MILENA CHRISTIANO vento carrega consigo uma temperatura úmida e morna, e traz o cheiro da terra molhada e o gosto metálico de folhas em decomposição. Os meus cabelos dançam com a brisa, e por um momento, tudo parece suspenso, como se o tempo tivesse esquecido de passar por aqui.Lá fora, a paisagem se derrama em cores que parecem ter sido escolhidas à mão: laranjas preguiçosos, amarelos vívidos e vermelhos quase escandalosos. O outono, sempre ele. Nenhuma outra estação tem o atrevimento de ser tão bela justamente por estar morrendo.Sempre disse que era a minha época preferida, e não por hábito poético. É que há uma certa franqueza nas folhas que caem sem resistência, nos galhos que aceitam o desnudamento com dignidade. Nem a primavera, tão ruidosa em sua juventude, nem o inverno, tão dramático, me dizem tanto.Hoje, no entanto, essa beleza me parece uma bela e irônica afronta.Fecho a janela de vidro com um estalo suave, como quem confessa sem voz: já basta. Algumas folhas entraram,
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