CAPÍTULO 6

Serafina viu o pai se aproximar e segurar seu braço com firmeza.

Frederico a encarava com o mesmo olhar de antes: culpa misturada com rigidez, como se ela estivesse apenas cumprindo o dever que carregava por nascer uma Morreti.

Cada passo até o altar parecia lento e pesado sob o olhar fixo de Damian.

Ela queria atrasar aquele momento, caminhar devagar, prolongar o máximo possível os segundos antes de chegar até ele.

Mas o corredor pareceu curto demais, e logo já estava diante do altar.

— Damian Falconi — Frederico começou, com a voz firme. — Eu entrego minha filha a você como sua esposa e peço que a ame e cuide dela, tal como eu o fiz.

O punho de Damian se fechou com força sobre o braço da cadeira de rodas.

O maxilar travou. E todos sentiram a tensão vinda dele. Sabiam que se fosse antes, certamente alguém já estaria no chão implorando misericórdia.

Damian encarou a mulher a sua frente, sem disfarçar seu desgosto por ela e por toda aquela situação.

Era Josefina quem deveria estar ali.

Josefina era quem deveria caminhar até ele vestida de branco.

Josefina era quem deveria se tornar sua esposa.

Mas, no lugar dela, estavam lhe entregando outra mulher. Uma falsa substituta.

As mãos de Serafina também tremiam sobre o buquê, apertando os ramos com tanta força que quase os quebrava. Sentia-se como um sacrifício entregue para selar um pacto de sangue.

Frederico segurou o rosto da filha com uma ternura difícil de distinguir entre verdadeira e forçada. Depositou um beijo em sua testa e então se afastou do altar.

— Os noivos estão prontos? — perguntou o juiz.

Serafina olhou discretamente para Damian.

Ele sequer a encarou.

Apenas virou a cadeira em direção ao juiz, ignorando completamente sua presença.

Ela desviou o olhar e fez o mesmo.

A cerimônia começou.

As palavras do juiz ecoavam pelo salão, frias e distantes, enquanto o ambiente permanecia silencioso demais para um casamento.

Os dois assinaram os documentos sem trocar uma única palavra.

Logo depois, um homem se aproximou trazendo as alianças.

Serafina estendeu a mão para pegar a aliança masculina, mas Damian a tomou primeiro.

Sem sequer olhar para ela, colocou a própria aliança no dedo.

O gesto frio fez um desconforto percorrer o salão.

Serafina engoliu em seco antes de pegar a própria aliança e colocá-la sozinha.

— Pelo poder a mim concedido, eu os declaro marido e mulher. Os noivos já podem se beijar.

O silêncio que caiu sobre o salão foi sepulcral.

Serafina sentiu o corpo inteiro tensionar.

Beijar?

Seu olhar foi lentamente para Damian.

Os dedos dele apertaram o braço da cadeira com tanta força que os nós ficaram esbranquiçados.

Então ele ergueu os olhos para o juiz, frio, mortal.

O homem empalideceu imediatamente, dando um passo para trás ao perceber o erro que cometera.

Já havia sido avisado para não mencionar aquela parte da cerimônia, mas as palavras simplesmente saíram por hábito.

— B-bom... felicidades aos noivos...

O juiz começou a aplaudir sozinho, nervoso.

Pouco depois, os convidados fizeram o mesmo, embora o ambiente continuasse pesado demais para qualquer comemoração.

Sem esperar felicitações, Damian virou a cadeira bruscamente e deixou o altar, desaparecendo pelo corredor lateral da mansão.

Serafina o acompanhou com os olhos até ele sumir de vista.

Só então conseguiu soltar o ar preso nos pulmões.

Aquilo não parecia um casamento. Parecia apenas uma transação.

E sinceramente... desde que não fosse obrigada a conviver com ele além do necessário, ela não se importava.

— Minha filha...

Amélia aproximou-se rapidamente e a abraçou com força.

— Por favor... me perdoe. Me perdoe...

Serafina olhou para a mãe e forçou um pequeno sorriso enquanto secava as lágrimas dela.

— Está tudo bem, mãe. Vocês estão vivos... e isso é o que importa.

Os irmãos e os pais se aproximaram logo depois, abraçando-a e beijando seu rosto.

Todos sabiam o quanto Serafina odiava aquele mundo. Por isso, entendiam o tamanho do sacrifício que ela estava fazendo.

— Por que esse casamento parece mais um funeral? — uma voz comentou atrás deles. — Tem choros, lamentos e tudo mais.

Riccardo aproximou-se lentamente.

O olhar dele caiu sobre Serafina, avaliando-a da cabeça aos pés.

— Os Morreti realmente são impressionantes — disse com um sorriso irônico. — Uma filha mal morreu, e vocês já entregaram a outra para os Falconi. Parecem bastante desesperados para recuperar o prestígio perdido.

Fabiano imediatamente deu um passo à frente, ficando cara a cara com ele.

— Riccardo, soube do fracasso da sua operação em Veneza. — O Morreti sorriu com deboche. — Essa já deve ser a terceira operação que dá errado sob seu comando, não é? Engraçado... desde que o Damian se afastou dos negócios, parece que tudo está indo de mal a pior.

O maxilar de Riccardo se contraiu.

Fabiano percebeu e sorriu ainda mais.

— Pelo visto, mesmo com Damian fora do comando, você continua longe de se tornar o próximo Capo da família Falconi.

Riccardo cerrou o punho, lançando-lhe um olhar carregado de ódio.

— Se preocupe primeiro em manter sua irmã viva — rebateu friamente. — E deixe que eu cuido dos meus negócios.

Os olhos dele recaíram novamente sobre Serafina. Frios, sérios, pesados.

— Espero que esteja preparada para todas as responsabilidades... e consequências que o sobrenome Falconi D'Angelo carrega, cunhada.

Sem esperar qualquer resposta, Riccardo se afastou, deixando um clima pesado no ar.

Serafina franziu o cenho, confusa, e virou-se imediatamente para os pais e o irmão mais velho.

— O que ele quis dizer com isso?

Os três trocaram olhares receosos.

Ninguém respondeu.

O silêncio deles apenas fez o coração dela acelerar e ficar mais nervosa.

— Falem de uma vez! O que ele quis dizer com “manter sua irmã viva”?

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