A vingança do mafioso
A vingança do mafioso
Por: Flávia Saldanha
1- A dançarina

Elena Sokolova

Meu quadril gira, meu corpo ondula e encosto a bunda no calcanhar por alguns segundos. Um mar de vozes explode, quente e agressivo.

Movimento os braços com fluidez e repito o movimento, dessa vez de frente e, quando estou abaixada, faço movimentos com os joelhos abrindo e fechando as pernas.

Jogo os ombros para frente e balanço os seios. Xingamentos e palavras como “gatinha” e “venha aqui, linda” são as que eu mais ouço nesses momentos.

O nojo embrulha meu estômago, mas tento afastar o pensamento daqueles homens asquerosos.

As luzes coloridas e pulsantes refletem em meu corpo, como uma onda alucinante de rosa, roxo, vermelho... todas aquelas cores girando quase me deixam tonta. A fumaça e o cheiro enjoativo só pioram a minha situação, mas preciso aguentar... só mais um pouco.

A música alta lateja em meus ouvidos, o assobio dos homens preenchem o ambiente e o dinheiro deles estão espalhados pelo chão ao redor. Aquelas são minhas gorjetas, pego-as e as coloco na lateral da calcinha preta.

Rebolo exibindo as notas e isso só os incentiva a gritarem mais.

— Você é minha.

— Quero ouvir você gemendo no meu ouvido.

— Mostra mais, anjinha.

A música termina. Acabou o show. Graças!

Lanço um beijo no ar e saio do palco, rebolando.

Desço as escadas e sigo pelo corredor que me leva ao camarim.

O suor gruda em meu corpo e eu preciso urgentemente de um banho. Quando saio do box do banheiro, envolvida em uma toalha, me surpreendo em ver meu chefe, Sergei Malenkov, me aguardando. Ele é um homem alto, magro, mas com um pouco de barriga, careca e a barba grisalha.

— O público adorou o show de hoje. — Começa, levantando-se da cadeira giratória na qual estava sentado. — Sem dúvida a top das dançarinas da boate. Poderia ter o mundo a seus pés, se fosse mais maleável.

O analiso bem. Ele nunca vem ao meu camarim sem ter um bom motivo.

— Nem precisa falar da proposta. Você sabe que eu não faço programa. — Sou direta, pois sei que sempre que ele vem com essa conversa, é porque algum cliente da boate me viu dançar e quer algo mais.

Mas eu só danço. Só isso.

Tiro a toalha da cabeça, jogando meus cabelos para frente e os seco, esfregando os fios castanhos escuros com a toalha branca.

— Essa proposta é diferente. Vem de uma pessoa importante — diz ele, mas eu sei que no fim, a intenção é a mesma.

— Até o cara pedir pra passar a noite comigo.

Não me interessa quem é a pessoa.

— Dessa vez é diferente mesmo. — Enquanto ele fala, me sento na cadeira giratória que ele havia estado segundos antes, me viro para o espelho da penteadeira e começo a secar o cabelo. Ele continua. — Ele só quer fazer ciúmes e achou que você seria a pessoa perfeita para isso.

— Fazer ciúmes? — Desligo o secador e volto a atenção para o meu chefe.

Ele me entrega um iPad em minhas mãos. Na imagem capturada pelas câmeras de segurança da boate, o homem mais lindo que já vi na vida. Os cabelos loiro-escuros, maxilar forte e olhos verdes. Um homem enorme, quase dois metros de altura.

— Exatamente. — Ele dá de ombros e gargalha, vendo o quanto fiquei fascinada pela beleza do homem. — Mikhail Voronov, simplesmente o bilionário mais cobiçado da Rússia. E veio ao lugar certo, encontrar com a mulher certa para o serviço.

Como me mantenho calada, ele se afasta um pouco, caminhando lentamente pelo cômodo, enquanto volta a falar.

 — Parece que ele ainda gosta da ex-mulher, e quer fazer ciúmes para ver se ela ainda gosta dele... alguma coisa assim. — Ele pega o iPad da minha mão. — E não há outra mulher melhor que você para esse serviço. Sabe que as mulheres morrem de ciúmes de você.

— E qual foi a proposta? — Volto a ligar o secador.

— Você vai viajar com ele. Terá uma reunião com as pessoas do ramo, onde a ex-mulher dele vai estar presente. Ele quer que você finja ser sua namorada. Muito apaixonada. Só isso.

Através do espelho encaro os olhos claros dele.

— E quanto ele vai me pagar por esse serviço?

Sergei dá uma risada, como se fosse uma verdadeira loucura o que está para dizer. Mas ao mesmo tempo parece nervoso.

— O que você ganharia em um ano como dançarina... por noite. — Frisa a última informação, entregando-me o iPad novamente, com o valor brilhando na tela. É muito dinheiro. — Um pagamento muito generoso.

Balanço a cabeça em negação.

— Esse cara vai querer que eu faça programa com ele. Vou estar sozinha em um quarto de hotel, não vou ter como me defender. Não. Não vou aceitar.

Coloco o aparelho de lado e pego a escova, começo a escovar meu cabelo, as ondas se formam, espalhando-se por meus ombros.

— Deixe de ser boba, garota. Quando terá outra oportunidade como essa? E ele garantiu que é um contrato sem sexo. Disse até que, se você quiser, podem assinar um documento com os termos do acordo.

— É sério isso? — Volto-me para meu chefe novamente.

Ele se aproxima de mim e coloca a mão sobre meu ombro.

— Nunca vi uma proposta como essa. Vai para casa e pensa com calma. Preciso da resposta de manhã bem cedo.

Aceno em concordância e ele se vai, me deixando sozinha no camarim.

Encaro meu rosto no espelho por alguns segundos antes de terminar de me arrumar. Minutos depois estou deixando a casa de show. O cheiro azedo do álcool atinge minhas narinas, fazendo minha cabeça girar somente com o fedor, enquanto atravesso o corredor para a saída.

É madrugada, a maioria das pessoas ali dentro já estão com altas doses de álcool na cabeça e algumas drogas na corrente sanguínea. Agora, as dançarinas são prostitutas prontas a atender aquele que as desejar.

Saio pelos fundos, apertando o casaco velho ao redor do meu corpo.

É julho na Rússia, início do verão, mas a noite ainda faz bastante frio.

Entro no meu carro velho e dou a partida.

Ele não liga, nem dá sinal de vida.

“Droga, deve ser a bateria.”

Saio do veículo, levanto o capô, aperto as conexões da bateria e volto a tentar, mas nada. Mais uma vez o carro dá nem sinal de vida.

Bufo e encosto-me nele, observando a rua deserta.

Ao longe carros passam lentamente, como se me observassem aqui... sozinha. Estremeço com o pensamento. É uma área perigosa, então há várias histórias de assalto ou coisas piores.

“Como vou sair daqui sem um carro a essa hora da madrugada?”

Chuto a porcaria do pneu que também está gasto e precisando ser trocado. A frustração me domina e urro de raiva ao dar mais dois chutes na lata velha.

— Maldito!

Meu pensamento vai na proposta do tal cara. Seria a solução dos meus problemas. Poderia até mesmo comprar um carro novo.

Abro a porta do meu velhinho e entro no veículo, sem ter uma opção melhor do que esperar a hora passar e chamar um mecânico.

Acomodo-me no banco inclinado, fecho os olhos para tentar tirar um cochilo, mas aquela sensação estranha não me abandona. Tento afastar meus pensamentos, mas a imagem do carro circulando a uma certa distância, lento demais, me deixa inquieta.

Minha mente está quase desligando quando uma batida na janela do carro me faz saltar no banco de susto.

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