O silêncio na mansão era raro, mas hoje o casarão parecia respirar mais fundo. Vincenzo havia saído às pressas. Uma emergência em um dos carregamentos de vinho no porto — que na verdade camuflava uma carga de armamento — exigiu sua presença imediata. Ele partira com Vittorio e seus homens, deixando para trás um rastro de tensão e poeira.
No andar de cima, no quarto de Julia, o ambiente era de refúgio. O quarto era amplo, decorado com sedas e tons de creme, um contraste absoluto com o quarto apertado e úmido que Luna dividia com a irmã.
— Obrigada por isso, Julia. De verdade — disse Luna, sentada na ponta da cama, segurando uma xícara de chá que mal havia tocado.
— Não me agradeça, Luna. Você é a melhor aluna daquela faculdade, você merece o mundo — Julia respondeu, mas seu sorriso vacilou ao ver a expressão da amiga.
Luna tentou sorrir de volta, mas o peso dos últimos meses desabou de uma vez. As primeiras lágrimas transbordaram, quentes e pesadas.
— Eu não aguento mais, Ju... — a voz de Luna quebrou em um soluço sufocado. — Todas as noites... o ferro atrás da porta, o som dos passos dele no corredor... Eu fico acordada até o sol sair só para garantir que a Mila esteja segura. Eu estou exaurida. Minha alma parece que está desabando.
Julia sentou-se ao lado dela e a abraçou com força. Luna fechou os olhos, deixando as últimas lágrimas caírem enquanto o cansaço acumulado de meses de vigilância finalmente vencia sua resistência. Em poucos minutos, o choro deu lugar a uma respiração profunda e pesada. Luna adormeceu ali mesmo, exausta demais para se mover.
Julia a cobriu com uma manta de caxemira, apagou a luz e saiu silenciosamente, deixando a amiga finalmente descansar em um lugar onde o Tio José jamais chegaria.
O Ódio de um Don
Horas depois, o som de carros potentes estacionando no pátio anunciou o retorno dos homens. Vincenzo entrou na mansão com o humor sombrio; a emergência no porto fora um aviso de um clã rival, e ele estava pronto para derramar sangue.
Antes que ele pudesse subir e exigir a presença da "sua" nova assistente, Julia o interceptou no corredor.
— Escritório. Agora. Todos vocês — disse Julia, com uma autoridade que raramente usava.
Vincenzo, Vittorio, Luca, Giuseppe, Marco, Giovanni e o irmão de Julia, Raffaele, entraram no escritório de mármore. Vincenzo sentou-se em sua poltrona, a expressão de poucos amigos.
— Onde está a garota? — Vincenzo rosnou. — Ela deveria estar organizando os relatórios.
Julia respirou fundo. Suas mãos tremiam, mas não de medo do primo, e sim de indignação.
— Ela está dormindo no meu quarto, Vincenzo. E ninguém vai acordá-la.
Vincenzo abriu a boca para protestar, mas Julia começou a falar. Ela contou tudo. Falou sobre o Tio José, sobre o pervertido que rondava a porta das sobrinhas todas as noites, sobre o medo constante de Luna e o fato de ela dormir com uma barra de ferro para proteger a irmã de 18 anos.
Julia não conseguiu conter o choro ao descrever a exaustão de Luna. Raffaele, vendo a dor da irmã, caminhou até ela e a envolveu em um abraço protetor. Julia encostou a cabeça no peito do irmão, soluçando.
O silêncio que se seguiu no escritório era mortal. Luca e Giovanni trocaram olhares de puro desprezo por aquele homem que eles nem conheciam, mas que já odiavam. Vittorio apertou os punhos, a mandíbula tão travada que os músculos do pescoço saltavam.
Vincenzo, no entanto, permaneceu em silêncio absoluto. Seus olhos, que antes brilhavam com irritação, tornaram-se duas pedras de gelo negro. Ele não gritou, não quebrou nada. Mas o ódio que emanava dele era tão denso que parecia baixar a temperatura da sala.
A ideia de que alguém — um homem medíocre e covarde como José — havia ousado amedrontar o que agora ele considerava "seu" despertou o monstro mais cruel dentro de Vincenzo Medici.
— José... esse é o nome dele? — Vincenzo perguntou finalmente, sua voz saindo tão fria que fez Julia estremecer.
— Sim — respondeu Julia, limpando o rosto.
Vincenzo levantou-se lentamente. Ele olhou para seus homens de confiança. Não precisou dizer uma palavra. O comando estava dado no olhar.
Ele saiu do escritório sem olhar para trás, mas todos sabiam: o destino de José estava selado. E Luna, quando acordasse, estaria entrando em um mundo novo, onde o medo de seu tio seria substituído por uma proteção que poderia ser tão possessiva quanto perigosa.