Mundo ficciónIniciar sesiónEdward Portman, um empreiteiro sedutor e bem-sucedido, retorna a Nova York mais uma vez para finalizar a compra de um condomínio de luxo. Porém, ao descobrir que o dono é o marido de sua amante, ele se vê em uma situação complicada. Para evitar escândalos, Edward propõe um acordo ousado a Milena Christian, uma arquiteta grávida, solteira e melhor amiga de sua irmã. Se ela concordar em fingir ser sua esposa, ele assumirá a paternidade de seu filho. Mas será apenas um jogo de aparências? Plágio é crime. Direitos reservados. Não recomendo para menores de 18 anos.
Leer másMILENA CHRISTIAN
O vento carrega consigo uma temperatura úmida e morna, e traz o cheiro da terra molhada e o gosto metálico de folhas em decomposição. Os meus cabelos dançam com a brisa, e por um momento, tudo parece suspenso, como se o tempo tivesse esquecido de passar por aqui.
Lá fora, a paisagem se derrama em cores que parecem ter sido escolhidas à mão: laranjas preguiçosos, amarelos vívidos e vermelhos quase escandalosos. O outono, sempre ele. Nenhuma outra estação tem o atrevimento de ser tão bela justamente por estar morrendo.
Sempre disse que era a minha época preferida, e não por hábito poético. É que há uma certa franqueza nas folhas que caem sem resistência, nos galhos que aceitam o desnudamento com dignidade. Nem a primavera, tão ruidosa em sua juventude, nem o inverno, tão dramático, me dizem tanto.
Hoje, no entanto, essa beleza me parece uma bela e irônica afronta.
Fecho a janela de vidro com um estalo suave, como quem confessa sem voz: já basta. Algumas folhas entraram, de todo modo, e repousam sobre o carpete claro como pequenos epitáfios úmidos, na mesa, o álbum aberto e muito antigo, espera por mim com uma paciência cruel. Ao lado, o envelope ainda lacrado, aquele que eu deveria ter rasgado no momento que eu recebi, mas que optei por fingir que era apenas papel.
Suspiro e passo os dedos, delicadamente, sobre a peça dourada que adorna o meu dedo anelar, e embora eu me arrependa amargamente por continuar com ele, eu não posso evitar o sentimento de solidão que manifesta no meu coração sempre que eu o retiro.
Encosto os dedos na aliança, ainda presa ao meu anelar como uma cicatriz polida. Eu deveria tê-la tirado há meses, talvez anos, mas sempre que o faço, o frio na mão se espalha para o peito, e então eu cedo, outra e outra vez.
Dois anos em que repeti para mim mesma que estava melhor, que estava pronta, que seguir em frente era só uma questão de tempo e obstinação, como um mantra gasto que perdeu o sentido de tanto ser recitado.
Mas hoje, algo mudou, ah, com certeza mudou, eu não tinha nem dúvidas disso, ou talvez eu apenas tenha coragem de admitir que, apesar de tudo, ainda espero. Espero um gesto, uma explicação, um retorno à normalidade — ainda que falsa, ainda que só por um dia.
Fecho os olhos e o álbum também com força, tal igual quem fecha uma ferida antes que sangre outra vez.
Três toques suaves e a porta se abre antes que eu possa reagir.
Sra. Bunion entra com a mesma precisão de sempre. O coque impecável, o tailleur cinzento, a postura que não se permite vacilar nem quando o mundo ao redor desaba. Há ternura na sua face mas camuflada sob camadas de controle, o que presumi que ele sabia, mas com certeza não sabia.
Ela não diz nada, e eu também não.
Mas penso, com a mesma ironia silenciosa de sempre: — Não é um bom momento para você estar aqui, Elisabeth. Mas, afinal, quando foi?
O coque de Elizabeth parecia mais apertado do que o necessário, como se segurasse não apenas os cabelos, mas também o que lhe restava de paciência, vestia também o habitual: terno com saia cinza opaco que combina com o tom do seu cabelo, sóbrio demais para ser elegante, formal demais para ser ignorado.
