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Capítulo 4 — Limites Invisíveis

Marco

Eu estava no escritório quando Tomás ligou, e reconheci o incômodo antes mesmo de atender, não pelo toque, mas pela sensação antiga que se instala no peito quando alguém que conhece demais decide falar.

Atendi no terceiro toque.

— Fala.

— Ela já foi embora? — Tomás perguntou, direto, como sempre.

Tomás era meu primo, e talvez por isso fosse também o único que ainda se permitia esse tipo de pergunta, o único que falava comigo sem medir palavras, sem pedir licença, como se o tempo entre nós tivesse parado em algum ponto que nenhum dos dois teve coragem de revisitar.

— Ainda não — respondi. — Está trabalhando.

Houve um silêncio breve do outro lado da linha, daqueles que não são falhas de conexão, são escolhas.

— Você sabe que eu não indicaria qualquer pessoa — ele disse. — Ainda mais para você.

— Eu sei — respondi. — Foi por isso que aceitei.

Metade verdade.

A metade conveniente.

Tomás suspirou.

— Marco… — começou, e quando ele dizia meu nome daquele jeito era porque vinha algo que eu não queria ouvir. — Você precisava mesmo se envolver?

Fechei os dedos ao redor da caneta.

— Estou acompanhando um problema na minha casa — respondi. — Isso não é envolvimento, é responsabilidade.

— Não é disso que eu estou falando.

Encostei as costas na cadeira, olhando para a parede à minha frente, branca, limpa, vazia demais.

— Ela é competente — continuei. — Discreta. Está fazendo exatamente o que você disse que faria.

— E você? — ele perguntou. — Está fazendo exatamente o que prometeu a si mesmo?

O silêncio caiu pesado.

— Não misture as coisas — respondi, mais frio do que pretendia.

— Eu não estou misturando — Tomás rebateu. — Estou lembrando.

Fechei os olhos por um segundo, o suficiente para a imagem que eu evitava insistir em aparecer, como sempre fazia quando alguém ousava tocar no assunto errado.

— Você confia nela? — perguntei, mudando o foco.

— Confio — ele respondeu sem hesitar. — Confio porque ela não força portas fechadas, Marco, ela entende limites, talvez melhor do que você imagina.

Aquilo me atingiu de um jeito incômodo.

— Justamente por isso — ele continuou — eu achei que fosse seguro.

— Seguro para quem? — perguntei.

Tomás demorou um segundo a responder.

— Para você.

O telefone ficou pesado na minha mão.

— Eu tenho controle da situação — disse.

— Você sempre acha que tem — ele respondeu, sem acusação, só constatação. — Até o momento em que percebe que não tem mais.

Levantei-me da cadeira, caminhei até a janela, observando a cidade lá embaixo, funcionando, barulhenta, viva, exatamente o oposto da minha casa.

— Ela não sabe de nada — eu disse. — E não vai saber.

— Eu sei — Tomás respondeu. — Mas você sabe que não é sobre saber. É sobre sentir.

Respirei fundo.

— Por que você está me ligando agora? — perguntei.

Do outro lado, ele suspirou outra vez.

— Porque a Helena comentou algo ontem à noite — disse. — Nada demais, só que a Luna achou a casa… silenciosa demais.

Minha mandíbula se fechou automaticamente.

— Ela comentou isso para você?

— Comentou — ele confirmou. — Riu, fez piada, como sempre faz quando algo a incomoda de verdade.

Fiquei em silêncio.

— Marco — Tomás chamou. — Se em algum momento você achar que isso está passando do limite, eu retiro ela do projeto. Sem explicações, sem drama.

Olhei para o relógio no pulso, o mesmo de sempre, o mesmo que marcava o tempo desde o dia em que tudo parou.

— Não — respondi. — Não precisa.

— Tem certeza?

Sim.

Não.

Talvez.

— Tenho — disse, escolhendo a palavra com cuidado. — Ela termina o trabalho.

Tomás não insistiu.

— Então resolve logo — falou. — O problema estrutural… e o resto.

— O resto não é um problema estrutural — respondi.

— Nunca foi — ele concordou.

A ligação terminou ali.

Fiquei parado por alguns segundos, o telefone ainda na mão, antes de desligar e caminhar pelo corredor do escritório, tentando afastar a sensação incômoda de que algo tinha sido deslocado dentro de mim.

Mais tarde, quando voltei para casa, encontrei o corredor em silêncio absoluto e a porta exatamente como sempre, branca, fechada, intacta.

Parei diante dela por um instante mais longo do que pretendia.

Tomás estava errado sobre muitas coisas.

Mas não sobre uma.

Algumas portas não se abrem sozinhas.

Elas se abrem quando alguém chega perto demais.

E Luna Ferreira estava chegando perto demais.

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