Mundo de ficçãoIniciar sessãoRobin
― Miss Alienígena, que tal buscar fritas para nós lá no seu novo trabalho? ― Jean diz deitada na minha cama. Estamos aproveitando os últimos momentos porque ao que tudo indica minha colega de quarto chega entre hoje e amanhã, e amanhã começa as aulas e meu primeiro dia de trabalho. Ansiedade me define. ― Posso. ― Como você vai, eu pago. ― Não precisa pagar. ― Precisa sim. Você vai andar uns vinte minutos. Lei da justiça. ― Se levanta da cama e me entrega o cartão e o seu celular com fones de ouvido, o mesmo que estávamos ouvindo música há minutos. ― A senha é o ano em que estamos e pode ir ouvindo música, assim nem vai sentir o caminho. ― E você? ― Estou de boa. Vou tirar um mini cochilo na sua cama. E eu fui. Gente, música é a melhor coisa. Até melhor que chocolate. Eu amo música. Até mesmo quando morava com Richard às vezes ele me permitia ouvir quando não estava em casa. Eram meus melhores momentos. Ouvir música me permitia sonhar. Eu podia ir para um mundo em que ele não estava, onde eu era uma mulher forte que salvava outras mulheres de destinos como o meu, onde eu estudava tudo que queria, lia muitos livros e nunca sentia dor. E foi para esse mundo que viajei. Só que esqueci que não estava mais entre quatro paredes. Quando vi já tinha esbarrado nele. Um rapaz muito alto e musculoso gritava comigo. Não o culpo. Fiz com que derramasse bebida na blusa branca que colou ao seu peito. E havia pipoca ao nosso redor. Ele disparou a falar palavras feias e tudo que consegui foi pedir desculpas e encarar meus pés. Eu devia saber que estava protegida, mas só conseguia ouvir os gritos de outro homem e antecipar a dor física que viria. ― Sente porra nenhuma. Ou pelo menos olharia na minha cara para dizer. ― Quando ele disse isso eu o encarei. Como todos, seu olhar foi direto no meu olho machucado. ― Pelo jeito não é a primeira vez que faz merda. Esse olho roxo ai é da última vez que ... Ele começou a dizer e isso me fez dar um passo para trás, pronta para fugir. Foi quando me lembrei do motivo pelo qual fugi daquele homem. Eu não quero mais ter medo e não terei. Fiz minha melhor cara de corajosa e o enfrentei dizendo: ― Já pedi desculpas. Sei que cometi um erro. ― Você terá que pagar por isso ― disse. Não pareceu nem um pouco impressionado com minha cara de corajosa. ― Quanto é? ― questionei. Espero que não seja caro as coisas e se for para lavar suas roupas também eu mesma lavo. Ele não respondeu de imediato, colocou a mão no queixo e ficou me encarando com seus olhos castanhos. Parecia me analisar. ― Uma trepada gostosa paga. ― Finalmente responde, me fazendo dar outro passo para trás. Eu sei muito bem o que significa trepar, e nunca mais deixarei nenhum homem me tocar desse jeito. Só de lembrar do corpo daquele homem sobre o meu, só quero... nem sei. Me sinto tão suja só de imaginar. ― Na sua cama ou na minha? ― o idiota continuou falando. “Nunca mais!” Afirmava dentro de mim. E antes que ele tentasse me forçar a algo, gritei e corri. ― São todos iguais! Ainda bem que ele não me seguiu, mas pude ouvir sua resposta. ― Ainda me deve ― gritou. Nem olhei para trás. Se ele tentar fazer alguma coisa grito, chamo a polícia, faço o que for. Pode ter poucos dias que escapei das amarras, mas antes disso eu já sabia que tinha direitos. Claro que não naquela comunidade, não enquanto aquele homem pudesse evitar. A única coisa que preciso fazer é não depender de ninguém, assim ninguém pode me machucar sem sofrer as consequências. Fiquei tão atordoada que comprei os lanches e voltei com o celular e os fones no bolso, com as músicas tocando. Não contei nada para Jean. Apesar dela ficar me dizendo que me sentiu voltar estranha. Só respondi que nada de anormal aconteceu. Hoje não consigo contar, talvez depois, quando essa enxurrada de lembranças doer menos. Os próximos dias passei com medo, como se a qualquer momento ele pudesse aparecer para me cobrar. Exigindo de mim, como aquele homem fazia. Eu não sou propriedade. Muito menos sou fraca. Só preciso me convencer disso, depois de uma vida toda sendo ensinada do contrário.






