3- O contrato

Elena Sokolova

O quarto do hotel é lindo e luxuoso, nunca entrei em um lugar como esse.

Pego meu celular e vejo uma mensagem de Patrick:

“Não acredito que aceitou a oferta desse estranho.”

“Amiga, estou preocupado com você. Quero que me mande sempre uma foto e sua localização, por favor.”

Sorrio ao ver as mensagens dele. Meu coração se aquece ao saber que meu amigo se preocupa comigo. Respondo dizendo que estou bem. Mando a foto e a localização, como ele havia pedido.

Volto a observar o cômodo, e quando estou distraída, observando cada detalhe, ele abre a porta do banheiro, saindo apenas com uma calça preta.

O corpo dele parece que foi esculpido, cada movimento ressalta seus músculos e eu desvio o olhar. Não quero ficar encarando-o nem admirando-o para que não acredite que terá algo mais comigo. Apesar que para esse homem eu poderia abrir uma exceção.

— Preciso que você me conte a sua história para que eu possa ajudá-lo — falo, quando ele pega o telefone do quarto para pedir comida.

Estou sentada na cama, usando um vestido leve na cor creme que vai até os joelhos. Ele desliga o telefone e se senta na poltrona próximo a porta de vidro que dá para a varanda.

— O que quer saber? — pergunta, sua voz grave e imponente mesmo com uma pergunta tão simples.

Ele apoia o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo e recosta, apoiando uma das mãos sobre a coxa. Seus olhos verdes me fuzilam e por um segundo esqueço o que ia perguntar. Um sorriso safado cruza o rosto dele e eu sei bem o que passa por sua mente.

Procuro me concentrar em outra coisa que não seja o seu peito nu.

— Sobre a mulher que você quer fazer ciúmes, sobre a festa, as pessoas que vão estar lá e o que você espera que eu faça.

Ele mantém a pose despojada ao me responder.

— Ela é minha ex-mulher. — Começa. — Seu nome é Anya Lebedeva. Tivemos um relacionamento de cinco anos, dele nasceu minha filha de três anos, Zara Voronov.

Aceno em concordância.

— E vocês não estão juntos há quanto tempo? — faço a pergunta, remexendo-me, pois o olhar dele me aquece. Não sei se é proposital, mas Mikhail me olha nos olhos enquanto fala.

— Poucos meses. — O homem se coloca de pé e anda na minha direção. — A reunião é hoje à noite, acho que devemos combinar algumas coisas.

O tom de voz dele é firme e não dá espaço para que eu negue, e na verdade, nem posso fazer isso. Estou aqui para ser a sua falsa namorada, e eu creio que teremos mesmo que treinar a nossa aproximação.

— O que precisamos praticar? — pergunto, também me levantando.

Ele passa a mão pela minha cintura e me puxa para que eu cole meu corpo no dele.

— Quando eu fizer isso, você não pode fazer essa cara de assustada. — Um pequeno sorriso brinca na face dele.

— E como eu devo agir então? — Forço minha voz a sair e mesmo assim ela sai vergonhosamente rouca.

Ele pega uma das minhas mãos e a coloca sobre seu peito e se aproxima mais de mim. Prendo a respiração.

— Você vai sorrir — diz simplesmente. — E depois me beijar.

Os lábios dele se aproximam dos meus e eu fico paralisada. Ele vai me beijar e eu não sei como agir. Posso sentir o calor da respiração dele se misturar a minha, uma de suas mãos descem da cintura, indo para  meu quadril e minha coxa.

Sei que é apenas uma cena, um ensaio, mas meu corpo parece não entender e se aquece, as pernas estremecem e me sinto molhada. Droga. Vou sair machucada dessa brincadeira.

Quando sua boca estava a milímetros da minha, batem na porta e ele me solta. Caio sentada no carpete fofo.

Ele simplesmente vira as costas e vai até a porta, abre e um funcionário do hotel entra com um carrinho de comida. Com as bochechas coradas de vergonha, me coloco de pé. Fingindo que eu só estava sentada no chão.

Discretamente, esfrego a bunda. O tapete pode ser fofo, mas não é anti-impacto.

Mikhail empurra o carrinho para perto da cama. Nem mesmo olha para mim. Fico o observando incrédula, enquanto enche um prato com guloseimas. E eu achando que ele voltaria para continuar o que começamos.

“Nem mesmo vai pedir desculpas pela indelicadeza?”

— Não vai vir comer? — questiona de boca cheia, sem olhar na minha direção.

Me aproximo dele e me sento ao seu lado, pegando um prato também.

— Não te educaram na infância? — questiono e Mikhail me olha de esguelha, parando de mastigar. — Não falar de boca cheia; oferecer a comida; pedir desculpas quando for indelicado com uma pessoa, principalmente quando essa pessoa cai de bunda no chão. — Alfineto.

Ele volta a mastigar e agora ele tem um olhar divertido.

— Eu fui educado, sim. Não achei que você fosse de vidro. — Ele volta a sua atenção para o prato.

Encaro-o por um tempo. Homem arrogante. Mas lembro-me que neste momento ele é como meu chefe, então fecho a boca e começo a me servir.

A refeição segue em silêncio. O funcionário do hotel vem buscar o carrinho de comida e Mikhail deita-se na cama.

— É melhor descansar — fala ele de olhos fechados.

— Posso saber onde? — inquiro de braços cruzados, pois está parecendo uma estrela do mar no centro do colchão. — A cama é grande, mas você também é.

Ele ri de forma contida, o som retumbando em seu peito. Mikhail se vira de lado, os olhos ainda fechados e o sorriso debochado brincando em seu rosto.

— Descanse — repete, como se estivesse dando uma ordem. — Antes de sairmos para a reunião vamos treinar mais um pouco.

Determina e eu não tenho o que responder. Agora, estou em seu território, à sua mercê... e com um contrato para cumprir. Então, só me resta descansar e me preparar para o que virá.

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