Capítulo 2

A música cessou de repente.

O salão inteiro mergulhou em um silêncio respeitoso quando o Ancião Damian caminhou até o centro do círculo de pedra.

As tochas crepitavam nas paredes, lançando sombras que dançavam sobre os rostos da alcateia.

Meu coração acelerou.

Era o momento.

Mirella segurou minha mão por um instante antes de soltá-la.

— Respira.

Sorri sem mostrar os dentes.

— Estou tentando.

Damian ergueu os braços.

— Nesta noite, sob a Lua Sangrenta, testemunharemos a escolha da companheira do Alfa Ethan Blackwood. Que a Deusa da Lua ilumine seu coração e fortaleça sua decisão.

Todos bateram o punho no peito em sinal de respeito.

Fiz o mesmo.

Meu olhar encontrou Ethan.

Ele permanecia imóvel.

Sério.

Mais sério do que eu já o tinha visto.

Aquilo me incomodava.

Sempre imaginei esse momento de outra forma.

Ele sorrindo.

Caminhando até mim.

Segurando minha mão.

Nada daquilo estava acontecendo.

Damian deu um passo para trás.

— Alfa Ethan... faça sua escolha.

O salão inteiro voltou os olhos para ele.

Ethan respirou fundo.

Então começou a caminhar.

Meu coração parecia acompanhar cada passo.

Um.

Dois.

Três.

Ele vinha na minha direção.

Senti minhas mãos ficarem geladas.

Algumas mulheres já sorriam discretamente.

Era óbvio para todos.

Ou pelo menos parecia.

Ethan parou bem diante de mim.

Tão perto que eu conseguia sentir seu perfume.

Olhei em seus olhos.

Não encontrei carinho.

Nem felicidade.

Encontrei culpa.

Franzi a testa.

— Ethan...

Ele fechou os olhos por um breve segundo.

Como alguém reunindo coragem para fazer algo terrível.

Quando voltou a encará-los, sua voz saiu firme.

Alta.

Para que toda a alcateia ouvisse.

— Ayla Valen...

Meu estômago se contraiu.

— ...eu rejeito você como minha companheira.

O mundo parou.

Ninguém respirou.

Nem eu.

As palavras demoraram alguns segundos para fazer sentido.

Rejeito.

Companheira.

Eu.

Um zumbido tomou conta dos meus ouvidos.

Sorri de maneira involuntária.

Como se meu cérebro se recusasse a acreditar.

— Isso... não tem graça.

Ele não sorriu.

Nem piscou.

— Você não é digna de ocupar o lugar ao meu lado como Luna da alcateia.

Cada palavra parecia uma lâmina atravessando meu peito.

Olhei ao redor.

As pessoas cochichavam.

Algumas desviavam o olhar.

Outras demonstravam pena.

Foi então que ouvi uma risada.

Baixa.

Discreta.

Virei o rosto.

Serena.

Ela escondia o sorriso atrás da taça de vinho.

Meu coração afundou.

— Ethan...

Minha voz falhou.

— O que está acontecendo?

Ele permaneceu imóvel.

— Estou fazendo o que deve ser feito.

— Nós crescemos juntos...

Minha garganta queimava.

— Você disse...

— Eu nunca prometi nada.

As palavras me atingiram com mais força do que a própria rejeição.

Nunca prometi nada.

Talvez fosse verdade.

Ele nunca disse que me amava.

Nunca falou que eu seria sua companheira.

Fui eu quem acreditou nos olhares.

Nos gestos.

Nos silêncios.

As lágrimas começaram a embaçar minha visão.

Não.

Eu não iria chorar.

Não ali.

Não diante de todos.

Respirei fundo.

— Olhe para mim... e diga que essa decisão é realmente sua.

Pela primeira vez naquela noite, Ethan hesitou.

Foi só um segundo.

Mas eu vi.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Helena Blackwood, sua mãe, aproximou-se.

Seu rosto carregava o mesmo desprezo de sempre.

— Já ouviu o suficiente?

Ela me olhou de cima abaixo.

— Saia daqui antes que envergonhe ainda mais esta cerimônia.

Mirella deu um passo à frente.

— Isso já passou dos limites.

Helena lançou-lhe um olhar frio.

— A filha do Beta deveria aprender a ficar calada.

— E a futura ex-sogra deveria aprender educação.

Segurei o braço de Mirella antes que aquilo piorasse.

Minha cabeça girava.

O salão parecia pequeno.

Quente.

Difícil de respirar.

Olhei novamente para Ethan.

Ele continuava parado.

Sem fazer absolutamente nada.

Aquilo doeu mais do que qualquer palavra.

Baixei a cabeça.

— Entendi.

Minha voz saiu baixa.

Quase um sussurro.

— Espero que um dia você encontre a felicidade que acredita merecer.

Virei-me para sair.

Dei apenas dois passos.

Então uma pontada violenta atravessou meu estômago.

Parei.

Levei a mão ao ventre.

Outra pontada.

Mais forte.

Minha visão escureceu por um instante.

— Ayla?

Ouvi a voz de Mirella ao longe.

Respirei fundo.

Não podia desmaiar.

Não agora.

Continuei andando.

A terceira pontada veio acompanhada de uma onda de náusea tão intensa que meu corpo dobrou para frente.

O salão inteiro ficou em silêncio.

Alguém segurou meu braço.

Não consegui distinguir quem.

Meu estômago revirou.

Corri até uma das colunas de pedra e vomitei.

O gosto amargo tomou minha boca.

Limpei os lábios com o dorso da mão, envergonhada.

Ouvi os cochichos aumentarem.

— Ela está doente?

— Parece fraca...

— Talvez esteja enfeitiçada.

Tentei dar mais um passo.

Minhas pernas falharam.

O chão veio ao meu encontro.

A última coisa que vi antes da escuridão me envolver foi o rosto assustado da curandeira correndo na minha direção.

E, por um breve instante...

Um par de olhos dourados observando tudo da entrada do salão. Não havia dúvida naquela expressão.

Havia reconhecimento.

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