente enraizado em todo o meu ser, agora prestes a ser sacrificado na necessidade financeira.

Sabrina não demonstra qualquer traço de piedade ou romantismo diante da minha confissão dolorosa; pelo contrário, endurece ainda mais a feição e responde com uma franqueza cortante, seca e realista que destrói qualquer ilusão restante.

— Acorde para a vida, Mariana, pois nem sempre as pessoas que a gente ama de verdade têm condições de nos salvar ou se importam o suficiente quando a corda aperta no nosso pescoço — rebate ela, sem suavizar absolutamente em nada nas palavras.

— Quer saber de uma coisa?

Eu mesma perdi a minha preciosa virgindade acreditando em historinhas de amor com alguém que eu amava profundamente, entreguei-me de corpo e alma, e no dia seguinte fui descartada como se fosse um lixo imprestável.

— Infelizmente, as nossas emoções mais bonitas, os nossos sentimentos puros e as nossas ilusões românticas jamais garantem qualquer tipo de proteção real ou segurança financeira contra as rasteiras que a vida nos dá.

A realidade é dura, fria e cruel, e quer saber a maior verdade?

— Você pode usar exatamente essa mesma virgindade que tanto preza como uma ferramenta fria de resgate para salvar a sua família da ruína total e colocar um teto seguro sobre a cabeça dos seus irmãos.

As palavras duras e pragmáticas dela ecoam e reverberam dentro da minha mente como golpes de martelo, misturando uma dor dilacerante, um medo paralisante e uma revolta indescritível com uma verdade nua, crua e amarga que se torna cada vez mais difícil de contestar ou ignorar.

— Fico em absoluto silêncio, paralisada, enquanto desfilam diante dos meus olhos todos os fatores cruciais que estão em jogo neste exato momento: restam apenas dois meses até a concretização da perda irreparável da nossa casa; há um pai debilitado, machucado e deprimido em casa; uma mãe completamente entregue ao desespero chorando pelos cantos; e dois irmãos menores que dependem integralmente das minhas decisões para não terminarem jogados na sarjeta da rua.

É uma situação terrivelmente agonizante, um dilema moral dilacerante e sem saída aparente, mas é exatamente essa a realidade suja, implacável e real que preciso encarar de frente, sem filtros e sem ilusões românticas para me proteger.

— Respiro fundo, puxando o ar gelado dos meus próprios pulmões numa tentativa desesperada de reunir os últimos farelos de coragem que restam dentro de mim, e abro os olhos lentamente, encarando a minha amiga com uma expressão vazia, resignada e fria.

— Se eu aceitar entrar nessa loucura com você… vai ser mesmo só uma única vez, não é?

— E você tem certeza absoluta de que ninguém da minha família ou do meu círculo vai descobrir jamais quem eu sou por trás de tudo isso? — pergunto, a voz saindo num sopro frágil, rouco e quase inaudível, carregando o peso de uma rendição irrevogável.

— Sim, eu juro para você que será estritamente uma única vez, desde que você dê a sorte grande no leilão e algum bilionário pague o lance alto o suficiente para arrematar a sua noite de estreia logo de cara — confirma Sabrina, assentindo firmemente com a cabeça, com um misto de alívio e triunfo nos olhos.

O silêncio denso e pesado que se estabelece imediatamente entre nós duas logo em seguida não carrega mais o vazio da dúvida; pelo contrário, transforma-se no som pesado de uma sentença irrevogável, com a minha decisão definitiva sendo forjada a ferro e fogo diretamente a partir do peso esmagador da necessidade, da fome e da ruína iminente da minha família.

— Está bem… eu aceito ir com você para esse lugar — digo, fechando os olhos e sentindo a minha antiga vida ruir para sempre. — Farei isso, quer eu queira ou não. Farei qualquer coisa para salvar a minha família da rua.

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