— Contei. Ele me ouviu. Disse que vai observar também.
Pamela
Eu demorei pra criar coragem de ligar pra Flávia. Passei a manhã inteira com aquela sensação estranha no peito, como se o sonho ainda estivesse grudado em mim. As crianças brincavam no tapete da sala, as babás por perto, tudo aparentemente normal. Mas por dentro eu estava longe disso.
Disquei o número dela com a mão meio trêmula. Quando ela atendeu, a voz veio suave, como sempre.
— Pamela? Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu… — respondi. — Posso ir aí? Ou falar agora mesmo?
— Fala comigo. O que foi?
Respirei fundo. Não dava pra enrolar.
— Eu tive um pesadelo com o Daniel.
Do outro lado da linha, ela não respondeu na hora. Não foi silêncio de surpresa, foi de atenção.
— Me conta — ela disse, calma.
Comecei do início. Falei da casa, do fogo, da sensação ruim, da presença dele no sonho. Falei sem embelezar nada, sem tentar parecer racional. Só joguei pra fora.
— Eu acordei com medo, Flávia. Medo de verdade. E o pior é que eu não sei explicar exatamente do quê.
Ela suspirou baixo.