Hoje rosto trazia aquela expressão neutra — não exatamente amável, mas também sem as bordas cortantes da autoridade severa. Ainda assim, a rigidez nos ombros traía a sua natureza: seja lá o que fosse que havia tirada a sua paciência, eu definitivamente não estava em um bom momento para ouvir desabafos.
E naquele momento, sua presença me soava inadequada, intrusiva, quase ofensiva.
— Milena, imaginei que estivesse de folga hoje — disse, sem esperar resposta, fechando a porta com a firmeza de quem sabe que não será convidada a entrar. Caminhou até a janela e ficou ali, imóvel, contemplando o cenário que a minha sala oferecia como um quadro estático. — Por que não veio ao meu gabinete quando pedi? Julguei que estivesse passando mal. Como foi a ida ao hospital?
— Perdão, Sra. Bunion, estou um pouco ocupada — respondi, com um aceno vago em direção aos projetos espalhados no estirador do outro lado da sala.
Ela, porém, não olhou para eles. O olhar foi atraído pelo buquê de tulipas, abandonado no lixo como algo vergonhoso. Aproximou-se e tocou as pétalas ainda frescas, rubras demais para passarem despercebidas, em seguida, os olhos dela encontraram o envelope aberto sobre a mesa. Num reflexo quase desesperado, empurrei-o de volta para dentro da sua casca.
Tarde demais.
Minha mãe adorava tulipas, era quase uma devoção quase infantil. Meu pai sabia disso. Nos seus aniversários, mesmo nos últimos, mesmo quando o câncer já tinha nome e forma, ele inundava o quarto com elas: brancas, amarelas, cor-de-rosa, como se as flores pudessem disfarçar a morte que já estava ali, sentada ao pé da cama.
Hoje ele trouxe as vermelhas. Amor eterno, dizem.
Hipócrita.
— Percebo — disse ela, erguendo-se com a mesma dignidade impassível de sempre, fitou-me por um breve instante e virou-se já saindo. — Enrique a aguarda na entra principal, presumo que não queira deixá-lo esperando, então.
E então se foi.
Esperei o som dos saltos dela sumir pelo corredor antes de me mover. Fitei o envelope, como se ele fosse capaz de encarar de volta, as tulipas continuavam no lixo, o álbum, fechado, ambos no lugar certo.
Quanto a Enrique, esperava por mim. E eu... ainda não sabia o que esperar dele, esperei então alguns segundos antes de levantar da cadeira e fiz questão de encarar profundamente o envelope.
Talvez eu esteja a ser pessimista em excesso, talvez as coisas não sejam tão más quanto aparentam — ou, no mínimo, não fiquem assim para sempre. A esperança, quando silenciosa, é um vício disfarçado de lucidez, certo?
Vesti o sobretudo escuro que repousava ao lado da porta para me proteger dos ventos úmidos e peguei o envelope, o celular, a bolsa e deixei o escritório sem olhar para trás.
Assim que saí, o visor do celular acendeu com uma série de notificações: chamadas perdidas da Ruby, mensagens escritas com urgência, quase desespero. Sophia também me escreveu, até o meu pai, todas eram curtas, mas nada que eu deduzisse que merecesse que eu deixasse esse assunto para atender-los, não, sem dúvidas eu precisava dar atenção a algo mais íntimo: lidar com o meu próprio naufrágio.
Enrique Bunion
Ex-marido. Palavra feia. Fria. Técnica demais para alguém que foi tanta coisa.
As minhas amigas vão surtar, julgar-me, inevitavelmente, e o meu pai... Santo Deus, ele vai me julgar em silêncio como sempre fez quando não concorda com uma decisão minha.
Eu nunca escolhi amar Enrique, pelo menos não conscientemente. Ele foi, aos poucos, tornando-se o único lugar onde eu descansava e, paradoxalmente, a fonte de todas as minhas noites mal dormidas.
O abrigo e a tempestade em uma só caixinha.
Respirei fundo antes de cruzar o corredor que conduzia à saída da empresa, chovera durante toda a manhã, e agora restavam apenas pingos tímidos, indecisos quanto à permanência, o ar estava saturado e morno demais para ser confortável.
