Mundo ficciónIniciar sesiónLuna
Davi percebeu antes de eu terminar a primeira frase. — Não — ele disse, largando a xícara na mesa com uma força teatral. — Não. Pela sua cara, eu já sei que isso não vai prestar. Revirei os olhos e afundei no sofá do apartamento dele, largando a bolsa no chão como quem deixa um dia inteiro cair junto. — Eu só comecei a falar. — Exatamente — ele respondeu. — E já começou com essa expressão de vou fingir que é só trabalho, mas não é. Suspirei. — É um cliente novo — comecei, tentando soar profissional. — Um projeto grande, complicado, cheio de regras estranhas. — Rico — ele interrompeu. — Reservado. — Rico reservado — corrigiu. — Difícil. — Bilionário? — perguntou, já sorrindo. — CEO — respondi. Ele levou a mão ao peito. — Ai, Luna. Começou errado. — Não é isso — tentei. — Ele é educado. Controlado. Quieto. — Lindo — completou. — Alto. — Muito alto. — Não exagera. — Luna, você mede um metro e sessenta e nove com documentação emocional questionável — ele disse. — Todo homem passa de um e noventa pra você. — Falta um centímetro — resmunguei. — O centímetro mais citado da história da humanidade — ele rebateu. — Já pensou em tatuar? Peguei uma almofada e joguei nele. — Para. Davi riu, se sentou ao meu lado e me encarou com aquela expressão que misturava humor e leitura psicológica precisa demais para alguém que só queria fazer piada. — Ele mexe com você — disse, agora sério. — Não porque é rico ou bonito, mas porque você não entende ele. Fiquei em silêncio por um instante. — Ele tem uma casa estranha — continuei, escolhendo as palavras. — Silenciosa demais. Organizada demais. E um quarto… — Claro que tem — Davi interrompeu. — Todo homem problemático tem um quarto. — Trancado — completei. Ele congelou. — Desculpa, volta. Um quê? — Um quarto — repeti. — Branco. No final de um corredor que parece ter parado no tempo. Ninguém entra. Nunca. Davi se levantou lentamente, como se estivesse absorvendo a informação inteira com o corpo. — Amiga… — disse, colocando as mãos na cintura. — Isso não é um cliente. Isso é um protagonista. — Davi. — Não — ele insistiu. — CEO bilionário, silencioso, lindo, com trauma mal resolvido e quarto trancado. Isso não é acaso. Isso é narrativa. — Eu não vou me envolver — falei rápido demais. — Claro que vai — ele respondeu. — A dúvida é se vai ser consciente ou fingindo surpresa. Passei a mão pelo rosto. — É só trabalho. Davi me encarou em silêncio por dois segundos, o que, vindo dele, já era um sinal de alerta grave, então se levantou do sofá, caminhou pela sala como se estivesse organizando um tribunal imaginário e disse: — Ok, vamos recapitular. Homem alto, rico, misterioso, casa silenciosa demais, quarto trancado, olhar que parece carregar segredos internacionais e você ainda vem me dizer que é só trabalho? Luna, se isso for só trabalho, eu sou um eletrodoméstico. Cruzei os braços, tentando segurar o riso, mas ele não me deu trégua. — Amiga, esse homem não precisa de arquiteta, ele precisa de terapia, um abraço longo e talvez… você. — DAVI! — reclamei. — Estou sendo responsável — me defendi. — Claro, claro — ele concordou, dramático. — Responsável como toda mulher que diz “não vou me envolver” três capítulos antes de se envolver profundamente. Já estou avisando: quando você estiver suspirando e fingindo que não sabe por quê, eu vou dizer “eu avisei” com muito carinho e zero empatia. Respirei fundo. — Ele é diferente — murmurei. — É — Davi concordou, agora mais calmo. — E você também fica diferente perto dele. Olhei para o teto, tentando organizar pensamentos que se recusavam a ficar em fila. — Eu só preciso terminar o trabalho — disse, mais para mim do que para ele. Davi sorriu daquele jeito satisfeito demais. — Claro — respondeu. — Termina o trabalho. Depois a gente vê o que você faz com o CEO misterioso e a porta proibida. Fechei os olhos por um instante. Talvez fosse só trabalho. Ou talvez eu estivesse entrando, sem perceber, em uma história que ainda não tinha decidido contar inteira para mim mesma.






