2- O amigo

Elena Sokolova

Levei um susto enorme, mas era apenas Patrick. Um amigo que trabalha na boate. Baixo o vidro para falar com ele.

— Você quer me matar de susto? — falo, colocando a mão sobre o coração.

Ele gargalha.

— Vim saber o que está acontecendo? Pelo visto o velhinho acabou de falecer.

Eu vinha falando que precisava de um carro novo há algum tempo, e ele com certeza se lembrou disso.

— É só a bateria — respondo e ele faz bico.

— Vem, vou te levar para casa.

Patrick abre a porta do meu carro e gesticula para que eu saia do veículo como se eu fosse uma criança de três anos.

— Mas e o seu trabalho? A casa está cheia esta noite! — protesto, pois não quero atrapalhar a vida de um amigo querido como ele.

Patrick está sempre perguntando por mim, como estou ou se preciso de algo. Ele é um bom amigo.

— Esta noite tem mais héteros que de costume. E mesmo que tivesse ocupado, acha que deixaria minha amiga na rua?

Dando graças a Deus por ter me enviado uma boa alma para me ajudar, não questiono mais e saio do veículo. Ele me leva para casa, e no caminho conto sobre o tal cliente.

— O que você acha, Patrick?

Os olhos azuis dele estão fixos na pista à sua frente. O cabelo loiro curto com uma franja jogada de lado o deixa com um perfil muito bonito, enquanto dirige e pensa na história que contei. Ele não me pareceu muito feliz com a proposta.

— Eu tomaria cuidado — diz ele por fim. — Proposta boa demais, me deixa desconfiado.

— Sergei disse que ele assina um contrato para me deixar mais segura.

Patrick me olha de lado.

— Sergei quer dinheiro. Com certeza uma parcela da grana prometida vai para o bolso dele. — Ele passa os dedos com unhas feitas e pintadas de rosa claro pela franja para ajeitá-la. — E para alguns homens, contrato é só um pedaço de papel. Não vale nada.

Penso nas palavras do meu amigo e suspiro fundo. Fico muito dividida com a proposta. Viro o rosto para a janela, observando as ruas escuras iluminadas pelos postes cada vez mais esparsos conforme nos aproximamos do bairro onde moro. Um local simples, com vários prédios de apartamentos pequenos.

— Chegamos — diz ele, que havia se mantido quieto na maior parte do caminho.

— Obrigada, Patrick — agradeço e beijo a sua bochecha.

Abro a porta e saio do carro dele.

— Pensa no que eu te falei — grita ele, quando já estou a alguns metros de seu carro.

Aceno e prossigo em meu caminho.

Quando abro a porta do meu apartamento, vejo um envelope. Respiro fundo e o pego, prevendo que não havia nada de bom dentro dele.

Me sento sobre a cama de solteiro que fica logo ao lado da porta e o abro, me preparando para o que estava por vir. Meu coração para ao ver a ordem de despejo.

Tenho 24h para pagar o aluguel do meu apartamento que está atrasado três meses. Se não quitar a dívida, eu devo deixar o apartamento imediatamente.

O inverno é um período difícil, poucos clientes em noites frias demais, e fiquei muitas noites sem dançar. Se eu não danço, não recebo. Isso gerou dívidas, que me fizeram atrasar o aluguel, e eu contava com a renda extra do verão para acertar tudo, mas as coisas fugiram completamente do plano.

Deito-me sobre a cama, fecho os olhos e pego o celular. Fico tentada a mandar uma mensagem para o meu chefe, mas meus dedos hesitam.

Sei que não tenho outra alternativa senão aceitar a proposta do cara estranho, mas algo parece segurar meus dedos. Parece ser o melhor a se fazer, porém soa estranho. É como Patrick falou: uma proposta boa demais.

Penso nas minhas outras alternativas e a única que encontro é deixar o apartamento e vagar pela rua. Uma ideia vem à minha cabeça: pedir um adiantamento. Se ele não concordar, não tenho motivos para aceitar.

Mando a mensagem para Sergei explicando minhas condições e tento dormir um pouco.

Se o homem aceitar, terei como pagar a dívida e minha sorte estará nas mãos do destino.

***

Estou com meu melhor vestido, aguardando Mikhail no aeroporto. É claro que o homem iria aceitar.

Quando despertei das minhas poucas horas de sono, o equivalente a um ano do meu trabalho como dançarina já estava na minha conta.

No meu email tinha as instruções enviadas pelo próprio homem, Mikhail Voronov, um empresário conhecido e respeitado na região.

Jamais passaria pela minha cabeça um dia viajar ao seu lado, e ainda fingindo ser sua namorada.

Um pouco antes de sair de casa, assinei virtualmente o contrato enviado por ele e paguei a minha dívida. Um carro me aguardava quando deixei o apartamento e agora espero a chegada dele para seguirmos viagem.

Estou sentada com minha pequena mala ao meu lado quando o vejo. O homem é alto, com uma aura masculina forte e sedutora. Cada passo dele tem firmeza, força e confiança. Ele emana liderança e presença.

As feições dele são marcadas, duras, com uma barba bem aparada preenchendo a parte inferior de seu rosto.

A camisa branca com as mangas dobradas até o antebraço, parece destacar sua postura imponente, com as costas retas e queixo erguido.

Os cabelos loiros-escuro curtos, óculos escuros e um sorriso que me abala por dentro.

Não me movo enquanto ele se aproxima, arrastando uma mala preta de carrinho. Estou completamente petrificada com a presença dele.

— Você deve ser Elena. — Sua voz grossa me tira de meus pensamentos. Pisco os olhos algumas vezes, voltando à realidade.

Ele retira os óculos, e sem ele o homem é ainda mais bonito.

— E você deve ser Mikhail. — Fico de pé e estendo a mão. Ele a aperta e sorri, um sorriso deslumbrante.

— Vamos, o voo deve sair em alguns minutos.

Sua mão envolve a minha, e é como se uma onda elétrica percorresse meu corpo a partir daquele toque. Tento conter o nervosismo.

Preciso me lembrar que a partir de agora sou namorada deste homem. Rico e conhecido, é claro que teriam repórteres registrando a nossa caminhada pelo aeroporto. Eu não havia pensado sobre isso, e em como seria a minha vida depois desse pequeno evento.

Respiro fundo e sorrio para os fotógrafos, assim como ele. Agora, vou ter que descobrir.

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