Assim que empurrei as portas de vidro, a brisa fez alguns fios de cabelo escaparem do meu rabo-de-cavalo e cobrirem o meu rosto. Levei-os para trás da orelha com a lentidão tentando ganhar tempo ou coragem, no estacionamento quase vazio, apenas um carro branco se destacava.
— Você não pode ser covarde agora — murmurei para mim mesma, e a minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Alguns segundos passaram e então o motorista dele saiu primeiro, formal até o último botão, caminhando até a porta traseira que abriu com reverência.
E então, ele surgiu.
Alto. Sempre alto demais. Um desses homens que impõem presença antes mesmo de falar.
O terno preto escondia o corpo que eu conhecia em cada detalhe, mas nem por isso o tornava menos imponente. Os sapatos envernizados refletiam a luz difusa do fim de tarde, o relógio no pulso denunciava o executivo bem-sucedido que ele se esforçava para parecer, e era. Enrique era, e sempre foi, desgraçadamente belo. Os cabelos negros, com discretos fios prateados que o tempo presenteou, destacavam-se contra a pele clara, que o sol parecia ter beijado apenas de leve, e os olhos... Ah, os olhos castanhos.
Se havia um pecado ao qual eu me rendia com prazer, era aquele olhar. Eles prendiam, sugavam, desarmavam, e eu, que sempre fui racional até certo ponto, mas nunca consegui não afundar neles.
Ele sorriu, um sorriso lento, quase ensaiado, e ainda assim absurdamente eficaz. Do tipo que deveria ser proibido em reencontros. Respirei fundo. Só então percebi que estava prendendo o ar desde que o vi sair do carro.
Seus passos eram suaves, quase gentis, e então ele parou diante de mim, e por um instante o mundo pareceu inclinar-se em torno do seu perfume.
Fiquei ali. Parada. Estática.
— Olá, meu amor — disse ele.
E o modo como pronunciou fez com que todos os meus muros internos tremessem, como se nunca tivesse deixado de me chamar assim, como se ainda fosse o seu direito.
MILENA CHRISTIANO meu coração acelerou, mas mantive a expressão serena para fingir que não lembrava do que ele estava fazendo há minutos atrás. Era o que eu sempre fazia, mesmo quando ele conseguia tirar o meu fôlego com tanta facilidade. Seguir ao lado dele parecia ser a coisa mais natural do mundo, mesmo que o motivo por trás de tudo fosse uma grande mentira.Caminhamos pelo espaço da festa, e eu podia sentir os olhares seguindo os nossos passos. Edward era magnético, e estar ao lado dele era como ser arrastada por um redemoinho — impossível de ignorar, impossível de escapar. Ainda assim, a maneira como ele me olhava de vez em quando, com aquele brilho quase brincalhão nos olhos, fazia com que eu me sentisse, por um breve momento, a única pessoa naquele lugar.Quando finalmente paramos diante de um pequeno grupo de pessoas, ele soltou a minha mão, mas não sem antes deslizar o polegar pelo dorso dela, como um gesto de despedida. Não sabia se ele fazia isso de propósito, mas aquilo d
MILENA CHRISTIANApós me recompor do breve incidente no quarto, voltei para a área das piscinas. Respirei fundo, tentando recuperar alguma aparência de normalidade. Preferi não voltar para a água e sentei-me em uma das mesas que ficavam estrategicamente posicionadas à sombra de olhares, com uma vista privilegiada da piscina e dos convidados. Observei o ambiente enquanto tentava me distrair, o grupo de mulheres ainda estavam na piscina, evidentemente ainda fofocando, Enrique e Emma estavam do outro lado, conversando aparentemente com alguns convidados e...Um garçom aproximou-se de repente, bem-educado, querendo saber se eu queria beber alguma coisa, já que nem consegui pegar a bebida que a Emma havia pedido para nós. Levantei o olhar para ele e pedi um coquetel sem álcool, algo refrescante que combinasse com o calor sufocante do ambiente e a temperatura fria do outro lado da parede. Ele concordou prontamente, inclinando levemente a cabeça antes de se afastar. Fiquei acompanhando-o p
MILENA CHRISTIANPassei com passos apressados, mantendo o rosto bem erguido. Ela estava ao lado do marido, mas sua postura não era nem um pouco relaxada. Era como se estivesse pronta para atacar, para usar qualquer fraqueza minha contra mim. Ignorar era minha melhor arma, e foi exatamente isso que fiz.Assim que cheguei à suíte, soltei um suspiro aliviado. Fechei a porta e encostei-me por um momento, tentando recuperar o equilíbrio. Olhei ao redor, admirando o quarto decorado com um luxo quase intimidador. As cortinas de tecido pesado, o tapete macio sob os meus pés e os móveis de madeira escura criavam um contraste aconchegante com a frieza do mármore no banheiro. Era impossível não me perder por um instante na beleza do lugar.O meu celular vibrou em cima da cama, trazendo-me de volta à realidade. Caminhei até ele, lembrando que o havia deixado ali mais cedo, e notei as várias chamadas perdidas do meu pai. O meu coração acelerou. Mesmo sem atender, já sabia o motivo das ligações. Re
MILENA CHRISTIANEu nunca se sentira tão esquisita em toda a minha vida, quer dizer, não tenho certeza se não, mas nesse momento é como se nunca tivesse acontecido, e, ao mesmo tempo, nunca sentira tanto desejo por alguém, embora pudesse justificar isso pelos hormônios da gravidez. Mas, assim que Edward, o irmão da minha melhor amiga, se afastara, um frio intenso tomou conta do meu corpo, misturado ao calor quase agoniante da piscina aquecida. A sensação era uma confusão de contrastes que me deixava desnorteada.Se quisesse me humilhar ainda mais, teria implorado para ele não ir. Mas eu não podia, e contentei-me em observar o moreno italiano caminhar em direção a Merith e ao marido dela. Ele fechara o robe com aquela elegância quase casual que só ele parecia dominar. Eu sabia que o que sentia era irracional, sabia que não devia me permitir pensar nisso, mas era como se um ímã invisível estivesse me puxando na direção dele.E falando em Merith, ela estava impecável como sempre, a sua p
EDWARD PORTMANA água quente ainda parecia gravada na minha pele enquanto eu me obrigava a sair daquele pequeno mundo que Milena e eu havíamos criado dentro da piscina, porque Lewis se inclinou sobre a borda, com o rosto carregado de entusiasmo, e cochichou, algo que imediatamente cortou o clima entre nós:— O Sr. Ghart quer muito falar com você, Edward.Soltei um suspiro longo, encarando Milena por um instante. O brilho nos olhos dela parecia carregar uma pergunta muda, mas não havia tempo para respostas. Afastei-me com relutância, o desejo pulsando em cada centímetro do meu corpo, mas ciente de que precisava controlar a situação. Saí da piscina rapidamente, movendo-me com precisão para evitar que qualquer um notasse o estado de excitação que os meus calções de banho não conseguiriam esconder.Segurei o robe que Lewis me entregou e o fechei com firmeza, mantendo uma expressão impassível enquanto me encaminhava para onde Ghart provavelmente me esperava. A minha mente ainda estava divi
EDWARD PORTMANAs águas quentes da piscina serviram como um contraste perfeito ao frio que assolava o ambiente. Eu não conseguia desviar os olhos de Milena enquanto ela se mexia na água, os movimentos fluidos criando pequenas ondas ao seu redor. O biquíni preto que ela vestia era simples, mas revelador o suficiente para deixar clara a nova curva da sua barriga. Ela estava completamente alheia ao impacto que causava em mim, ou talvez estivesse apenas fingindo. Difícil dizer.Eu havia planejado manter a minha atenção nos contatos que precisava fazer durante o evento, mas, por algum motivo, ela consumia cada pensamento meu. Talvez fosse a mistura de vulnerabilidade e força que Milena exalava. Grávida ou não, ela tinha um magnetismo que me fazia querer proteger do babaca do seu ex-marido, ao mesmo tempo, em que lutava contra um desejo avassalador que vinha crescendo nos últimos dias. Isso era completamente irracional. Tudo fingimento. Tudo atuação.Então, por que diabos eu não conseguia
Último capítulo